Estados Unidos e Brasil – o frustrado empenho brasileiro em torno do Irã

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Ao longo de 2010, a gestão presidencial trabalhista procurava emaranhar-se no torvelinho de grandes questões internacionais por duas motivações imediatas ao menos.

A uns, as incursões seriam reflexo de incomensurável ambição política interna, projetada em função disso mesmo a horizonte de maior vastidão; a outros, isso seria fruto de reconhecida maturidade, justificada então a passada mais larga, ou seja, de alcance global.

Se houvesse êxito nas investidas diplomáticas, ainda que parcial, coroar-se-ia no final da administração o trabalhismo em estilo sobranceiro ao tempo em que se garantiria a própria sucessão com uma coligação mais ampla que as suas nos pleitos de 2002 e 2006.

No caso da última meta, isso seria logrado com o encaixe da maior agremiação, o PMDB através de Michel Miguel Temer, como oficialmente lugar-tenente do PT, representado por Dilma Vana Rousseff.

O desembaraço de Lula da Silva afinal seria reconhecido até por expressivos veículos tradicionais de comunicação, como o semanário estadunidense Time.

Nos últimos dias de abril, a revista, em seu sétimo levantamento anual, galardoaria o dirigente brasileiro como um dos 25 mais influentes do planeta, ao lado do próprio presidente Barack Obama, dos primeiros-ministros Yukio Hatoyama, Recep Erdogan, Salam Fayyad e Manmohan Singh e do diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn.

Seus partidários mais empolgados chegaram a acreditar que ele encabeçava de fato a lista planetária, mas a publicação não tinha o costume de classificar os apontados; apenas os agrupava, sem hierarquizar sua importância política ou econômica.      

Na breve nota biográfica, a Time resumia a vida sofrida do líder petista, com a primeira viuvez inclusa quando tinha meros 25 anos, e a nervosa expectativa do patronato local com a vitória do sindicalista em sua quarta disputa pela presidência da República, no esperançoso 2002.

No exercício cotidiano do poder, ele estruturaria dois programas para alçar ao primeiro mundo o país: o Fome Zero e a melhoria da educação, sem especificar o relato de que maneira e em que instância isso estava sendo feito.

Esses dois populares feitos se assemelhariam ao ‘denominado sonho norte-americano’. De certo modo, a ascensão pátria se contraporia, ao mesmo tempo, a relativo descenso estadunidense em termos sociais.     

Embalado pela benignidade planetária daquela fase, o Brasil intentou trazer o Irã à formalidade diplomática, ao adequar o projeto nuclear persa a padrão civil, ou seja, a fins pacíficos e supervisionados pela comunidade global através da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Com isso, sanções advogadas por grandes potências e aprovadas na Organização das Nações Unidas em três momentos seriam postas de lado.  

Ao valer-se da condição de membros temporários do Conselho de Segurança à época, Brasil e Turquia esforçaram-se para isso, a despeito da incontinente desconfiança dos Estados Unidos e da cautela da Rússia e da China.

A fim de sacramentar a inclusão regular de Teerã na comunidade mundial, Ancara dispôs-se a receber o urânio persa, fracamente enriquecido (em torno de 3,5%), em troca de cápsulas de combustível nuclear (com 20%), destinadas à fabricação de isótopos de utilização medicinal ou ao emprego de geração de energia. Para cada dez quilos fornecidos, o Irã receberia um.

No entanto, Washington ignorou os esforços turco-brasileiros e coordenaria outra proposta com o propósito de punir Teerã. Apenas no final da segunda gestão de Barack Obama haveria novo encaminhamento sobre a controversa questão.

Acompanhe a série de artigos sobre a relação entre Brasil e EUA nos anos Lula

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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