Estados Unidos: balanço provisório de 2018

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Encerrada a polarizada eleição presidencial nacional em outubro, aguarda-se aproximação maior entre Brasil e Estados Unidos, em especial na política, segmento no qual o futuro governo social-liberal local e o republicano norte-americano afinam-se, haja vista o posicionamento concernente a Cuba e Venezuela, por exemplo.

Na parte econômica, o estreitamento não será o esperado porque o liberalismo apregoado para cá – de abertura ampla - não é o exercido lá – por ser, na prática, contido - a não ser na retórica das conferências aos meios de comunicação ou aos foros planetários.

Trump chegou à metade do mandato com menos apoio do eleitorado, desde que considerado como norte a configuração do Congresso. Todavia, a perda da primazia na Câmara dos Deputados não o impedirá de disputar a reeleição em 2020.

Crítico dos desdobramentos da globalização, o polêmico dignitário movimenta-se do setor militar, onde Washington tem pouco a comemorar nos últimos anos, para o comercial, campo em que já há tensão, como no caso de Pequim.

Um mandato presidencial apenas possibilita pouco avaliar as modificações na travessia de um país, a despeito por vezes das manifestações verbais dos membros da cúpula governamental. O peso da estrutura administrativa é profundo, manifesto pelas raízes fincadas de consenso de várias gerações. Somente em épocas de crise intensas guinadas incisivas são possíveis, por granjear vasto apoio popular.

Em meses recentes, a Casa Branca tem se posicionado contrária ao aumento da imigração, fato representado de maneira dramática nas imagens de cidadãos, em sua maioria latino-americanos, próximos da fronteira.

Desde 2001, primeiro ano da administração Bush, o número de concessão de vistos a imigrantes permanentes – green cards – situa-se acima do milhão, à exceção de 2003, o menor da série, 2004, frutos da implementação de padrões mais rígidos pelo Ministério do Interior – Homeland Security - e de 2013, com 990 mil emissões.

Em breve, as estatísticas de 2018 deverão estar disponíveis e poderão confirmar se elas se alinham com os dizeres constantes do presidente. A datar da extinção da disputa bipolar, as cifras ampliam-se, apesar de variações. É improvável que elas se reduzam bastante como no período do entreguerras, marcado por posição de distanciamento da Europa e depois pelos efeitos da crise de 1929 - https://www.dhs.gov/immigration-statistics/yearbook/2017/table1 

Com a China, Trump deseja reduzir o déficit no relacionamento bilateral, ao cabo do ano previsto em torno de 400 bilhões de dólares. Em termos percentuais nas três décadas precedentes, as três maiores expansões da balança desfavorável ao país foram com Reagan, Clinton e Bush Jr, ou seja, dois republicanos e um democrata - https://www.census.gov/foreign-trade/balance/c5700.html.

Por outro lado, o investimento externo direto (IED) norte-americano em solo sínico ultrapassou os cem bilhões de dólares em 2017 e se concentrou em áreas sofisticadas do ponto de vista tecnológico e financeiro.

Além disso, os chineses têm impulsionado o mercado imobiliário estadunidense em determinadas áreas do país. Assim, é um desafio a Washington diminuir no curto prazo a significativa dependência de seus consumidores de produtos e de capital de Pequim. O sacrifício do acordo de livre comércio – Parceria Transpacífica – não é nesse sentido suficiente para tal.

No Sudeste asiático, Trump teve de recuar, ao firmar entendimento temporário com a ditadura norte-coreana, por causa do programa nuclear, e no Oriente Médio não logrou êxito diante da recuperação do regime autoritário sírio, graças à valiosa ajuda russa.  

Com Moscou, a identificação precisa das relações políticas e financeiras do grupo presidencial com o círculo de Putin ainda é encoberta por névoas, dissipadas caso as investigações judiciais se estendam em 2019.

O aparente recolhimento dos Estados Unidos talvez não decorra de vontade própria, mas sim do reordenamento de poder mundial. A concentração, mesmo momentânea, no econômico em vez de no militar reforça isso. No entanto, como afirmado, uma gestão palaciana tão somente é pouco para confirmar a hipótese. Clinton prometia dedicar-se mais a assuntos internos; contudo, executaria mais intervenções externas que seu antecessor e também seu sucessor.


Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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