Há um método na loucura de Trump

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Parafraseando Shakespeare, (in Hamlet), penso que há algo cuidadosamente tramado por trás das ações aparentemente desatinadas do novo presidente dos EUA.

Certo que ele se comporta como um elefante numa loja de cristais, horrorizando e atemorizando as pessoas civilizadas, as nações pouco amigáveis e até mesmo algumas tradicionalmente fiéis aos comandos de Washington.

Mas, considere: não foi com essas ideias que The Donald convenceu milhões a votarem nele? Falando e fazendo o que já afirmou, ele mostra que não estava enganado ninguém. Trata-se de um “ponto de vendas” de marketing muito forte, num mundo em que a credibilidade dos políticos é extremamente valorizada por sua extrema raridade.

Mas Trump precisa de novos adeptos para garantir sua reeleição (objetivo de todo presidente americano). E para atrair ovelhas renitentes a seu redil, ele oferece seu America First, que não passa de uma estratégia para firmar a hegemonia americana no mundo, baseada no aumento do seu poder econômico e militar.

Ele não está nem aí se suas decisões irão desgostar ou mesmo prejudicar alguns dos países amigos, costumeiramente seguidores da política externa americana. Construir o muro na fronteira e exigir que o México pague os 20 a 25 milhões da conta pode provocar forte stress no presidente Peña Nieto e reviver o antiamericanismo do povo mexicano, amortecido pela passagem de quase um século depois das seguidas intervenções militares no país.

Trump não se incomoda nem um pouco. Pressionado pela opinião pública do seu país, Peña Nieto atreveu-se a se recusar a pagar por uma obra que só interessa aos EUA.

Trump respondeu, ameaçando taxar em 20% os produtos importados do país amigo. E, como são em quantidade  imensa – o México é o terceiro maior parceiro comercial dos EUA- a terra de Cantinflas seria jogada aos cães.

Peña Nieto deveria ter cuidado, ao arrancar os cabelos. Convém deixar alguns fios para mais tarde pois seu colega americano já anunciou que quer mudar os termos do Nafta. Provavelmente, com uma taxa especial sobre a importação dos EUA de produtos de empresas americanas instaladas no México.

Muitas delas voaram para lá, sonhando em reduzir seus custos de produção, graças à mão de obra barata do país. E ainda elevar seus lucros para o céu, aproveitando as vantagens do NAFTA. Integrado pelo México, EUA e Canadá, o Nafta garante a redução ou eliminação dos impostos nas importações entre esses países.

Trump quer estas empresas de volta aos EUA ou, pelo menos, que parem de instalar fábricas no México, preferindo fazer isso em solo yankee. Daí a exigência de enquadrar o Nafta nessa meta ou sair fora do acordo, caso os parceiros não concordem.

O presidente republicano acha que, seja como for, o muro (considerado um ultraje pelo povo mexicano) será construído de graça para os EUA. E o México acabará aceitando um NAFTA reformado de acordo com a receita americana, com algumas concessões para não levar o país à falência.

Trump e a União Europeia

O mais surpreendente é seu desejo de enfraquecer ou mesmo destruir a União Europeia, que ele já manifestou indiretamente elogiando o Brexit, como se fosse um verdadeiro maná.

A União Europeia tem sido aliada aos EUA nos momentos importantes.
Mesmo assim, durante a campanha eleitoral, Trump disparou seus dardos contra os europeus: além da sua declaração de amor ao Brexit, ele taxou de “catastrófica” a política de boa vontade com os imigrantes da primeira-ministra Merkel e ameaçou reformar ou sair da OTAN, deixando os países europeus à mercê de possíveis expansionismos russos.

Pode-se também apreender algo do pensamento de Trump sobre a União Europeia através de um dos seus cortesãos, Ted Malloch, apontado como futuro embaixador americano na União Europeia.

Entendo que a opinião de Malloch reflete his master´s voice.

Primeiro, uma pergunta que não quer calar: Qual o sentido de nomear para esse cargo altamente estratégico um cidadão que afirmou que o euro vai entrar em colapso brevemente?

Uma pista você encontra nas declarações de Malloch em recente entrevista na BBC 2. Perguntado porque desejava ser embaixador na União Europeia quando não é seu fã, ele respondeu: “Ocupei um posto na minha carreira diplomática quando ajudei a derrubar a União Soviética. Talvez haja uma outra união que precise ser um pouco domesticada”.

Ainda na BBC 2, Ted Malloch falou sobre a ojeriza do chefe à União Europeia: “Ele não gosta de uma organização que é supranacional, que não tem eleições, onde os burocratas mandam, e que não é, francamente, uma democracia de verdade”.

Pode ser, mas eu acho que há razões mais relevantes.

Trump vê nos dirigentes europeus um bando de intelectuais pretensiosos metidos a besta, cheios de palavrórios soantes como defesa dos direitos humanos, liberdade de opinião, antirracismo, direitos dos inimigos, respeito às normas internacionais, etc..

É fato eles tem aceitado a liderança americana nas questões internacionais que realmente contam. Por exemplo: nas sanções à Rússia pelos problemas na Ucrânia; na aliança contra Assad; na pressão sobre o Irã para asfixiar seu programa nuclear; na permissão tácita para Israel continuar oprimindo os palestinos, violando leis internacionais; na mobilização das tropas da OTAN nas fronteiras com a Rússia; na omissão do controle das usinas nucleares israelenses, entre outros casos.

No entanto, a União Europeia ousa condenar ações de Israel, o aliado especial, na ocupação da Palestina, na expansão dos assentamentos, na anexação das colinas de Golan, nas  demolições de residências palestinas e nas brutalidades contra crianças desse povo.

Chegou a sair dos trilhos da fidelidade, ao votarem seus principais membros  contra os EUA, a favor da entrada da Palestina na ONU, com poderes parciais, o que causou seu reconhecendo mundial como país.

Tudo leva a crer que, nos próximos anos, talvez meses, a União Europeia continuará com suas críticas a fatos bem-vistos por The Donald. Certamente vai cair mandando brasa quando ele efetivar suas ameaças contra o México, apoiar os assentamentos e o mundo de violações israelenses às leis internacionais e aos direitos humanos. Com isso, fatalmente irá contrariar Trump. Ora, Trump detesta críticas, como já cansou de provar pelo modo com que trata a imprensa americana.

Os europeus começaram mal com ele. O banimento dos naturais de 7 países suspeitos foi duramente censurado por Merkel, Hollande, Mogherini – a chefe da política exterior da União Europeia- e até pelo governo irmão da Inglaterra. É verdade que Thereza May vacilou muito, até ceder a pressões de todos os partidos e divulgar um comunicado tímido, quase pedindo perdão por se atrever a discordar.

Mas os problemas do presidente com os europeus tem também contornos psicológicos. Trump deve sentir que os dirigentes dos principais países da União Europeia desprezam seu estilo fanfarrão de boteco, com bilhar anexo. Veja só o modo friamente superior com que Angela Merkel rebateu sua qualificação da política migratória alemã como “catastrófica…”

Mais do que tudo, acredito que o novo presidente tema que a União Europeia, com seu poder econômico e moral, possa se tornar uma força capaz de embaraçar os planos de supremacia mundial americana. Um dia, ela pode se unir mais estreitamente e se tornar uma concorrente de peso.

Somando tudo isso, ainda que com jeito, delenda Europa Unita. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, já sacou a jogada do republicano. Recentemente, ele afirmou que os EUA são uma ameaça à União Europeia, ao lado da China, Rússia e do Islã radical.

“Particularmente a mudança em Washington”, Tusk disse, “coloca a União Europeia em situação difícil; parece colocar em questão 70 anos de política externa americana”.

Carta dele aos granes líderes do Velho Mundo diz que: “A desintegração da União Europeia não levará a alguma mítica soberania total dos seus membros, mas a uma real e factual dependência às grandes superpotências; EUA, Rússia e China”. E concluiu: ”Somente juntos poderemos ser totalmente independentes”.

Guy Verhofstad, negociador no Brexit, foi direto: ”Minha impressão é que nós temos uma terceira frente solapando a União Europeia, e que  Donald Trump tem falado de modo muito favorável de que outras nações vão querer romper seus laços com a União Europeia – e que ele deseja uma desintegração da União Europeia”. O único que desertou da frente europeia, o Reino Unido, já demonstrou ser candidato a satélite da constelação America First.

Foi ele uma das nações que atuou com mais vigor para convencer vários países a votarem a favor da condenação dos assentamentos israelenses pelo Conselho de Segurança da ONU, por 14 a zero. Mas veio a Conferência de Paris, que iria reunir os grandes chefes das democracias e outros países interessados na paz na Palestina.

A proposta da França era traçar os pontos básicos que iriam orientar uma negociação entre Israel e palestinos, visando efetivar a “solução dos 2 Estados” independentes. Como podia dar certo, Netanyahu atacou essa reunião como inútil e absurda. Trump reforçou esse ataque com o ardor de sempre.

E Tereza May não perdeu a chance de agradar o Supremo Líder. Ela surpreendeu o mundo ao se negar a indicar uma equipe de delegados de alto nível para a Conferência de Paris. Com sua omissão, contribuiu para o fracasso da Conferência de Paris. Alguns dias depois, continuou nessa linha: bloqueou um manifesto da União Europeia apoiando a condenação dos assentamentos, resolução já aprovada pela ONU.

Depois dessas duas comprometedoras decisões, natural que The Donald a recebesse na Casa Branca, antes de qualquer outro dirigente mundial, mesmo do bom companheiro, Netanyahu. Na ocasião, discutiu-se principalmente um plano econômico bilateral EUA-Reino Unido, a ser aprovado depois que o Reino Unido se livrar da incômoda ligação com a União Europeia.

Trump já programa ações para ferir a Europa, tais como a reforma da OTAN, nos moldes do republicano.

Ele está escandalizado por certos pequenos países europeus não estarem pagando suas quotas à OTAN enquanto os EUA irão gastar, em 2017, 3,5 bilhões de dólares para pagar as despesas das tropas nas fronteiras orientais, protegendo, não os EUA, mas outros países, inclusive alguns caloteiros. Alguma coisa provavelmente será feita para livrar o tesouro americano destes gastos.

Trump, Putin e a Rússia

François Fillon, favorito nas eleições presidenciais francesas, acredita que Trump irá negociar um acordo com Putin, excluindo a União Europeia. Ele propõe que os europeus ajam antes, talvez suspendendo suas sanções contra a Rússia, que ele acha inócuas.

A retirada das sanções americanas valha mais para a Rússia do que das sanções americanas, pois o comércio russo-americano, ao contrário do comércio russo-europeu, é pouco significativo, monta a apenas 12 bilhões de dólares. Não digo que uma aproximação entre os amigos Trump e Putin vá deixar a Europa abandonada a possíveis ameaças moscovitas ou impedir uma aproximação da União Europeia com seus hoje adversários russos.
São apenas mais algumas possibilidades.

Por enquanto é difícil saber porque Trump revelou tanto entusiasmo por seu encontro com seu colega da Rússia. Que terá a ganhar em estreitar relações hoje mal paradas?

Precisará ser algo muito valioso para que The Donald ouse enfrentar a oposição dos generais do seu gabinete e dos líderes do seu partido que vêm na Rússia o inimigo número 1? Mais a aversão da opinião pública, há anos trabalhada para colocar Putin no patamar de Hitler.

Talvez buscar o apoio da Rússia - ele diz em seu tweet “vamos fazer a Rússia grande” - para enfrentar a poderosa China, o verdadeiro adversário número 1 do America First.

Por seu lado, Putin parece decidido a assinar um novo acordo de restrição de amas nucleares, exigido pelos EUA. Mas será que não quer ganhar algo em troca? A retirada das sanções euro-americanas pelo apoio russo aos rebeldes ucranianos? Um acordo na Síria que poupe Assad? Que os EUA esqueçam o caso da Criméia? Que os soldados da OTAN, estacionados na fronteira russa, voltem pra casa?

Tudo isso, Trump jamais aceitará. Seria o desenvolvimento de uma liderança mundial compartilhada pelos EUA e a Rússia. E desta forma a América não poderia ser first.

Ele vai querer mais do que já propôs: talvez a retirada russa de todos os acordos de cooperação econômica e militar com a China. Até agora, Trump fez o que se deveria esperar, está cumprindo suas promessas com seu povo.

Não vai demorar muito para que todos conheçam as dimensões exatas deste sonho americano, já pintando como pesadelo.



 
Luiz Eça é jornalista
Website: Olhar o mundo.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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