A última contribuição de Losurdo

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Permitam-me sugerir que não deixem de ler, se ainda não o fizeram, o excelente livro de Domenico Losurdo, O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer, tradução de Ana Chiarini e Diego Ferreira, São Paulo, Boitempo Editorial, 2018, 230 páginas. Com sua conhecida erudição, o filósofo italiano traça um balanço crítico e abrangente das duas grandes tradições marxistas, a ocidental e a oriental, com suas confluências, discordâncias e resultados surpreendentes.
 
Arrisco-me a fazer uma ressalva à crítica de Losurdo ao “anti-humanismo teórico” do filósofo marxista francês Louis Althusser, crítica que me parece inadequada. Althusser, reconhecendo a utilidade prática de referências “humanistas” na luta política e ideológica, questionava o valor teórico do método “essencialista-dedutivista”, que pretende deduzir do conceito genérico de “homem” um programa político de transformações revolucionárias. Que podiam e podem significar objetivamente propostas como as de uma economia “humana”, de uma política “humana”, de um capitalismo “humanizado”, ou de um socialismo de “face humana”?

A crítica procedente de Althusser se dirigia a essas propostas reformistas de cunho católico, que ele conhecia bem por ter sido membro da JEC francesa antes de aderir ao Partido Comunista Francês. Propostas “humanistas” e conciliadoras que começavam a ser adotadas por partidos e autores que se declaravam marxistas num esforço teoricamente equivocado para aproximar-se de setores católicos e protestantes.
 
Comentando o livro do sociólogo estadunidense Kevin Anderson, Lenin, Hegel and Western Marxism, também tentei comparar as duas tradições marxistas em meu livro Repensando o marxismo, no texto “Lênin e a dialética hegeliana”. Sem nenhuma arrogância de equiparar qualitativamente a investigação de Losurdo com a minha, acho conveniente salientar duas características básicas que as distinguem.

A abordagem de Losurdo é predominantemente política, focada nas relações entre capitalismo e colonialismo e entre o projeto socialista e comunista e as revoluções anticolonialistas e antineocolonialistas, enquanto minha abordagem é preponderantemente filosófica, empenhada em apontar nas leituras mecanicistas, deterministas e vanguardistas do marxismo um dos fatores para sua estagnação teórica e para o malogro dos experimentos socialistas na União Soviética e no Leste Europeu.

Além disso, Losurdo amplia o conceito de “marxismo ocidental” para incluir autores recentes e trabalha com o conceito de “marxismo oriental” para abarcar tradições marxistas como as da China e do Vietnã ao lado da soviética, enquanto eu me atenho ao cotejo tradicional do “marxismo ocidental” com o “marxismo soviético”.

De todo modo, recomenda-se a leitura de O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer, deste grande autor que acabou de nos deixar.

Sobre o livro de Duarte: Repensar e desenvolver o marxismo

Sobre a livro de Losurdo: Oriente e Ocidente: do cristianismo ao marxismo


Duarte Pereira é jornalista.

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