Estados Unidos-Brasil: trabalhismo sem projeção na política exterior

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O eleitorado de 2014 assistiu de novo à disputa presidencial entre as mesmas siglas: de um lado, o trabalhismo, vencedor pela quarta vez consecutiva, com Dilma Rousseff; de outro, a socialdemocracia, com Aécio Neves da Cunha.

A despeito do resultado, ambas as agremiações já tinham algo em comum: o descrédito quanto à capacidade de promover de maneira efetiva o desenvolvimento nacional, sem o emprego apenas do verniz de políticas sociais compensatórias, de caráter epidérmico, e o enfado da população diante da retórica constante da vindoura transformação.

Mesmo assim, os eleitores não se dispuseram a deslocar seu voto para opção alternativa. Como a peleja entre os dois partidos de maior expressão se resumia a poder, não a destino da sociedade, logo eles se engalfinhariam em uma disputa sanguinolenta: primeiro, no judiciário eleitoral; depois, no parlamento, onde o tertius, o antigo PMDB, seria o árbitro. Sua sentença final: beneficiar a si, com a ascensão de Michel Miguel Temer.

Sacramentado o sucesso do trabalhismo em outubro daquele ano, a pauta amero-brasileira deveria ser avaliada e planejada para o próximo quatriênio: com isso, o trauma da espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) teria de ser superado.

Reiterar a vocação de liderança sul-americana, ao desfrutar da base o Mercosul, ou até exercer a sul-atlântica - ambicionada ainda que de forma incipiente desde o século dezessete ao lançar-se sobre a Angola controlada pelos batavos - passaria pela recuperação da parceria entre Brasília e Washington, cônscio este de inquietações geográficas significativas como o Oriente Médio, proscênio de seus dois conflitos de média intensidade, a China e, claro, a Rússia. Destaque-se que os três atraíam a atenção da oposição republicana aos democratas.

Desta sorte, existiram condições ao Planalto de movimentar-se de maneira desenvolta em seu entorno, sem chocar-se de modo abrupto com a Casa Branca. A Venezuela seria o desafio maior em termos regionais para o reconhecimento do Brasil como expressão local.

Naquela fase, poderia o país ter-se apresentado como mediador a Miraflores, sob o comando de Nicolás Maduro, em crise econômica ascendente e, por conseguinte, política também. Enfim, a eventual afinidade ideológica entre os dois mandatários no curto prazo não deveria obnubilar a de longo, ou seja, a de Estado  - https://www.economist.com/finance-and-economics/2017/04/06/how-chavez-and-maduro-have-impoverished-venezuela 

Com mensagem de tom protocolar, o presidente Barack Obama se congratularia com a dirigente reeleita, ao desejar a valorização da cooperação bilateral no comércio e no segmento energético por meio da continuidade dos diálogos estratégicos estabelecidos - https://obamawhitehouse.archives.gov/the-press-office/2014/10/28/readout-president-s-call-president-rousseff-brazil  

Aliviado após o êxito eleitoral, o governo brasileiro teria a oportunidade de encetar laços com a contraparte norte-americana em encontro multilateral expressivo: o do G-20, a ocorrer em novembro daquele ano.  

A materialização da renovação do relacionamento seria a visita da dirigente a Washington, suspensa desde 2013 por causa do imbróglio da bisbilhotice ilegal. A expectativa seria a ida acontecer nos primeiros meses de 2015, o que demonstraria prestígio político em seu segundo mandato, porém, ao mesmo tempo, descortinaria a oportunidade para ampliação dos negócios com o segundo parceiro comercial, algo bastante necessário para ajudar o país a superar a apatia econômica, perdurante ainda hoje.

A viagem terminaria por se realizar em junho de 2015. Naquela altura, todavia, não havia sinais de recuperação da economia pátria. Com isso, a inquietação se alastrava para a política também, área na qual a governante, com sua assessoria, demonstraria pouca habilidade para lidar com seus sobressaltos até seu primeiro afastamento em maio de 2016.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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