Estados Unidos e Brasil – o interesse do governo Obama no país

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Entre fevereiro e março de 2011, a prioridade na relação bilateral seria a visita do presidente Barack Obama ao Brasil. O empresariado local aguardava com aparente expectativa positiva a viagem do mandatário estadunidense.

Mais uma vez, os brasileiros esperavam dos norte-americanos boa vontade com suas exportações sem que houvesse necessidade de contrapartida imediata como, por exemplo, a de pressionar os chineses a desvalorizar seu câmbio – Pequim era o principal destino de consumo dos produtos nacionais.

Por outro lado, a cantilena econômica de Washington repetir-se-ia a Brasília, ao aludir à imperiosidade da abertura dos mercados dos países emergentes, eufemismo para os do Terceiro Mundo, malgrado a adesão, mesmo envergonhada, ao neoliberalismo delineado nos anos 90.  

Se na economia a possibilidade de êxito era acolhida pelo Planalto com menor entusiasmo, haja vista o tradicional posicionamento de protecionismo da Casa Branca, na política, seria a vez de o Brasil entoar sua narrativa enfadonha, ao mencionar a indispensabilidade de reformar-se a área de segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). No caso, advogava-se a ampliação da representação fixa da instituição, item sem modificação desde a constituição do órgão.

Embora correta a invocação pátria, a de adaptação da estrutura do organismo ao quadro global vigente, ou seja, partir de meados do século 20 para o início do 21, a limitação da distribuição multilateral de poder entre as grandes potências é regra antiga das relações internacionais.

Desta maneira, não se faz isso por graça ou concessão, porém por enfrentamentos de espécie variada – seja militar, econômica, cultural etc. Não há calibragem natural por parte dos responsáveis de fato pela ordem mundial por motivação cívica ou idealizada.

As chances de Brasília, Nova Déli, Pretória, Berlim ou Tóquio dependeriam mais de cenário de crise incisiva do que de regularidade, ainda que com abalos de algum tipo, como era aquele período – desdobramento do abalo financeiro de 2008, mas com recuperação geral, mesmo modesta.

Em termos práticos, a razão do deslocamento do dirigente norte-americano concentrava-se em assuntos econômicos, dada a tradição de interação com o continente, ou melhor, de ascendência sobre a região, embora atrapalhada de modo recente pela inesperada progressiva inserção chinesa.

Aos olhos do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, exportar para o Brasil significaria naquela fase manter um quarto de milhão de empregos - https://obamawhitehouse.archives.gov/the-press-office/2011/03/15/fact-sheet-us-brazil-economic-relationship.

Adicionava-se a isso a importância do relacionamento superavitário em favor de Washington – próximo de oito bilhões de dólares, de acordo com o Ministério da Indústria e Comércio (MIDIC) - http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/balanca-comercial-brasileira-mensal-2?layout=edit&id=1212  

Os Estados Unidos anteviam de forma otimista vultosos investimentos na infraestrutura lúdica – Copa do Mundo em várias cidades recordadas hoje pelas imponentes e dispendiosas arenas, outrora estádios, e Olimpíadas no Rio de Janeiro – de maneira que gostariam de participar das inúmeras obras, a despeito da adequada oposição do Brasil, conforme mencionado em outro momento.  

Quanto ao simbolismo da vinda do dignitário, a visita de quatro dias satisfaria no aspecto mercadológico os governantes escolhidos – El Salvador, Chile e, claro, Brasil. Demonstraria à opinião pública interna o suposto prestígio de acolher, ainda que por poucas horas, o titular da Casa Branca.

O Planalto rejubilava-se com a terceira vitória trabalhista consecutiva, apesar da recente crise planetária; com a primeira presidente eleita de modo direto – quase duzentos anos depois da emergência da primeira líder política do país, Bárbara de Alencar, durante a Revolução Pernambucana.

Por fim, com a impressão de que administrava o neoliberalismo tropical com mais apuro do que a gestão antecessora, a oficialmente socialdemocrata, ao conjugar de forma simultânea o interesse do grande capital com as modestas reivindicações, se cotejadas com o primeiro, da população.

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Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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