O bolsonarismo anticientificista e o meio ambiente

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Fazer esta retrospectiva se tornou uma tarefa monótona, repetitiva, com decepções e degradação contínuas ano após ano desde a primeira eleição de Lula, em 2002, quando tivemos pela última vez esperanças com relação à questão ambiental. Mas agora tudo mudou. De repente, com a eleição de Jair Bolsonaro e a chegada da extrema-direita ao poder, a situação se tornou absolutamente desesperadora. Nós passamos da tutela de uma sequência de governos que fingiam se preocupar, mas que na verdade não se importavam com o meio ambiente, para um que defende o aprofundamento da devastação. Daí que danos irreversíveis e em uma escala sem precedentes são esperados para os próximos anos, tornando a resistência mais importante do que nunca.
    
Os governos do PT foram um desastre para o meio ambiente. É verdade que os desmatamentos na Amazônia foram estabilizados, apesar de que em níveis intoleravelmente altos. Mas foram iniciadas neste período obras hoje responsáveis por importantes centros de desmatamento na Amazônia, como o asfaltamento da BR-163; a transposição do rio São Francisco foi feita sem qualquer esforço de recuperação das suas matas ciliares ou de seus afluentes; a construção das hidrelétricas do rio Madeira, em Rondônia, e de Belo Monte, no Xingu, causaram degradação sem precedentes nos rios da Amazônia.

Belo Monte conheço melhor, pois vejo seu lago da janela da minha casa. Um lago de água suja que substituiu um rio de águas verdes, pontuado de ilhas florestadas e cercado de praias paradisíacas de areia branca. Quanto ao tão prometido progresso, praticamente acabadas as obras, a cidade de Altamira já está economicamente arrasada. A geração de energia é pífia, como prevíamos, pois o rio praticamente para de correr na maior parte do ano.

A única explicação para a execução de uma obra tão absurda foi a arrecadação de propina para as campanhas eleitorais de Dilma Rousseff, como ficou claro recentemente. A barragem de Mariana estourou durante o último governo do PT, degradando irremediavelmente o rio Doce, e nada foi feito para aumentar o rigor no controle das atividades mineradoras. Com o impeachment, o que estava ruim piorou. As taxas de desmatamento cresceram muito e a instabilidade política que tornou o governo Temer refém da bancada ruralista levou a absurdos ainda maiores, como a redução da área de unidades de conservação.
    
Do ponto de vista ambiental, a última campanha eleitoral foi marcada pela frustração, com a questão sempre tratada de forma periférica. Nenhum dos principais candidatos defendeu de forma veemente a preservação, mas também ninguém a atacou com tanto vigor quanto a chapa vencedora.

Marina Silva, de quem se esperava um posicionamento mais veemente por conta de sua origem e trajetória, parecia fugir do debate, argumentando que não havia qualquer conflito entre preservação e agronegócio. Falso. Marina perdeu meu voto quando, no dia do meio ambiente, em um discurso proferido no Museu Goeldi, em Belém, prometeu ceder 8 milhões de hectares de florestas da Amazônia para empresas madeireiras praticarem o chamado “manejo florestal” supostamente sustentável. Não é sustentável. É destruidor.

A floresta tropical, com sua enorme biodiversidade e grandes árvores centenárias, não suporta qualquer nível de exploração madeireira. Ciro Gomes perdeu meu voto ao escolher sua vice, Kátia Abreu, a “Miss Motosserra”, e ao defender a obra de Belo Monte com total desconhecimento de causa, dizendo que ela não teve qualquer efeito deletério sobre o rio Xingu.

Apesar do histórico negativo do PT no governo, eu tinha esperança que um governo Haddad, defensor das ciclovias na cidade de São Paulo e de limites de velocidade para os carros, fosse melhor que Lula e Dilma. Mas quem ganhou mesmo minha simpatia foram Guilherme Boulos e Sônia Guajajara com sua crítica veemente ao agronegócio desmatador e envenenador do meio ambiente.
    
Das urnas, veio a confirmação do pior. Venceu o candidato que declarou que ainda há espaço para mais desmatamentos da Amazônia, que atacou o IBAMA, as demarcações de terras indígenas e as ONGs ambientalistas. Depois da vitória, as expectativas, que já eram péssimas, apenas se confirmaram. A escolha do ministro do Meio Ambiente, assim como a dos outros ministros, foi pautada pelo “quanto pior, melhor”.

Para o MMA, primeiro sondou-se a possiblidade de escolha do professor da USP Ricardo Felício. Esse sujeito é uma piada. Com uma boçalidade única, nega a existência do aquecimento global, fato amplamente reconhecido pela comunidade cientifica internacional, e se opõe ao próprio conceito de sustentabilidade. Sua estupidez sem limites foi seu cartão de visita para o governo Bolsonaro. Por algum motivo ele foi preterido em nome de Ricardo Salles, que foi Secretário do Meio Ambiente de São Paulo de 2016 a 2017.
Condenado por fraude ambiental por adulterar mapas do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Tietê, não se sabe se poderá assumir.

Mas seu crime foi considerado por Bolsonaro uma credencial para considerá-lo apto para assumir o cargo. Sobre o episódio em que Bolsonaro foi autuado por pescar ilegalmente em área de proteção ambiental, o provável futuro ministro declarou “Ele não foi multado por pescar. Ele foi multado porque estava com uma vara de pesca. O fiscal presumiu que ele estava pescando. Então, veja bem, o exemplo que você deu já mostra como a questão ideológica permeia a atuação estatal nesses casos”. Perfeito para um governo hipócrita antiambientalista. Sobre o aquecimento global, declarou que não era um assunto relevante. Esse negacionismo não surpreende em um governo anticientificista, que tem como guru um estúpido como Olavo de Carvalho que não acredita sequer que a terra gira em torno do Sol. Ninguém me falou, eu mesmo o vi dizendo isso em um vídeo (minuto 5:50).
    
Como se vê, estupidez e hipocrisia sem precedentes serão as marcas do novo governo. Um dia certamente nos livraremos deles e o Brasil pode deixar de ser motivo de chacota internacional. Mas boa parte dos estragos que nos aguardam serão irreversíveis. Eu temo que, assim como no período da ditadura militar, quando os povos indígenas foram as principais vítimas do regime, os índios novamente sofram irremediavelmente os efeitos do bolsonarismo.

Eles também sabem disso, tanto é que se posicionaram fortemente contra ele, o “benadjoro punuti” (, chefe ruim, em Kayapó) no período pré-eleitoral. Os ataques aos índios já começaram. O presidente eleito comparou-os, em sua condição atual, a “animais em zoológicos” em relação à preservação do seu modo de vida tradicional no interior das terras indígenas. Defendeu a revisão dos limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Felizmente, o ex-ministro do STF Ayres Britto já declarou que isso seria legalmente impossível. Mas do jeito que as coisas vão, com um Supremo temente aos militares, tudo é possível. O presidente eleito também defendeu projetos de lei em tramitação que permitiriam a liberação de atividades de mineração nas Terras Indígenas, o que teria um efeito absolutamente desastroso sobre os seus habitantes e sobre o importantíssimo papel que desempenham na preservação ambiental. Retirou a FUNAI de sua posição tradicional no Ministério da Justiça, passando-a para o recém-criado Ministério dos Direitos Humanos, que ficará a cargo da religiosa fundamentalista Damares Alves, entre outras coisas acusada de tráfico de crianças indígenas e incitação de ódio aos índios.
    
Como se vê, o quadro atual não poderia ser pior, as expectativas são terríveis e a resistência organizada dos setores da sociedade preocupados com os índios e o meio ambiente são mais importantes do que nunca.     

Rodolfo Salm

PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atualmente é professor da Universidade Federal do Pará.

Rodolfo Salm

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