Alinhamento descolado da realidade

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Para Ernesto Araujo, novo ministro das Relações Exteriores, o novo presidente e adeptos, o Brasil tem de se alinhar aos EUA.

O mundo estaria em conflito, com o Ocidente ameaçado pelo Oriente, encarnado na Rússia, China e/ou os países islâmicos.

Sendo os EUA o guia dos países ocidentais, o Brasil teria também de colocar-se sob sua liderança, já que compartilhamos os mesmos valores de liberdade, democracia, direitos humanos etc.

Lembremos que a Guerra Fria acabou em 1989, depois da queda do muro de Berlim.

Embora não tendo se chegado às vias de fato, o comunismo, representado pela União Soviética, e o capitalismo, pelos EUA, disputavam o mundo.

As nações do Ocidente aceitavam a hegemonia norte-americana, pois viam em Tio Sam sua defesa contra a expansão do comunismo, que gerava medo pelos excessos de sua aplicação prática na União Soviética.

Com o fim da guerra fria, o império soviético derreteu, seu território acabou dividido entre a Rússia e mais uns 11 ou 12 Estados menores. Sem sua matriz, o comunismo mundial virou pó. Sobreviveram apenas os regimes de Cuba e da Coreia do Norte e uns poucos partidos comunistas que, com raras exceções, são hoje legendas liliputianas.

É um tanto fantástico afirmar que, atualmente, o mundo vive uma situação de conflito entre as nações semelhante à dos tempos da Guerra Fria.

Sem a ameaça de Moscou, os EUA perderam sua função de protetores do chamado mundo livre, deixaram de ser a nação necessária. Mas, os países da Europa, ainda não refeitos do pesadelo comunista, continuaram seguindo a liderança norte-americana, por um certo tempo.

Aos poucos, principalmente depois da criação da União Europeia, eles foram se afastando, processo que se acentuou bastante depois da eleição de Donald Trump.

Com o America, first, The Donald proclamou sua ideologia nacionalista, na qual o interesse estadunidense – justo ou não – se sobrepõe sempre aos interesses dos demais países. Mesmo que a dano dos tradicionais aliados.

Isso ficou claro em uma série de decisões unilaterais, na qual os EUA rejeitaram pactos internacionais da maior importância, assinados por praticamente todas as nações civilizadas.

Foi assim que o presidente retirou os EUA do Acordo de Paris, que visava conter o aquecimento global e seus efeitos destrutivos no orbe. Pesaram decisivamente os interesses contrários de empresas petrolíferas e produtoras de carvão norte-americanas.

O Acordo Nuclear com o Irã – o chamado P5+1 – impede que o país dos aiatolás desenvolva um programa de armas nucleares, pelo menos durante 10 anos.

Estabelecido em grande parte devido aos esforços de Barack Obama, o acordo garante a paz no Oriente Médio, supostamente ameaçada pelo programa nuclear militar iraniano.

Sem ele, o Irã iria certamente produzir armas nucleares como autodefesa. A consequência fatal seria uma guerra entre esse país e seus inimigos, Israel e Arábia Saudita, apoiados pelos EUA, com efeitos devastadores em toda a comunidade internacional.

Assinado pela Alemanha, França, Rússia, China, Reino Unido e Irã, além dos próprios EUA, o acordo foi aprovado pela ONU e quase todos os países da entidade, com exclusão de Israel.

Trump saiu do acordo nuclear para atender aos interesses dos seus aliados, Israel, Arábia Saudita e a extrema-direita de seu país, empenhados em dar fim ao regime de Teerã, objetivo principal da política internacional do morador da Casa Branca.

The Donald foi mais adiante. Para destruir a economia iraniana, lançou um édito imperial, proibindo todas as demais nações de manterem relações econômicas com o Irã. Não podiam nem investir no país, nem comerciar com ele.

A nação que não obedecesse perderia acesso ao riquíssimo mercado norte-americano e ao sistema bancário internacional.

Os acordos descartados eram fundamentais para a União Europeia. Defendiam a paz, fulminavam importantes interesses econômicos das empresas do Velho Continente e a soberania dos países, afrontados pelas sanções sobre seu direito de negociarem com quem quisessem.

Todos os países europeus integrantes do P5+1, além da Rússia e da China, permaneceram no acordo nuclear, protestando energicamente contra a retirada dos EUA.

E não ficaram nisso: estão implantando um sistema para garantir que todas as empresas fora dos EUA possam negociar com o Irã, fugindo das sanções norte-americanas.

Tudo indica que, finalmente, os países da União Europeia se conscientizaram de que os EUA não são mais um pai protetor, mas um concorrente agressivo.

Muitos deles decidiram sair da sombra do colosso yankee, buscando caminhos próprios e independentes.

Em alguns deles, esse processo ainda está numa fase embrionária. Na Alemanha, França e Reino Unido, seus líderes já tomaram posições claras a respeito da questão.

Diz a primeiro-ministro da Alemanha, Angela Merkel: “os tempos em que nós podíamos confiar completamente em outros acabaram. Eu descobri há poucos dias que nós, europeus, temos de, verdadeiramente, conduzir nossos destinos com nossas próprias mãos”.

Macron, da França, tem feito a mesma abordagem. Propôs, inclusive, a formação de um exército europeu, uma vez que: “nós temos de nos proteger em relação à China, à Rússia e mesmo aos EUA”. O Reino Unido, sob Teresa May, também vem se manifestando do lado desses dois chefes de Estado, ainda que com vacilações.

A França, Alemanha e Reino Unido são os países-chave da União Europeia. É natural que os demais os acompanhem, com exceção talvez dos países bálticos e da Polônia, preocupados com o expansionismo do Kremlin.

A Hungria, sob a virtual ditadura de Orban, é a ovelha negra do redil europeu. No entanto, seu governo se dá muito bem com Putin, o que o afastaria da sombra dos EUA.

Sendo a Europa parte fundamental do Ocidente, a conclusão é óbvia: os EUA não lideram mais o Ocidente.

Deixou de ser o “Estado necessário”. Mesmo porque, apesar do que afirma o ministro Araujo, é mais do que duvidoso que a chamada ”civilização cristã ocidental” (expressão que caiu em desuso nos anos 70) esteja ameaçada por poderosos inimigos do Oriente: o islamismo, a Rússia e a China.

A pergunta que não quer calar é: estarão os países islâmicos, a Rússia e a China empenhados em impor sua hegemonia, com tudo que significa em indesejáveis termos de submissão política, ideológica e/ou religiosa?

Falando sério, nenhum país islâmico pode ser acusado de querer dominar a civilização cristã pela força. Não querem e tampouco dispõem dos recursos necessários a tão épica empreitada.

Todos eles são capitalistas, uns mais, outros menos. Democrata no sentido total da palavra, só o Líbano. Os outros, ou são parcialmente democráticos, ou ditaduras sem tirar nem por, como os emirados do Golfo, aliados dos EUA.

Os norte-americanos pretendem se apresentar com defensores dos direitos humanos nos seus conflitos bélicos contra a Síria e verbais contra o Irã. Se fosse verdade, jamais seriam amigos fraternos da Arábia Saudita, uma das ditaduras mais cruéis do mundo. Cujo príncipe herdeiro (e governante de fato), mandante do assassinato brutal de um jornalista opositor, é louvado por Trump.

Nisso, o presidente está sendo coerente com seu America, first: vale defender os monarcas sauditas, pois é do interesse dos EUA de Trump contar com seu apoio na luta contra o Irã e com seus bilhões aplicados na compra de armamentos norte-americanos.

Note-se que o alinhamento da Arábia Saudita aos EUA não é automático. Nem sempre Riad soma com Washington.

Os reis do petróleo costumam ficar do lado dos palestinos, um povo árabe, como o saudita. Chegam até a defender o Hamas, tido como terrorista por EUA e Europa. Recentemente, votaram na ONU contra a condenação desse movimento, responsável pelo lançamento de mísseis contra Israel.

Por sua vez, a Rússia é capitalista como os EUA. Mais exatamente uma democracia autoritária, que sai do sério no tratamento dos opositores.

A Rússia não deixa de ser adversária do governo da Casa Branca Washington. Não quer dizer que almeje disputar o trono da hegemonia mundial, pois não tem músculos para isso.

O que existe é um choque de objetivos entre as duas potências. Putin quer impedir a ascensão dos EUA ao poder global e manter ou conquistar o controle do seu quintal – as ex-repúblicas soviéticas.

Já Washington tenta impedir que seu rival se torne uma potência com excessiva influência na ordem internacional.

Nesse match EUA x Rússia, os valores das democracias ocidentais não estão em jogo. Ambos lutam por interesses próprios.             

A China, sim, pode vir a ser uma adversária de respeito às pretensões hegemônicas dos EUA. Só que, até agora, ela tem limitado suas ações internacionais em investimentos e empréstimos a países subdesenvolvidos ou em processo de desenvolvimento.

Tudo indica que o crescimento da China tende a torná-la, num futuro próximo, a maior potência econômica do mundo. Nessa condição, terá poder para influenciar poderosamente outros países.

Por enquanto, não se vê os chineses usando seus capitais como ferramentas para pressionar os governos das regiões onde são aplicados.

Também não se espera que a China venha a apelar a seus exércitos para impor seus objetivos a qualquer outro país.

Segundo disse nosso presidente, a China estaria comprando o Brasil. Não sabemos o que ele quer dizer com isso.

É fato que os chineses vêm investindo pesado na agricultura e na indústria brasileiras, inclusive criando novas empresas.

Ao que se saiba, eles não costumam pressionar o governo de Brasília a modificar leis para proveito deles.

Ser contra os investimentos da China é uma contradição, pois para o conservadorismo brasileiro (ao qual Bolsonaro se filia) a entrada de capitais estrangeiros é fundamental para o nosso país.

Por sua vez, dois articulistas na Folha de sábado passado apontaram as importações chinesas como responsáveis pela desindustrialização do Brasil. Deviam estar de brincadeira.

A China compra 40% das exportações nacionais. Brigar com ela seria um desastre para os produtores de soja e de carne, setores básicos da economia nacional.

E para o Brasil também, que sairia dos confortáveis atuais superávits no comércio externo para um perigosamente alto déficit.

Brigar com os árabes também não é negócio. A instalação da nossa embaixada em Jerusalém pode agradar aos EUA e Israel, mas os árabes ficarão furiosos. Para eles, Jerusalém Oriental vir a ser a capital do futuro Estado palestino é absolutamente mandatório.

Se isso acontecesse, haveria reflexos altamente negativos nas exportações de carne, das quais os árabes estão entre os maiores compradores.

De outro lado, são um tanto duvidosas as vantagens econômicas que podem vir do alinhamento automático a Washington.

Afinal, os EUA são concorrentes em nossas principais exportações: carne, soja, automóveis, aviões e petróleo bruto.

Admita-se que os norte-americanos pesam no nosso comércio externo, pois ocupam o segundo lugar entre os importadores de produtos brasileiros.

Só que a China importa duas vezes mais. Se nós brigarmos com Pequim, não serão os norte-americanos que substituirão os chineses nas compras de soja e carne nos volumes atuais.

As vantagens que o governo de Washington pode oferecer ao Brasil não se comparam nem de longe às que vem de Pequim.

Recentemente, o ministro Araujo apareceu numa alegre foto com John Bolton (o falcão predileto de Donald Trump), o presidente Bolsonaro e outros menos votados, anunciando os primeiros frutos da amizade Brasil-EUA.

Da nossa parte, deveremos cancelar o regime de bitributação que tanto desagrada aos empresários estadunidenses e de outros países.

Não se sabe se tal medida será benéfica para o Brasil. Pode até ser. O fato é que, de concreto, deixaremos de receber muitos milhões, pois passaria a haver apenas uma tributação. O que fará felizes as empresas dos EUA, pois seus produtos teriam de pagar menos impostos.

Em troca, vejam só: poderemos entrar na Organização Mundial do Comércio, graças aos norte-americanos que, muy amigos, deixarão de se opor como têm feito até agora.

Parece um negócio das arábias. Já não se fazem conservadores brasileiros como antigamente.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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