As resistências dos movimentos classistas na derrocada do lulismo

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A movimentada e acirrada conjuntura política nacional do ano que passou não facilita a confecção de um balanço que enfatize as determinações objetivas e subjetivas mais profundas da luta de classes brasileira. Por baixo dos discursos espalhafatosos da maioria dos atores políticos burgueses, escondem-se práticas subterrâneas reveladoras da realidade atual (1).

Talvez o mais revelador evento de 2016, que fechou com “chave de ouro” o ano, tenha sido o imbróglio entre Renan Calheiros e o STF ocorrido em dezembro. Poucas vezes um acontecimento foi tão pedagógico para os trabalhadores como este: a sustentação que Jorge Viana e o PT deram ao coronel alagoano no Senado, de modo a garantir a aprovação da PEC do Mal, expôs o quão central ainda é o papel do partido - que já foi dos trabalhadores - na podridão do sistema político opressor em que sempre vivemos.

No plano do discurso e da performance política-institucional, o PT votou contra o teto de gastos públicos, mas na prática e nos bastidores comprometeu-se decisivamente com mais este ataque às classes populares. Assim, endossou o suposto golpe que sofreu tanto quanto jogou a favor do conservadorismo e do “fascismo” que aparentemente nos assolam. Mais uma vez, e contrariando o senso comum, PT de um lado, PSDB de outro (com o PMDB variando sua posição conforme as hegemonias temporárias), se mostraram antes complementares que opostos na dinâmica política nacional. Tal diagnóstico corresponde, se observarmos a conceituação de Caio Prado Jr. em “A Revolução Brasileira”, às movimentações reais do “capital burocrático” - que envolve maior intervenção estatal - e do “capital ortodoxo” - que presume a centralidade do mercado – no desenvolvimento capitalista, os quais se sucedem definindo períodos de nossa história. “Estatistas” e “mercadistas”, contudo, são acima de tudo expressão da política burguesa.

Portanto, não é surpresa que porta-vozes do capitalismo nacional no colunismo político, seja o neoliberal e reacionário, seja o neodesenvolvimentista e “progressista”, se igualem na defesa do financiamento empresarial das campanhas eleitorais, que implica necessariamente na corrupção e na colonização da política pela economia. Ambas as vertentes político-ideológicas desejam a manutenção do chamado caixa 2, pois na verdade disputam a gestão do capital no Brasil. Mas quer tenhamos mais mercado ou mais Estado, o resultado é sempre o mesmo: crises econômicas, como a que hoje vivemos, pagas às custas dos trabalhadores.

Não é à toa também que rapidamente PT e PCdoB desmoralizaram a narrativa do golpe e entraram em acordo com os “golpistas”, quer votando em PSDB, PMDB ou DEM do Congresso Nacional até as Câmaras Municipais, quer aprovando versões estaduais da PEC do Mal, como no Ceará governado pelo PT, ou mesmo propondo explicitamente  o “Fica Temer” (caso do governador do Maranhão, do PcdoB. Não por acaso afirmou o deputado federal petista José Guimarães: “A grande dificuldade da conjuntura no momento é a reinserção do PT no seu habitat social”.

É certo que parte da ainda restante militância de esquerda no PT reconhece tacitamente esse processo, embora brade o discurso do golpe. Tentando uma sobrevida política ao responder à parcela da intelectualidade que aderiu a esse discurso, ela precisa encontrar meios de autojustificar, conquanto de forma melancólica, seus momentos de maior ou menor suporte como base do partido: “Além disso, jogou contra o desempenho e a defesa do PT a atitude de diversas candidaturas petistas que esconderam a estrela, o nome e a cor vermelha do Partido de seus materiais de campanha e/ou silenciaram-se em relação ao golpe e os ataques de Temer aos direitos sociais, subestimando o peso da conjuntura nacional sobre o eleitor na definição do voto” (“O dia seguinte”, artigo de Rodrigo Cesar em Página 13 PT, n. 157, out-nov 2016, p. 10).

Contudo, mesmo este tipo de análise é parcial, pois ignora propositadamente que o PT já esquecia suas origens – de modo a recolher frutos eleitorais à direita durante os governos Lula e Dilma – pelo menos desde a Carta aos Brasileiros de 2002. Ou seja, a direitização do PT, culpabilizada taticamente por sua derrocada, na verdade foi responsável estrategicamente por seu protagonismo na política de conciliação de classes que nos legou o Brasil de hoje.

Neste quadro, toda a rede de apoiadores e legitimadores dos governos do PT se debate para entender porque o colaboracionismo de classes que praticaram resultou no atual desastre social brasileiro. Neste âmbito, a imprensa ex-governista é tão tosca, antipopular, moralista e economicista quanto a grande mídia neoliberal, pois - tal como em 2013 por ocasião das jornadas de junho - culpa as próprias classes populares por deixarem de dar crédito e legitimidade eleitoral ao PT e a suas políticas públicas supostamente virtuosas – veja-se (2).

O “golpe” como antídoto da “autocrítica”

O andar da conjuntura pós-impeachment já deixou evidente que o discurso do golpe se resumiu basicamente a uma operação de agitprop, bastante convincente para certos estratos sociais minoritários, visando reforçar a defesa do PT e de seus parceiros da “ex-querda” em crise (3). Não que Temer não deva ser identificado como golpista. Mas pouco ou nada restou das mobilizações contrárias ao “golpe”, centradas na defesa de Lula e no “Fica Dilma”. Os “comitês contra o golpe” espalhados por universidades brasileiras se extinguiram ou estão inoperantes.

Os sindicatos cutistas não fizeram greves ou mobilizações minimamente relevantes contra o impeachment. Quem se mobilizou de fato contra as medidas antipopulares do governo ilegítimo de Temer foram sindicatos que já estavam na linha de frente do combate às políticas precarizantes dos governos petistas, tais como o ANDES-SN, a FASUBRA e o SINASEFE, os quais entraram em greve em 2016 assim como tinham feito em 2012 e 2015. Foram estas grandes entidades da educação pública, junto com outras organizações e movimentos (como a CSP-CONLUTAS, o MTST etc.), as que efetivamente lutaram contra as PECs do Mal e da reforma do ensino médio. Mas não foram delas o protagonismo da resistência classista, e sim da juventude, por meio das massivas ocupações estudantis de universidades e escolas, luta construída conforme o legado das jornadas de junho de 2013.

Dois destaques

Primeiro, o fato de exclusivamente a oposição de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, MAIS, coletivos autonomistas e anarquistas), atuante nos movimentos sociais e que recusou a domesticação de classe promovida por PT e CUT, ter mostrado capacidade de luta para enfrentar o governo Temer com mobilizações efetivas e radicalizadas, não apenas demonstrativas ou proclamatórias - como as da Frente Brasil Popular.

Segundo: a pauta da resistência dos trabalhadores e da juventude contra os ataques de todos os governos não tem sido a abstrata pauta “democrática” e burguesa em defesa do Estado de Direito, justificada pelo golpe que não houve (aliás, se estivéssemos sob uma ditadura, porque teríamos participado das eleições municipais? A esquerda honesta nunca corroborou regimes autoritários de direita).

Pelo contrário: a pauta das lutas atuais é socioeconômica, contra a retirada de direitos promovida pelo conservadorismo alimentado pela “progressista” conciliação de classes - sempre fadada ao fracasso no Brasil. Lutamos hoje, infelizmente ainda sem vitórias, também contra as reformas trabalhista e previdenciária. Trata-se de uma pauta classista por excelência, em defesa dos direitos dos trabalhadores, contra ataques mais fortes desferidos por Temer e companhia, os quais possuem seus antecedentes nos governos do PT (tais como a reforma da previdência de 2003 com Lula, a Lei Antiterrorista, o ajuste fiscal de Dilma etc.).

Por ora, desfeitos os sonhos de conciliação de classe promovidos pelos governos petistas, fica patente a deslegitimação social dos argumentos intelectuais dos ex-governistas. Suas explicações da terrível conjuntura que vivemos revelam a má-consciência ou o cinismo de quem se sabe responsável pela reação conservadora que sempre se segue a toda experiência populista. Porém, presos a seus interesses na gestão do capital via políticas públicas que operaram e ainda almejam (e a qual podem retornar com Lula em 2018), veem os fatos negarem cada vez mais seus prognósticos.

Uma vez que a Lava Jato não terminou com o impeachment (como previam os analistas ex-governistas), não tendo havido até agora um “acordão” em favor dos envolvidos na corrupção, o qual interessa a Temer, Aécio, Lula etc., as interpretações de petistas e aliados passaram a se desenrolar em espiral. Tal como nas diagnoses neoliberais, que sempre se autojustificam no mesmo sentido cego (“as reformas pró-mercado não deram certo, pois não foram longe o suficiente, então a solução é... mais reformas pró-mercado”), o discurso do golpe seguiu em looping: se ele não se concretiza como o esperado é porque virá por aí o... “golpe dentro do golpe”!

E assim seguem os intelectuais do ex-governismo alienados da realidade. Não querem perceber que lançam mão de duas narrativas mutuamente excludentes: ou bem ocorre um “acordão” de conservadores corruptos contra o PT ou estamos sob a égide de um Estado judiciário-policial descontrolado que avança sobre tudo e todos. Da mesma maneira procederam em relação à morte do ministro do STF Teori Zavascki (se ele era “golpista”, porque o mataram? - inadvertida e ironicamente, ex-governistas assumiram então uma narrativa virtuosa da Lava-Jato).

Um exemplo notável a respeito foi o episódio envolvendo o ex-governador Sergio Cabral. Como as investigações e prisões chegaram à quadrilha corrupta do ex-aliado de Lula e Dilma, passou-se à suposta defesa de seus direitos humanos, no ritmo frenético e retórico das redes sociais. Deve-se fazer a distinção, aqui, entre o real debate antipunitivista e o interesse oportunista de quem nunca se manifestou sobre o tema quando os governos Lula e Dilma intensificaram o encarceramento em massa.

Mas por trás das belas palavras a favor de direitos universais tornados abstratos, escondia-se algo meramente casuístico: o medo da prisão de Lula. E mais outra coisa: a tentativa de esconder a responsabilidade da ex-esquerda – PT e PCdoB - que apoiou Cabral na destruição do Estado, na rapinagem clientelista das instituições públicas, na mercantilização completa do Rio de Janeiro de grandes obras e eventos, no genocídio da juventude negra e favelada pelas mãos da asquerosa Polícia Militar.  

Emblemáticos desta postura negacionista são artigos de João Feres Jr. que, contestando a necessidade de alguma autocrítica da experiência petista nos governos, denotam um obscurantismo intelectual. Mas nada se pode esperar de alguém que assim analisou os governos de Cabral: “Ele chegou sanando as finanças públicas e logo depois vieram as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), um grande sucesso da política de segurança do estado. Obviamente, foi maculado por causa das denúncias de corrupção, a ligação com o empresário Fernando Cavendish (dono da Delta) etc., mas isso de maneira alguma deve cancelar os pontos positivos”.

Por conta desta justificação da aliança do PT com o PMDB temos o Rio de Janeiro (e o Brasil) com um saldo econômico desastroso: esbaldando-se com verbas públicas e recursos fáceis advindos do petróleo (enquanto no plano nacional a economia alavanca-se no agronegócio), a “ex-querda” distribuiu riquezas para o capital que foram rapidamente desviadas, enquanto alocava recursos menores para políticas sociais.

Hoje, depois de anos de crescimento, o estado está quebrado e não consegue nem pagar os salários dos servidores públicos (a UERJ não consegue funcionar em mínimas condições), por conta de total desinteresse e incapacidade de PT, PMDB e demais membros da corja corrupta resguardarem reservas financeiras para a sociedade. O resultado deste processo, intrínseco a qualquer experiência populista de conciliação de classes, é a destruição de direitos sociais que hoje os movimentos classistas buscam enfrentar nas ruas – não nos gabinetes onde o PT gestou esta situação. Situação a que se chega ao se acreditar que intervenção estatal pode “domar” crises do capitalismo - na verdade mero artifício para ocupar o Estado (por neoliberais ou neodesenvolvimentistas), objetivando a predação da riqueza pública produzida pelos trabalhadores.

Por outro lado, posições críticas ao populismo lulista são possíveis e necessárias. Um militante fundador do PT, Olívio Dutra, que ainda resguarda posturas das origens combativas nos anos 1970/80, é bem duro com a acomodação burocrática e corrupta de seu partido. No plano intelectual, a crítica aos anos do PT no poder estatal pode se basear na conceituação do lulismo, de André Singer – por sinal, um intelectual petista (3).

De qualquer maneira, se o discurso do golpe se efetiva para tentar obstar a percepção do fracasso da experiência histórica do lulismo, não se trata também de exigir “autocrítica” das direções petistas e cutistas. Dado que PT e CUT, ainda que contando com apoio popular residual, tornaram-se agentes do lulismo e instrumentos da gestão da ordem do capital com ênfase na ação estatal, não lhes é mais possível alguma “autocrítica”. Isto é, algo fora da alçada do lulismo e da “ex-querda” representada pelas direções de PT e PCdoB. Como entendemos que o lulismo é uma atualização do populismo pré-64 (contra o qual, aliás, a geração petista e cutista nasceu), ele só é capaz de incorporar de modo subalternizante as classes populares na cena pública.

“Vem meteoro!” ou escatologia intelectual na argumentação do conservadorismo e do fascismo

Neste sentido, deve-se registrar a discrepância entre as diferentes percepções do lulismo: as classes populares já o abandonaram (o que não quer dizer que não possam a ele retornar), enquanto os intelectuais ainda resistem a fazê-lo. Tal fenômeno certamente se relaciona a fortes sentimentos de derrota, retrocesso ou desilusão que tomaram parte dos estratos mais intelectualizados da sociedade brasileira desde 2015 ao menos (4). Esta sensação deve estar relacionada à atual desmoralização por que passa o lulismo, identificado erroneamente como crise da esquerda. Na verdade, observamos em tempo real a segunda experiência fracassada de conciliação de classes na história brasileira – a primeira, promovida pelos antigos PTB e PCB, foi interrompida pela ditadura militar.

Esta percepção equivocada se desdobra no enganoso diagnóstico de uma ascensão conservadora no Brasil (quiçá no mundo) ou mesmo de uma escalada fascista. A sucessão de direitas progressistas (Obama) por direitas conservadoras (Trump) mundo afora reforça essa impressão e angustia os grupos sociais de maior capital cultural. Mas em nosso caso tal processo diz mais da situação dos intelectuais do que aponta algo de novo na realidade nacional, visto que a sociedade brasileira sempre foi desigual, violenta e conservadora.

Para os lulistas, faz todo sentido este sentimento derrotista. Sem a devida leitura crítica, a realidade de seu fracasso e o impacto da negação de suas teses pelo desenrolar dos fatos são encarados pela intelligentsia encastelada na burocracia estatal e nas universidades (e distante dos movimentos sociais combativos) como o próprio fim do mundo. O que é revelado com nitidez pelo discurso escatológico proferido por Wanderley Guilherme dos Santos (5). Seu caso é exemplar, pois ele foi partícipe das duas experiências de colaboração de classes de nossa história: os populismos trabalhista e lulista. Para a geração petista-cutista, que vivencia pela primeira vez a derrota da crença na capacidade da democracia representativa e do Estado de Direito burguês propiciarem um capitalismo “humanizado”, o juízo de desilusão com um Brasil que “não deu certo” como nação é inevitável.

Fredric Jameson, em “A Estética da Singularidade”, caracteriza a pós-modernidade como um tipo de milenarismo. O autor usa a metáfora de um alienígena que se desencanta com tudo que vê no nosso planeta, sendo levado a reconhecer que o que vê não é novo, trata-se apenas de um outro estágio do capitalismo. Essa mudança na etapa de desenvolvimento do capitalismo, de produtivista para financeiro, é fundamental para compreendermos o tipo de mascaramento que a escatologia do “fim do mundo” promove. A referida escatologia se converte em uma abstração (6) que, no debate intelectual nacional entre lulismo e liberalismo, se apresenta como um filtro que dificulta a percepção dos movimentos e lutas reais no conjunto da sociedade, fazendo o debate girar falsamente em raciocínios circulares.

Tal desilusão é comum inclusive a parcelas da oposição de esquerda. Muitos de nós compreendemos a sucessão do lulismo pelo conservadorismo como um acidente, uma anomalia, como retrocesso, enfim... Mas, por acaso, acreditávamos que o populismo era a etapa anterior ao socialismo, ao invés de obstáculo a processos de transformação social radical? Será que acreditamos numa história progressista linear, à maneira iluminista, liberal? Parece que sim, pois esperamos que o centro do imperialismo mundial, os EUA, eleja uma mulher, depois de um presidente negro. Estranhamos que Trump seja a resposta tardia à crise de 2008, pois somos crentes na superação do fascismo como conquista civilizatória. Nada disso! O fascismo é sempre reposto como potencialidade em toda crise cíclica do capitalismo.

Lamentamos que o prefeito paulistano, o odioso coxinha João Dória, ressuscite o repugnante marketing janista e moralista da vassoura, esquecendo-nos que o populismo, de direita ou esquerda, não é o “atraso” no Brasil, mas a outra face de nossa “modernidade” capitalista. Até parece que o PT nunca se beneficiou da “pequena política” clientelista dos Eduardos Cunhas da vida para implementar suas políticas públicas...

O conservadorismo sempre é empoderado pelos populismos e pela conciliação de classes. Nossa história e sociedade são dinâmicas, combinam dialeticamente “avanços” e “retrocessos”. Felizmente, a maior parte da esquerda entende que são justamente os conflitos que movem as sociedades. E ressalta, para além da velha dualidade entre liberais e nacionalistas, que as lutas classistas no Brasil se renovam na atual década, a qual trouxe a retomada de greves de trabalhadores pela base, as massivas movimentações da juventude nas jornadas de junho de 2013 e nas ocupações estudantis, a Primavera das Mulheres em 2015 etc. Apesar da má impressão da sociedade brasileira vista “de cima” com o conservadorismo da velha política e economia burguesas, as movimentações dos “de baixo” prosseguem, ameaçando romper o amortecimento do campo popular promovido pelo lulismo e anunciando a possibilidade de mudanças positivas na conjuntura.

A resiliência do lulismo entre nós

Para conseguirmos mudar a dura correlação de forças entre as classes hoje vigente no país, é necessário ler nossa realidade sob o prisma da renovação dos movimentos sociais atualmente em curso, deixando de lado uma perspectiva analítica ainda polarizada pelo lulismo. E isto parece não ser tarefa fácil, pois parte da oposição de esquerda, talvez acostumada a ser a consciência crítica da geração petista-cutista (da qual se originou) durante a década passada, ainda não assumiu um papel mais incisivo e autônomo quando a conjuntura se inverteu.

Muitos de nós ainda estamos presos a raciocínios valorizadores da trajetória lulista mesmo no âmago de sua crise (“houve o golpe porque Lula venceria em 2018...”), ignorando o crescente declínio dos sucessos eleitorais do petismo no decorrer dos anos. Pior, às vezes até conseguimos virar de cabeça para baixo o velho discernimento classista, por ocasião da já citada defesa de Cabral quando de sua prisão: “se chegou nele, pode chegar a nós”. Mas desde quando o punitivismo e o fascismo atingem primeiro as elites para depois chegar aos pobres? Tememos o ódio de classe autenticamente partilhado pelos trabalhadores contra a burguesia, neste caso? Não é papel dos intelectuais de esquerda amortecer a inescapável conflituosidade social.

Não podemos esquecer que já denunciávamos o Estado de Exceção em que vivemos desde antes de Temer. Por acaso não se poderia falar em fascismo ou conservadorismo diante da intensificação do encarceramento de negros, jovens e pobres sob o lulismo? (apenas o encarceramento feminino aumentou inacreditáveis 550% entre 2000 e 2014, segundo dados do Ministério da Justiça). Não devemos criticar a “judicialização da política” apenas se ela se volta contra o PT, que tantas vezes se aliou – corretamente! - a setores do Ministério Público quando era oposição. E que, recolocado para fora dos governos, volta a recorrer legitimamente ao Judiciário na luta política e social (direito de qualquer cidadão na democracia burguesa, por sinal (7).

Também não se faz necessário recorrer a velhos raciocínios nacionalistas pretensamente anti-imperialistas para explicar o “golpe”. Se pode ser verdade que os EUA instrumentalizaram Moro contra a Petrobrás, a Odebrecht e nossa “burguesia nacional” (tão amada pela ex-querda!), mais evidente é o fato de que o lulismo sempre buscou e comemorou o apoio do imperialismo aos governos do PT desde Bush filho – e é de Obama o registro já clássico sobre Lula: “Ele é o cara!”. Se a Globo derrubou Dilma e persegue Lula, ela também apoiava e promovia os governos do PT, quando a economia brasileira crescia na década passada e o Brasil parecia “dar certo” (emblemático a respeito é o famigerado programa televisivo “Esquenta”, de Regina Casé, típica modalidade de expressão subalternizada das classes populares, que entronizava Lula e Dilma em entrevistas especiais).

É dispensável preservar o populismo lulista - enquanto sistema político de dominação burguesa – identificando apenas o governo ilegítimo de Temer como opressor. Não é a vontade temporária de quem dirige os governos que comanda os processos sociais, mas as características objetivas e subjetivas de nosso padrão capitalista específico – e a resistência classista dos movimentos sociais a ele. Caso contrário, caímos no diagnóstico - involuntariamente cômico - presente num banner online da revista Cult, após o impeachment de Dilma, que entre outras coisas se perguntava: “e não é que o país do futuro está entrando na Idade Média?”, respondendo afirmativamente que com Temer passamos a ter “exploração da classe trabalhadora” (pelo jeito ela tinha sido abolida sob o lulismo...). Da mesma maneira é inútil lamentarmos, pela enésima vez, o caráter não-democrático de nossa burguesia, se ela sempre é parceira do reformismo populista na composição de alianças interclassistas.

Enraizamento dos movimentos classistas e unidade das esquerdas

Equivocadamente, identifica-se muito das derrotas do campo da unidade da classe na fragmentação das esquerdas ou nas políticas identitárias, analisando-as meramente como expressão do pós-modernismo na nossa cultura política. No entanto, cabe lembrar que os movimentos de mulheres e de negros têm suas origens no século 19 e o movimento LGBT possui pelo menos meio século de trajetória. Não se pretende aqui deixar de criticar políticas identitárias, mas ponderar de forma historicizada que no interior da classe trabalhadora há heterogeneidade e a diversidade dos movimentos populares mostra não apenas a “diferença” no sentido liberal, mas as diferentes características e resistências dos setores “de baixo” em relação à ordem social do capital.

Põe-se o desafio, então, de debater no campo classista essa faceta expressa também pelas políticas identitárias que não são, em si mesmas, o problema central. Em termos de estratégias para a necessária reorganização da classe, nos parece relevante ressaltar que o reformismo promovido pela política de conciliação de classes, que agora fez água, há de ser o alvo central. Não tem sido raro que petistas e aliados se refugiem na crítica aos movimentos identitários, de maneira a evitar a crítica ao lulismo. Tal tipo de discurso, não muito publicizado, se dá mais em certos meios intelectuais e atribui a coletivos setoriais esquerdistas e autonomistas a responsabilidade por não unificar pautas e, consequentemente, não aderir à resistência ao “golpe” e às lutas contra nossa democracia “ameaçada”.

Todavia, se examinarmos de perto os segmentos que permanecem fazendo as lutas nas ruas, deve-se destacar que o protagonismo foi da juventude em 2013 e das mulheres em 2015, e que, sobretudo, trata-se aqui de protagonismo de setores da classe trabalhadora em toda sua diversidade, os quais têm sido capazes de promover unidade e visibilizar lutas – dadas, inclusive, no interior da classe.

Reduzir os frutos das jornadas de junho a uma escalada fascista ou a uma ascensão conservadora é, no mínimo, revelador da distância que se quer tomar do imperativo da realização de uma crítica profunda dos processos de desarticulação dos movimentos sociais, da criminalização das organizações dos trabalhadores, da sistemática retirada de direitos e de todas as alianças espúrias operadas pelo lulismo em favor das elites.

Entendemos, portanto, que a intensificação do enraizamento da oposição de esquerda nos movimentos sociais mais combativos é o terreno por excelência das frentes e da unidade das esquerdas. Para tanto, mais importante do que a Frente de Esquerda Socialista ter agido junto com as Frentes Brasil Popular (instrumento do lulismo) e Povo sem Medo (ainda em disputa por uma orientação classista) é ampliar o diálogo das esquerdas com as novas experiências de luta da juventude trabalhadora e estudantil, que se mostra menos influenciável pelo lulismo, visto não ter se socializado politicamente pela geração petista-cutista.

Ademais, possuindo o desgoverno Temer menor legitimidade social e, por isso mesmo, obtendo menor obediência das classes populares que os governos lulistas, ele lança mão de ainda maior repressão. Assim, são exigidas novas capacidades de resistência dos movimentos sociais, que devem então superar a burocratização e o acomodamento de sindicatos e demais entidades populares. Greve geral e ocupações massivas são ferramentas importantes para barrarmos a retirada de direitos. A autonomia, a combatividade e a radicalidade classistas são o caminho, não o retorno ao colaboracionismo de classe do populismo lulista, o qual não mais se alimenta das melhores energias societárias do novo sindicalismo e dos novos movimentos sociais dos anos 1970/80 para impulsionar políticas públicas reformistas.

Notas:
 
1) Este artigo dá continuidade a nossas análises de conjuntura da luta de classes brasileira, realizadas desde o início do segundo governo Dilma - por ser este exemplar ao expressar as contradições e a crise do populismo lulista - e publicadas no Correio da Cidadania: “Coxinhas e governistas: dupla face da intolerância da classe média?” (2015 - autoria apenas de Marco Antonio Perruso) e “Depois da farsa do golpe: perspectivas da esquerda classista na crise brasileira de 2016” (do mesmo ano).

2) Veja-se nosso artigo “Les Journées de(puis) juine 2013” em Brésil(s), n. 7, maio 2015.

3) Como afirmamos em nosso artigo anterior no Correio da Cidadania, “Depois da farsa do golpe: perspectivas da esquerda classista na crise brasileira de 2016”.

4) Veja-se seu “Os sentidos do lulismo – reforma gradual e pacto conservador” (Cia. das Letras, 2012). Também Maria Orlanda Pinassi em “O lulismo, os movimentos sociais no Brasil e o lugar social da política” (Lutas Sociais, n. 25\26, 2010\2011).

5) Veja-se a respeito o já citado artigo “Coxinhas e governistas: dupla face da intolerância da classe média?”, de Marco Antonio Perruso.

6) Jameson desenvolve a ideia da financeirização como um abstrato e também apresenta a abstração como um modo central do pensamento no nosso tempo.
 
7) A respeito, veja-se: “Aspectos Sociológicos da Litigância e do Acesso à Justiça” (Revista da Seção Judiciária do Rio de Janeiro, v. 24, 2009) de Marco Antonio Perruso.

Leia também:

Coxinhas e governistas: dupla face da intolerância da classe média?


Marco Antonio Perruso é professor de Sociologia da UFRuralRJ, militante do ANDES-SN e do PSOL.

Viviane Narvaes é professora de Teatro da UNIRIO, militante do ANDES-SN e do PSOL.


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