Trump presidente: “a direita se credenciou como líder do movimento contra a globalização”

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Os Estados Unidos ainda absorvem a vitória de Donald Trump e o mundo continua perplexo com mais um resultado eleitoral pautado pelo discurso de extrema-direita e sua demonização do “outro”. Para analisar os impactos da volta do Partido Republicano ao poder, entrevistamos Scott Martin, cientista político e especialista em relações internacionais, também professor da New School e da Universidade de Columbia, ambas em Nova York, onde acumula estudos sobre questões latino-americanas e brasileiras.

 

“Já existem planos em andamento para uma gigantesca manifestação pelos direitos civis no dia de Martin Luther King, em janeiro, e a Marcha do Milhão de Mulheres em janeiro, em Washington, ao redor do dia da posse de Trump. A vitória de Trump parece unir feminismo, direitos civis, ambientalismo, movimento sindical, direitos dos imigrantes e outros ativistas de uma maneira que Obama deve ter sonhado algum dia. Vemos muitas pessoas que nunca tiveram o hábito de protestar indo às ruas, jovens, velhos, famílias...”, pontuou, destacando não lembrar de uma eleição tão rapidamente seguida de protestos no país.

 

Ao longo da conversa, Martin desfaz alguns mitos a respeito de uma possível faceta menos ameaçadora e virulenta de Donald Trump, em parte inflados pelas conhecidas conexões politicas e econômicas de Hillary Clinton, ainda secretária de Estado do governo Obama. Isso significa que uma dose menor de intervencionismo e militarismo pode ser mera ilusão, assim como sua promessa de voltar a olhar “pra dentro” numa economia de fluxos financeiros de imbricações praticamente irreversíveis.

 

“Ao final, os instintos isolacionistas para ‘reconstruir a América’ ​serão truncados por impulsos militaristas e uma tendência a ver o mundo nos termos do ‘nós contra eles’ e a ver um terrorista atrás de cada conflito. Não estou dizendo que os neocons estão completamente de volta ao controle, como sob Bush filho, mas parece que unilateralistas e militaristas estão de volta sob Trump. É por isso que os japoneses e os europeus estão profundamente preocupados”, destacou.

 

Além de alertar para possíveis retrocessos com países latino-americanos, no que a relação com o México será o ponto mais tenso, Scott Martin lamenta o fato de haver uma consolidação do fenômeno de resistência aos processos globalizantes capitaneado pelo discurso populista de direita. Por fim, a despeito da habitual crítica à esquerda sobre a incapacidade de Obama frear dinâmicas históricas de opressão e injustiça, o professor faz um balanço mais amigável de seus oito anos de mandato.

 

“A ideia de que estávamos em uma ‘América pós-racial’ com Obama foi sempre fantástica. Há limites no que um presidente pode fazer, e acredite que ele tentou bastante, no controle de armas, na reforma da justiça criminal, denunciando especificamente o aumento do abuso policial e assassinatos em todo o país, os quais o governo federal não pode controlar diretamente ou resolver com muita facilidade. Ele sempre foi bloqueado pelo obstrucionismo republicano no Congresso e pelos limites do federalismo, onde a maioria dos estados está nas mãos dos republicanos”, resumiu.

 

A entrevista completa com Scott Martin pode ser lida a seguir.

 

English version

 

Correio da Cidadania: Qual o significado da vitória eleitoral de Donald Trump para os Estados Unidos e o mundo, sob seu ponto de vista?

 

Scott Martin: Odeio ser alarmista, mas são tempos muito preocupantes. Vê-se um ressurgimento da extrema-direita nacionalista, que se encaixa na tendência do Brexit, no impulso de uma extrema-direita e partidos nativistas no Leste Europeu que rapidamente ganham apoio na Europa Ocidental. Isso já encorajou a simpatia por Marine Le Pen e seu National Front na França, embora eu espere que por lá ainda haja uma retomada a favor dos valores republicanos profundamente enraizados.

 

Alguns já dizem que estamos nos “desglobalizando”, em termos da participação do comércio e fluxos financeiros nacionais no PIB mundial. Isso sinaliza que, como o TPP (Tratado Trans-Pacífico) está morto, não é possível imaginar o avanço das conversas na OMC (Organização Mundial do Comércio) com Trump no poder.  E o NAFTA será minimizado ou descartado. Podem ocorrer guerras comerciais com a China. Nada disso será particularmente bom para os trabalhadores e os empregos, e são eles, mais que as multinacionais, quem sofrerão a pior parte.

 

Um protecionismo mercantil na linha “cada país por conta própria” pode ganhar força. A posição de Trump em questões como o acordo nuclear com o Irã, OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte) e outras alianças centrais, o provável abraço em Assad pra derrotar o Estado Islâmico (EI) e um unilateralismo mais musculoso dos EUA pelo mundo são prováveis, e perigosos. A abordagem conciliatória com Putin e a Rússia praticamente soa como recuar aos dias de grandes potências com suas respectivas esferas de influência, redividindo  o mundo em blocos.

 

Os flertes com Putin durante a campanha, em meio à ciberespionagem da Rússia e os vazamentos do wikileaks a mostrarem suas conexões com os russos, fazem desses problemas muito graves do ponto de vista do Estado de Direito e da segurança nacional. Leis podem ter sido quebradas, mas ninguém está investigando. E não fiquemos surpresos se a tortura e a técnica de afogamento voltarem à política norte-americana em seu tratamento com suspeitos de terrorismo.

 

 

Correio da Cidadania: O que você pode comentar da cobertura midiática do processo eleitoral, especialmente sobre a maneira como Trump foi retratado desde o longínquo início das campanhas eleitorais e até depois dos resultados das pesquisas?

 

Scott Martin: The Economist se expressou da melhor forma: “os eleitores de Trump o levaram a sério, mas não literalmente, enquanto seus críticos tomaram suas palavras literalmente, mas não o levaram a sério”. Ele bateu na “mídia liberal” e no establishment, enquanto, ao mesmo tempo, usava a mídia brilhantemente. Usou o twitter pra se comunicar diretamente com milhões de seguidores. Moldou a narrativa da mídia através de ligações diretas para a CNN, que o entrevistava onde quer que ele estivesse no momento. A mídia baseada em fatos, em seu zelo por ser imparcial e equilibrada, deu a ele uma plataforma mesmo sem levá-lo a sério.

 

A CNN mostrava seus comícios ao vivo. E a “mídia liberal” tendia a banalizá-lo nas primárias do Partido Republicano e até nas eleições gerais, pensando que sua retórica o faria inaceitável para amplas faixas do eleitorado. Isso se provou um pensamento ingênuo, embora existissem algumas vozes de alerta entre os comentaristas de esquerda (Robert Reich, o cineasta Michael Moore, parcelas da ala de Sanders-Warren na esquerda do Partido Democrata). Eles fizeram advertências e Moore previu sua vitória.

 

Outro ponto é o quanto se nota a fragmentação da mídia, e como Trump explorou tal fato. Ele pôde projetar uma imagem (mais moderada) através da mídia convencional impressa e televisiva, e uma outra através da franja midiática de extrema-direita e seu ódio, como o Breitbart ou outros sites nos quais notícias falsas, acusações bizarras ou apenas retóricas racistas, homofóbicas e misóginas podiam ser amplificadas pelas redes sociais e outras mídias que tais seguidores, apologistas e fanáticos produzem e disseminam.

 

Foi uma caixa de ressonância da extrema-direita. Os conservadores da ala “NeverTrump” ficaram fora, mas foram muito discretos. Por fim, aqueles do Partido Republicano que não o apoiaram abertamente, ou até fizeram oposição, “entraram no time” agora. É uma situação perigosa, de poder sem controle, com as duas casas legislativas dominadas pelos republicanos, a chance de mudança do equilíbrio de forças na Suprema Corte e o domínio republicano na maioria dos estados.

 

Correio da Cidadania: Você acredita que mais gente irá às ruas protestar depois desta eleição?

 

Scott Martin: Isso já está acontecendo e é um acontecimento pós-eleitoral sem precedentes. Ao menos eu nunca vi isso nos meus 55 anos, o que inclui a vitória de George W. Bush numa eleição cheia de irregularidades na contagem dos votos da Flórida. Tampouco aconteceu após a eleição de Bush pai ou depois da vitória de Reagan, ou ainda de Richard Nixon.

 

As pessoas não estão protestando pelo fato de Trump ter vencido no colégio eleitoral (nem mesmo aqueles que odeiam essas regras que custaram duas presidências aos Democratas em 16 anos). Protestam contra sua retórica divisionista e odiosa, suas promessas de políticas anti-imigrantes. Contra direitos de mulheres, negros, latinos. Isso nunca aconteceria se algum outro nome dentre os republicanos tivesse ganhado, como Jeb Bush ou John Kasich. Trump quebrou parâmetros com seus fortes apelos ao nacionalismo branco e racista. Não significa, é claro, que todos os seus eleitores apoiem tais ideias. Muitos se levaram pela ansiedade de ver algo ser feito contra as elites políticas e pelo declínio de longo prazo dos salários e níveis de bem-estar pessoal na economia, o que Trump abordou brilhantemente.

 

Sim, eu acredito que os protestos vão crescer. Já existem planos em andamento para uma gigantesca manifestação pelos direitos civis no dia de Martin Luther King, em janeiro, e a Marcha do Milhão de Mulheres em janeiro, em Washington, ao redor do dia da posse. A vitória de Trump parece unir feminismo, direitos civis, ambientalismo, movimento sindical, direitos dos imigrantes e outros ativistas de uma maneira que Obama deve ter sonhado algum dia. Direitos e ganhos em diversas áreas estão ameaçados. Parece uma ameaça existencial a várias situações que já estavam garantidas, dadas como certas até agora, de modo que vemos muitas pessoas que nunca tiveram o hábito de protestar indo às ruas, jovens, velhos, famílias...

 

Correio da Cidadania: É possível fazer previsões sobre o governo de Trump? Mais especificamente, o que pensa que pode acontecer com as leis migratórias e o programa de saúde Obama Health Care?

 

Scott Martin: A maioria dos sinais é bem problemática, mesmo a poucos dias de alguns chamados à “unidade”. Um conselheiro próximo da Casa Branca, com autoridade semelhante à de chefe de gabinete, encabeçou o discurso de ódio e falsas notícias do website Breitbart (Bannon). A EPA (Agência de Proteção Ambiental na sigla em inglês) e o Ministério do Interior devem ficar nas mãos do “Big Oil” e lobistas dos combustíveis fósseis que negam o aquecimento global. O departamento de Estado  possivelmente e o cargo de assessor de Segurança Nacional,  já com a nomeação do general Flynn, demitido por Obama de um cargo de inteligência por incompetência, devem ir para as mãos de pessoas de estilo autoritário e bem possivelmente com pouca ou nenhuma experiência em política externa. Nas nomeações da Suprema Corte, onde agora há uma vacância, e poderíamos ter mais uma ou duas neste mandato presidencial, a tendência nas nomeações será contra o aborto, contra as mulheres, contra os direitos civis, contra os direitos trabalhistas, pró-business e provavelmente pró-expansão da autoridade executiva.

 

Na imigração, parece que um mínimo de 2 a 3 milhões de imigrantes serão deportados como “criminosos”, apesar de especialistas colocarem em dúvida o fato de haver tamanha quantidade de criminosos após cerca de 2 milhões terem sido deportados nos anos de Obama. A segurança da fronteira será outro grande foco (onde Obama já fortalecera a segurança a tal ponto que tivemos mais mexicanos voltando do que entrando nos Estados Unidos nos últimos cinco anos, como mostram pesquisas). Teremos o aumento dos abusos de direitos humanos nas fronteiras, suponho.

 

Poderia, eventualmente, com a fronteira “segura”, ser feito algum esforço em favor da concessão do status de cidadão, ou pelo menos de residência permanente, para os milhões que passaram aqui estes anos, pagaram impostos sem receber benefícios e forneceram mão de obra em regiões onde os cidadãos norte-americanos não querem trabalhar? Podemos imaginar esse enredo, se formos bem otimistas.

 

Seria como “Nixon na China” (alusão à inesperada política de abertura do ex-presidente conservador ao país asiático ainda à época do Mao, também nome de uma famosa ópera), de acordo com o momento. Mas Trump empregou imigrantes legais e ilegais, e pode ser cioso das preocupações do empresariado quanto à força de trabalho disponível. Coisas estranhas já aconteceram! De toda forma, muitos republicanos conservadores, como George W. Bush, já quiseram isso, até  a ideia se tornar politicamente tóxica em relação ao nativismo criado nas cabeças obscuras das bases e bancadas republicanas. Mas um bocado mais teria de acontecer na economia, emprego, segurança da fronteira para Trump, em algum momento, se sentir seguro o bastante, frente a essa base social, em levar tal política adiante.

 

Correio da Cidadania: Sobre questões relativas ao comércio, acredita que Trump irá realmente levar o país para políticas comerciais mais nacionalistas, restritivas e protecionistas?

 

 

Scott Martin: Sim, embora eu tenha esperanças de que haja contrapesos. Além dos acordos comerciais com futuro nebuloso que mencionei anteriormente, ele poderia se valer agressivamente das leis antidumping para propósitos protecionistas contra determinados setores, em determinados países. Ou declarar determinados países “manipuladores do valor das suas moedas” para fins comerciais. O que, particularmente com a China, pode incitar retaliação.

 

Acho que nós estamos em um momento de extenso intervalo no avanço do comércio global através de acordos de comércio e investimentos regionais e multilaterais. Enquanto isso é teoricamente bom para os direitos trabalhistas, meio ambiente e proteção ao consumidor, que na verdade tendem a ser tratados selvagemente nesses acordos, não é necessariamente bom para o comércio global ou para as perspectivas dos países em desenvolvimento que dependem desproporcionalmente da abertura dos mercados do norte.

 

Mas, falando de forma geral, a globalização tem produzido apenas uma crescente desigualdade e lacunas entre os possuídos e despossuídos no norte, e também em muitos lugares do sul global. Uma pausa não é algo ruim, mas a esquerda (tanto do norte quanto do sul) precisa de uma agenda de inclusão, de integração social, e isto ainda não foi articulado. Ninguém ganha com o aumento do protecionismo e do mercantilismo no final das contas.

 

E nós não discutimos o meio ambiente. Trump pode significar um efetivo ponto final aos acordos de Paris. Os EUA têm de conceder um aviso prévio de quatro anos, mas o governo pode efetivamente rescindir as ordens executivas sob as quais os Estados Unidos estavam cumprindo suas promessas quanto às emissões de usinas elétricas e automóveis, e outros países provavelmente não agirão se os EUA estiverem recuando. Um desastre no tema das mudanças climáticas. Mas, ao mesmo tempo, há resistências. Do empresariado já comprometido com as estratégias verdes, de 300 empresas que já firmaram abaixo assinado contra retrocessos na política ambiental e na adesão ao Acordo de Paris. E o estado da California, que sempre foi pioneiro nas políticas contra emissões de automóveis, e com cerca de  40% da população, pode voltar a emitir normas que acabariam valendo na prática para as montadoras nacionais, como aconteceu à época de Bush.

 

Correio da Cidadania: Na sua opinião, como o próximo presidente dos EUA irá lidar com os países da América Latina? Quais poderão ser as diferenças de estratégia entre as administrações Obama e Trump?

 

 

Scott Martin: Imagino um retorno a um unilateralismo agressivo. Um congelamento, senão um retrocesso, na normalização com Cuba, embora eu espere que o Trump homem de negócios vença o Trump homem da política nesse assunto. Direitos humanos e democracia serão preocupações menos prementes senão inexistentes. Talvez haja corte nas verbas de ajuda externa e de assistência (bilateral e multilateral), dada a tendência isolacionista. No tema guerra às drogas, a tendência é a permanência do quadro atual ou uma regressão se, de alguma maneira, houver uma retomada do modelo de combate ao terrorismo da gestão Bush filho, que associe narcotráfico com terrorismo.  E vamos ter inexoravelmente um aumento de gastos militares, sobretudo para políticas “contra-terroristas”.

 

Minha maior preocupação é no que toca as relações com o México, o país que sigo de perto, para onde viajo frequentemente e onde tenho relações familiares. Minha esposa é mexicana e muitos familiares vivem lá. Trump quer, simultaneamente, ao menos dobrar o número de deportações para o México, fechar a fronteira com um muro e, na renegociação do NAFTA, extrair grandes concessões do México, já que o Canadá afirmou a disposição de aceitar reabrir o NAFTA, o que deixa o México sem escolha. Isso poderia gerar uma explosão social, com milhões de pessoas de volta ao país, cortes no mercado de trabalho, onde milhares de empregos dependem da integração com os EUA, sem poder mais contar com a imigração como uma “válvula segura” tradicional, conforme ocorreu nas últimas décadas, e que permitiu ao México diminuir os custos sociais de uma continuada e aprofundada política econômica neoliberal.

 

Tudo isso com um presidente mexicano de centro-direita que é terrivelmente impopular por conta de corrupção, de um péssimo desempenho em direitos humanos e investigações nas violações dos mesmos (como no caso dos estudantes desaparecidos), além também de sua péssima performance econômica, com reformas como a privatização do petróleo, que não leva benefícios econômicos para a maioria dos mexicanos.

 

O peso mexicano (moeda do país) vem em queda livre desde as eleições, com todas essas preocupações e incertezas. O México apostou pesado em uma integração com os Estados Unidos desde os anos 80 e 90, o que agora parece um colossal erro histórico. É uma panela de pressão na fronteira sul dos EUA.

 

Eu predigo (e espero) que o nacionalismo de esquerda, o MORENA e Lopez Obrador terão de agir juntos e canalizar todas as queixas nas próximas eleições, de 2018. O povo mexicano está cansado do duopólio conservador PRI-PAN no poder, e ainda ultrajado pelo novo presidente dos EUA, que insultou a todos os mexicanos como um povo. Eu penso que a reação contra a direita estadunidense, populista e nacionalista, virá de uma esquerda mexicana ascendente, também populista e nacionalista, mas espero que tenha uma natureza eminentemente democrática.

 

Isso pode ocorrer também no restante da região? Não tenho certeza, uma vez que governos ditos de esquerda implodiram em seus países devido a diversos erros relacionados às suas formas de atuar (que espero que estejam prestes a cair na Venezuela), seguidos ainda do oportunismo da oposição e de questionáveis sucessores de direita e centro direita. Mas, caso ocorresse, seria uma reentrada para movimentos anti-imperialistas e nacionalistas, que poderiam retornar enquanto um agressivo Tio Sam mostra sua cara novamente.

 

Finalmente, qualquer melhora que tenha havido na relação hemisférica sob Obama provavelmente não prosseguirá, e pode ser revertida.

 

Correio da Cidadania: Sobre essas questões, como ficam as relações com a Rússia e Oriente Médio?

 

 

Scott Martin: Estou muito preocupado, por motivos mencionados anteriormente. Não é nada auspiciosa a conciliação com um ditador nacionalista de direita Na Rússia, que faz coisas ruins em casa, nas suas fronteiras e na Síria, e que ainda poderia fazer pior no Leste Europeu e no antigo império Soviético. Por exemplo, na Ucrânia e nos países bálticos

 

Pode haver uma recuo na beligerância vis-à-vis ao Irã, que deve fortalecer os mullahs, ameaçar a paz e Israel. Talvez as botas sejam trajadas nos campos de guerra no Iraque novamente (volta de soldados americanos em cena) e na luta contra o EI (Estado Islâmico). Possivelmente haverá um movimento para abraçar uma monarquia autoritária saudita, que comete atos abomináveis no Iêmen e faz seus jogos com o islã radical com seu financiamento internacional. Mas será pressionado a tomar partido aberto contra o novo inimigo declarado, o  “islamismo radical terrorista”. O cenário ficará mais complicado caso se tomem medidas extremas na política de imigração, como o registro de muçulmanos ou ainda maiores restrições à entrada de cidadãos de países árabes para estudarem ou fazerem turismo ou negócios.

 

O anti-paz Netanyahu, que agiu de modo vil falando contra Obama no Congresso, estará agora empoderado a resistir ao processo de paz, proteger e aumentar as colônias e assentamentos israelenses em território palestino. Ele comemorou a vitória de Trump e está extasiado. Com nenhuma esperança de paz, a intifada vai provavelmente ressurgir nos próximos anos. E Trump provavelmente a denunciará como “terrorista”.

 

Correio da Cidadania: Houve algumas análises na América Latina, especialmente no Brasil, destacando o fato de que a administração Trump poderia ser menos militarista que seria a de Hillary Clinton, o que teria um impacto positivo não apenas em países como o Brasil, mas também no Oriente Médio. Como você responderia a esses comentários?

 

 

Scott Martin: Isso pode provar ser um pensamento ilusório. Certamente, Hillary era mais agressiva como Secretária de Estado do que Obama, e provavelmente teria pressionado por uma zona de exclusão aérea na Síria. Apoiou ainda a intervenção na Líbia sem uma estratégia clara pós-Kadafi. Mas, sob Trump, é provável uma escalada maior de gastos militares, o que é ruim para o povo norte-americano e não pode ser bom para o mundo. Assim como deve haver mais uso da ajuda militar bilateral para sustentar aqueles que são tidos como aliados, não importa quão corruptos ou antidemocráticos.

 

Um país que eu sigo e para onde onde viajei em  meados desse ano é a Etiópia. Um regime brutal envolveu-se na repressão de um ano de protestos pacíficos espalhados pelo país. Agora, vê-se o começo de um estado de emergência, declarado mês passado, que suspende todos os direitos, amordaçou a imprensa já censurada e bloqueou a Internet.

 

Os EUA e o Ocidente, que ajudam e promovem um regime administrado por uma pequena minoria étnica como aliada do Ocidente na perigosa região do Chifre da África, compactuaram com essa repressão brutal do povo etíope. eles continuarão a perseguir tais políticas de curto prazo e injustas ​​sob Trump. Só tende a piorar. Esse é apenas um exemplo. A justificativa será a "guerra ao terror", e tudo será visto através dessa lente. Penso que, ao final, os instintos isolacionistas para "reconstruir a América" ​​e olhar para dentro serão truncados por impulsos militaristas e uma tendência a ver o mundo nos termos do "nós contra eles" e a ver um terrorista atrás de cada conflito, atrás de cada refugiado.

 

Se olharmos para os potenciais Secretários de Estado inicialmente sob consideração, esta é a maneira que eles veem o mundo. Eles apoiaram a invasão do Iraque. Já um Mitt Romney seria diferente, se fosse o escolhido. Se olharmos para cargos de Assessor de Segurança Nacional (Flynn) e diretor da CIA (Pompeo), há sinais preocupantes quanto à proximidade com a Rússia, o foco exclusivo no islã radical como eixo da política externa, a oposição ao tratado da anti-proliferação nuclear com o Irã. Não vejo que hajam aprendido as lições da invasão ao Iraque. Não estou dizendo que os neocons estão completamente de volta ao controle, como sob Bush filho, mas parece que unilateralistas e militaristas estão de volta sob Trump. É por isso que os japoneses e os europeus estão profundamente preocupados. Sobre  a tendência a aplacar a Rússia. Sobre o desgaste de alianças sob o disfarce de “repartição de encargos”. Sobre a conversa frouxa de que o mundo estará melhor lá fora com mais aliados dos EUA possuindo armas nucleares.

 

Meu senso é que há duas áreas mais prováveis ​​de confronto perigoso, onde a política dos EUA será testada e pode contribuir para resultados realmente ruins para o mundo: a Coréia do Norte e a China. A Coréia do Norte tem cada vez mais a capacidade de projetar mísseis nucleares para longe da Ásia, inclusive contra os EUA. As sanções não funcionaram e nenhuma outra estratégia funcionou. Acho que pode haver uma forte tentação de Trump em tentar algo como o ataque convencional de Israel contra o reator nuclear do Iraque sob Saddam. Isso poderia levar a uma potencial escalada de confrontação nuclear na Ásia, que pode acabar se espalhando para fora. Coisas perigosas.

 

Na China, eu acho que teremos crescentes escaramuças e tensões sobre o comércio internacional e as linhas marítimas, como no mar da China do Sul, e outras questões relativas à China se afirmar como uma potência global sob o regime atual, enquanto Trump afirma o poder dos EUA. A China precisa ser contida e é uma ameaça para seus vizinhos asiáticos, além de cada vez mais repressiva em casa. Mas eu duvido que haverá uma política inteligente para lidar com isso sob a nova administração.

 

Correio da Cidadania: Finalmente, a administração Obama recebeu análises muito controversas ao redor do planeta, algumas apontando suas limitações em lidar com questões sociais e raciais internas, enquanto outras ainda apontaram uma não esperada e desnecessária escalada de militarização. Tendo isto em mente, como avalia a administração Obama em seus oito anos de duração?

 

 

Scott Martin: Dado o acordo com o Irã, a abertura a Cuba e os esforços para  retirar tropas do Afeganistão e Iraque, acho que a crítica da militarização da política externa é sem méritos. No entanto, a ideia de que estávamos em uma "América pós-racial" com Obama foi sempre fantástica. Há limites no que um presidente pode fazer, e acredite que ele tentou, no controle de armas, na reforma da justiça criminal, denunciando o aumento do abuso policial e assassinatos em todo o país, os quais o governo federal não pode controlar diretamente ou resolver com muita facilidade. Ele sempre foi bloqueado pelo obstrucionismo republicano no Congresso e pelos limites do federalismo, onde a maioria dos estados está nas mãos dos republicanos. Se ele reforçou deportações de pessoas com antecedentes criminais, isso foi feito pelo menos através do Estado de Direito e também em um esforço para tentar abrir o caminho para a reforma da imigração. E foi feito em concomitância a movimentos paralelos, como a ordem executiva que deu a 800.000 pessoas que vieram para os EUA como crianças um status legal temporário, até o parecer final do Congresso.

 

Apesar de um declínio no crime, e no crime violento em especial, a direita, seus meios de comunicação e os políticos açoitaram os medos do cidadão, de modo que muitos acreditassem que o crime estava aumentando, de acordo com algumas pesquisas. O “Black Lives Matter Movement” (movimento de jovens associado à causa negra) contra os assassinatos e brutalidades da polícia foi demonizado pela direita (e talvez pudesse aprender algo em tática e retórica da comunidade tradicional de direitos civis).

 

Os imigrantes foram confundidos com criminosos na narrativa de direita que Trump promoveu, mas outros também trouxeram essa narrativa antes dele. No entanto, Trump bateu insistentemente nessa tecla. "O outro", que era negro, marrom, muçulmano, latino, um imigrante ou uma feminista, foi retratado como uma ameaça. Para a segurança. Para "nossos trabalhos". Para o "nosso país". Para a masculinidade. Para o privilégio branco. Tudo isso de alguma forma foi uma reação a todos os valores progressistas que Obama e sua coalizão representam. O ódio e a divisão ganharam o dia. Mas a narrativa de Trump incidiu também em uma genuína questão econômica e social, considerando que os salários médios nos EUA são hoje mais baixos do que nos anos 70.

 

E Hillary era uma mensageira muito falha para tal combate, com os laços de Clinton com o NAFTA e Wall Street, seus grandes doadores, seu servidor de e-mail, a confusão do público com o privado na Fundação Clinton quando ela estava no governo, a identificação dos Clintons com a desregulamentação financeira e com políticas de livre comércio que remontam aos anos 90. Ela era o status quo em uma "eleição de mudança". Uma política de carreira, ainda que ela tenha feito bastante coisa boas na sua trajetória.

 

Bernie Sanders explorou essa mesma espécie de ansiedade econômica muito real, como fez Trump, afirmando que Hillary não tinha uma boa mensagem. Houve um debate sobre classe, globalização, inclusão e exclusão nessa eleição e a mensagem de Trump ganhou o dia, com pessoas suficientes para levar ao poder esta nova geração de populismo nacionalista de direita.

 

Tivemos tais figuras antes, mas nunca como presidente. Ele é muito pior, muito mais ameaçador em casa e pelo menos igualmente ameaçador no exterior, comparado a George W. Bush ou Reagan ao chegarem ao cargo. Vivemos em tempos muito perigosos, tanto neste país como em todo o mundo. Neste momento, a ala direita se credenciou como “dona” do movimento contra a globalização, posição que antes pertencia à esquerda. Agora, esse movimento será direcionado para seus próprios e lamentáveis fins de divisão e exclusão.

 

English version

 

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Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; colaboraram Gabriel Brito e Raphael Sanz.

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