Frei Betto lança livro com suas cartas escritas na prisão

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No período em que o Brasil mergulhou na ditadura militar, que durou de 1964 até 1985, um jovem mineiro e frade dominicano se juntou, ao lado de outros companheiros, ao movimento de resistência batizado ALN (Ação Libertadora Nacional), liderado por Carlos Marighella (1911-1969). O rapaz, Carlos Alberto Libânio Christo, estudante de Teologia à época, conhecido como Frei Betto, foi preso em Porto Alegre em 9 de novembro de 1969, cinco dias após Marighella ser morto em emboscada policial na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O religioso, que ajudava na fuga de perseguidos políticos do Brasil, ficou atrás das grades por quase quatro anos, de 1969 a 1973.

Transferido para São Paulo, na prisão – ele passou por regime especial para presos políticos e, depois, por penitenciárias ao lado de presos comuns – Frei Betto escreveu diversas cartas, a familiares e amigos. Os documentos haviam sido publicados em dois volumes, Cartas da Prisão (1977) e Das Catacumbas (1978). Agora, a Companhia das Letras coloca nas prateleiras uma nova versão, Cartas da Prisão (408 páginas, R$ 40, em média), com todos os registros reunidos, mas com um plus: outras 20 correspondências inéditas, encontradas recentemente pelo autor.

Vale lembrar que parte das cartas que registram a vida dentro da cadeia nos ‘anos de chumbo’ saiu das prisões por vias clandestinas, para fugir da censura carcerária. Alguns registros, como explica Frei Betto ao Diário, têm conteúdo ‘tranquilo’, que passou pelo cerceamento da época. Mas há também as escritas com forte denúncia da ditadura, e são essas que saíram  clandestinamente. “Penso que se trata de obra destinada, em especial, aos leitores que não viveram sob os 21 anos de ditadura militar no Brasil. As cartas retratam com fidelidade o clima do País nos ‘anos de chumbo’, explica.

O escritor explica que algumas pessoas foram encontrando ao longo do tempo mais registros feitos por ele na prisão. “Na Itália, vive minha prima, que também possuía cartas inéditas. Ou mesmo um amigo, que pensava ter destruído a carta na época, como muitos fizeram, se surpreendeu ao encontrá-la em um esconderijo da casa”, diz o autor.

Saber que essas cartas resistiram à ditadura militar e a tantas possibilidades, e que não foram recolhidas quando publicadas em 1974 e 1976, é algo quase inacreditável para o autor. “Foi o primeiro documento produzido por um preso político do período pós-1964”.

Ao ler os registros, fica claro que, para Frei Betto, saber que tinha gente fora da prisão que o apoiava foi algo fundamental. “Ter recebido o apoio incondicional da família, da Ordem Dominicana e de bispos como o cardeal dom Paulo Evaristo Arns foi muito importante para que eu resistisse aos quatro anos de prisão.” Além disso, a fé do religioso foi de suma importância para suportar o fardo. “Aprendi que o contrário do medo não é a coragem, é a fé. A prisão representou um longo retiro espiritual para mim”.

Quando se recorda de Marighella, Frei Betto tem a memória de um amigo e líder. “Um homem movido pelo ideal de libertação do povo brasileiro. Descrevo nossos encontros em meus livros Batismo de Sangue e Diário de Fernando”. Para Frei Betto, Marighella é “um herói brasileiro que sempre lutou pelos direitos dos mais pobres”. Ele espera que o filme de Wagner Moura, a respeito do revolucionário, e que está em preparo, demonstre isso com clareza.

Frei Betto diz que hoje se lembra daqueles tempos de forma tranquila, por não ter se dobrado e ter lutado pela redemocratização do Brasil, “mesmo correndo risco de vida. Foi um tempo sofrido, porém gratificante quanto ao que significou a luta de uma geração por um futuro melhor para o povo brasileiro”, explica.

O autor, que viveu de fato a ditadura militar, acredita que, assim como foi no passado, a liberdade de pensamento está ameaçada hoje em dia, “na medida em que volta a censura às artes, a proposta absurda da Escola Sem Partido, que pretende evitar que os alunos tenham visão crítica da realidade, o ódio destilado nas redes digitais a quem critica o sistema capitalista”.

Para o autor, esses documentos podem, de alguma forma, fazer com que as novas gerações entendam quão forte foi a luta pela liberdade naqueles tempos.

Ele acredita que o brasileiro conhece pouco da história da ditadura militar, embora haja muitos filmes sobre o tema, inclusive Batismo de Sangue, baseado no livro de mesmo nome do autor. “Pouco se fala nas escolas do que significaram os anos de chumbo. Cartas da Prisão é uma janela que se abre sobre o nosso passado recente para que se possa entender melhor o presente e se comprometer mais profundamente com um futuro de menos desigualdade e exclusão”.

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Por Vinicius Castelli, do Diário do Grande ABC.

Vinicius Castelli

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