“A função essencial do jornalismo na democracia imporá novas soluções para novos modelos de negócios”

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Para inaugurar a nova página do Correio da Cidadania, conversamos com o jornalista e professor da ECA-USP Eugênio Bucci, referência em reflexões sobre o ofício. Em sua visão, a crise pela qual passam as empresas de comunicação, refletida nas crescentes demissões e enxugamentos de veículos tradicionais, é uma agonia relativamente natural, dado que atinge velhos modelos de negócio. “A função essencial do jornalismo na democracia imporá que surjam novas soluções para novos modelos de negócios”.

Além de analisar o atual momento, Bucci ressalta o papel da imprensa pública e a chamada alternativa, cujos modelos de sustentabilidade, a seu ver, são os únicos possíveis no médio ou longo prazo, livres de vínculos com instituições, governos e entidades partidarizadas. Essas, em algum momento, cedem em valores básicos do ofício e perdem credibilidade.

“Há formatos novos para o exercício jornalístico. Os quadrantes em que isso vai prosperar não estão definidos, ainda é tudo muito maleável, sem cristalização, mas há caminhos interessantes. Existe, sim, uma crise de modelo de negócios na imprensa. Veremos mais coisas fechando, redações acabando. Já tivemos redações históricas que fecharam, com o Jornal da Tarde em São Paulo e o Jornal do Brasil no Rio, e muitas mais. Veremos o encerramento de operações de emissoras...”, disse.

Eugênio Bucci insiste na crítica às relações entre governos e empresas de comunicação, cujos editoriais pró-austeridade ilustram uma contramão à própria dependência da publicidade de entes públicos. “É uma mazela, um atraso, um anacronismo, uma prática de clientelismo e coronelismo antiga no Estado brasileiro e muito ‘democrática’, por ter todo tipo de aproveitador, de esquerda e de direita”.

Otimista em relação a diversas iniciativas que têm sido promovidas no sentido de uma revitalização do jornalismo, Bucci, no entanto, alerta que o dinamismo de projetos independentes não descarta a hipótese de as empresas tradicionais saírem na frente na descoberta de novos e mais sustentáveis modelos de negócio.

“Resumindo: é preciso garantir a independência, ver novos formatos de financiamento e fiscalizar o poder, seja o Temer, seja a Dilma, o Alckmin ou o Haddad. Há coisas que autorizam algum otimismo no cenário, por isso temos que apostar em tal caminho, pois é para isso que a sociedade precisa do jornalismo”, afirmou.

A entrevista completa com Eugênio Bucci pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Você é professor da ECA (Escola de Comunicação e Artes – USP), um dos grandes celeiros da comunicação brasileira. Qual espírito, estado de ânimo, enxerga em seus alunos frente à profissão?

Eugênio Bucci: Eu enxergo com bons olhos. São alunos animados, entusiasmados com os desafios, muito imaginativos. Penso que a ECA também tem uma condição que permite atrair gente que escreve bem, pensa bem, tem talento, e tudo isso ajuda.

Chamo atenção para uma coisa: desde que estudo jornalismo a reclamação é interminável. Em todo local, todo ano, falava-se no desemprego. Nas formaturas os professores estabelecem cenários de desolação, devastação, material e moral. É assim desde que me formei, lá se vão mais de 30 anos. Essa lengalenga não deveria ser tomada como verdade, sem maiores problematizações.

O jornalismo e a imprensa vivem para enfrentar adversidades. Por isso digo que não é excepcional o que estamos identificando agora, isto é, o enxugamento de redações, interrupção de negócios, redução de empregos em algumas áreas... São dados que dizem respeito à forma do “negócio jornalismo”, ou a uma conformação da divisão do trabalho e do mercado.

Se nós nos afastarmos desses discursos, veremos que existem formas novas para a atividade jornalística. Existem os modelos não lucrativos, as iniciativas colaborativas, que eram coisas impensáveis no passado. Por exemplo, o Fórum Internacional de Jornalismo Investigativo, colaborativo por definição, tem realizado reportagens importantíssimas, como a dos Panama Papers.

Tal formato de reportagem, que tem trazido tanta luz à esfera pública, era impossível há um tempo. E aí aprendo com as novas gerações: tudo se trata de ter um sentimento genuíno com sua vocação, o que você quer fazer da tua vida, uma imaginação “desreprimida”, capaz de enxergar caminhos, com coragem de trilhar tais caminhos e assumir os riscos que implicam.

O conteúdo jornalístico nunca foi tão lido como hoje em dia, nunca se debateu tanto a qualidade da imprensa como agora. Sempre existiram problemas, mas também existem soluções inéditas e gente fazendo coisa interessante, a exemplo de vocês.

Sinto os jovens e alunos muito pouco disponíveis para vibrar nessa toada do pessimismo e do derrotismo.

Correio da Cidadania: Em sua visão, quais as principais tendências do jornalismo, tanto positivas quanto negativas? O que deve crescer e o que deve encolher?  

Eugênio Bucci: Tenho resistência em apontar cenários prováveis, porque, sem nenhuma modéstia, mas absoluto realismo, não sei. Existem indicações de várias possibilidades, mas realmente não sei.

Vejamos uma coisa: muito se fala das falências dos modelos do jornalismo convencional etc. Porém, publicações como The Economist, a New Yorker ou outras do tipo continuam vigorosas. O New York Times e o Washington Post, por caminhos diferentes, encontram uma sobrevida que era improvável com assinaturas digitais. E vêm mostrando vigor e independência jornalística.

Portanto, é possível, e vou espantar muita gente, que a chamada imprensa convencional descubra e crie caminhos pelos quais ela vai encontrar uma nova força. Isso não está descartado. Ao mesmo tempo, penso que podemos ter uma revitalização das chamadas emissoras públicas, que viveram uma crise muito grande. Refiro-me à PBS (Public Broadcasting System), National Public Radio nos EUA, a BBC no Reino Unido, a Deutsche Welle alemã, entre outras, que já foram reservas de jornalismo de grande qualidade. Se pegarmos o que há no jornalismo internacional, vemos bons debates públicos nos EUA, com ramificações e atenção para as minorias; há coberturas exemplares da BBC, da ciência às guerras.

É possível que essas instituições que enfrentam a crise do modelo de financiamento – do financiamento público – possam encontrar uma força renovada, uma revitalização. Elas contêm aquela dimensão especial para todos nós: a vocação pública da imprensa.

Além das duas coisas a que me referi – jornais e revistas comerciais e emissoras públicas –, temos de olhar a novidade do cenário, isto é, as associações, como os fóruns de jornalismo investigativo. Há novidades de instituições que se baseiam em doações e algumas começam a faturar também com publicidade. E tem uma definição de serem iniciativas sem fins de lucro. Realizam investigação e com isso vêm redescobrindo a checagem, o chamado fact checking, tão importante em eleições recentes, inclusive no Brasil.

Há formatos novos para o exercício jornalístico. Os quadrantes em que isso vai prosperar não estão definidos, ainda é tudo muito maleável, sem cristalização, mas há caminhos interessantes. Portanto, identifico possibilidades que estão postas, não é futurologia. Estou falando de fatos mais que de tendências. E creio que eles apontam caminhos muito interessantes para o exercício da profissão.

Correio da Cidadania: Para fazer jornalismo de qualidade, é preciso dinheiro. Apesar da ascensão inexorável da internet, a televisão continua a concentrar o grosso das verbas publicitárias. Tivemos mais um ano marcado por demissões no jornalismo, só neste dezembro a Rádio Globo Belo Horizonte encerrou suas atividades e a Folha de São Paulo promoveu mais uma rodada de demissões; várias empresas jornalísticas estão em contínuo enxugamento de pessoal e de funções. Há como, nesse contexto, preservar o jornalismo como um serviço para a sociedade e a democracia?

Eugênio Bucci: É evidente que sim. E acho espantoso como alguém pode não enxergar essa função essencial do jornalismo. No entanto, tais dados se restringem ao que chamaria de crise do modelo de negócios na imprensa. Tal crise está instalada e parece que até próxima de sua agonia, mas vem se instalando há mais de uma década. Não é algo que se apresentou agora.

Nos EUA, o fundo do poço dessa crise deve ter sido em 2008. No Brasil, não tivemos uma coisa análoga, mas os efeitos dessa crise vieram sendo diluídos, com traumas nos anos subsequentes. Existe, sim, uma crise de modelo de negócios na imprensa. Veremos mais coisas fechando, redações acabando. Já tivemos redações históricas que fecharam, com o Jornal da Tarde em São Paulo e o Jornal do Brasil no Rio, e muitas mais.

Veremos o encerramento de operações de emissoras, vamos ver coisas, pra usar um termo horripilante, sendo descontinuadas, como gostam de falar... Tudo bem, mas a função essencial do jornalismo na democracia imporá que surjam novas soluções para novos modelos de negócios. Ou adequação dos atuais modelos.

Passamos, ou estamos ainda passando, por terremoto muito grande, que considero benéfico: é a chamada revolução tecnológica. Considero que é a revolução de Gutemberg continuada. Essa revolução tecnológica mudou muitos paradigmas, aposentou muita coisa. Na história da imprensa, principalmente os mecanismos de distribuição, alguns ficaram muito comprometidos. Seja distribuição de broadcasting, de TV e rádio, seja distribuição de impressos. Não é mais preciso derrubar árvore, montar gráfica, contratar caminhão para entregar o jornal. O sujeito aperta o botão e já recebe o jornal.

Veja que isso é uma alteração gravíssima e profunda da distribuição, não da confecção, apuração, edição e veiculação da notícia. Isso não diz respeito à redação. Mas a crise desse modelo de distribuição evidentemente impacta as redações. E a crise da distribuição alcança rádio e TV além dos meios impressos, pois o broadcasting também é um meio de distribuição.

Portanto, veremos muitos empregos sendo fechados, veremos negócios acabando, e já estamos vendo. Veremos operações encerradas. Isso já está fora de questão. Mas o jornalismo sempre viveu às voltas com tudo isso. Houve uma era da TV e do rádio; houve uma era de ouro nos jornais, que talvez tenha se dado na virada do século 19 para o 20, ainda que muita coisa tenha crescido depois, editoras de revistas atingiram seu auge ainda na segunda metade do século 20 etc.

De toda forma, é provável que alguém venha a dizer que estamos numa era de ouro dos negócios na internet. É tudo muito novo, mas já tem muita gente jogando conteúdo na internet. O problema que afeta o estado de espírito das velhas gerações, com rescaldo nas novas, é que elas têm mania de passar a cruz para os mais novos, com discursos de lamúrias etc. Mas podemos viver uma era de ouro da internet. Não considero isso, mas admito a hipótese. De todo modo, talvez lá no futuro vá aparecer gente com saudade dessa época.

O que acho muito engraçado, e ninguém fala, é que a internet vem trazendo novos monopólios. E isso é um risco real para a democracia. O Google e Facebook são monopólios mundiais. Acho muito engraçado que muita gente fique reclamando do monopólio de não sei quantas famílias que mandam na mídia brasileira – conversa mal informada com algum lastro em dados factuais. Mas essa conversa desinformativa faz com que não se fale nada dos monopólios mundiais de Google e Facebook.

Muitos amigos meus fazem até jornais pelo Facebook, mas é um espaço privatizado. Deveria ser público, mas não é. E não há uma crítica contundente e sistemática a respeito. De toda forma, essa abertura para a publicação de conteúdos nunca existiu. Hoje, uma pessoa efetivamente consegue fazer um meio de comunicação em sua casa. E veja o impacto que tem.
 
Não é um período de desmonte, de velório, como se diz. Alguns modelos de negócio estão na hora da morte, é certo. Mas a pujança, vibração, a profusão, a fartura e a velocidade de novos conteúdos é uma coisa que nunca foi vista. E para isso também é preciso ter olhos, percepção.   

Correio da Cidadania: Nesse sentido, com a expansão da internet, especialmente considerando o alcance das redes sociais, tem surgido o que muitos chamam de fragmentação digital, algo que comprometeria a qualidade do jornalismo, uma vez que opiniões e informações passaram a ser divulgadas indiscriminadamente,  e sem os requisitos básicos de checagem dos fatos. Qual o balanço que você faz desse cenário, enxerga mais prós ou mais contras?

Eugênio Bucci: Há um empuxo muito saudável a partir das novas tecnologias digitais, que abriram para cada pessoa conectada à Internet a chance de falar para o mundo inteiro. Trata-se de um empuxo democratizante e renovador. Ao mesmo tempo, os novos conglomerados que se formaram a partir dessas inovações, que vão do computador às redes sociais, passando pelos celulares e outros dispositivos móveis, trouxeram problemas inéditos, como os mencionados monopólios globais do Facebook e do Google. Quer dizer, se a comunicação ficou virtualmente mais acessível, o seu controle ficou muito mais fechado e oligopolizado. Com um dado que complica as coisas um pouco mais: as redes sociais funcionam a partir de algoritimos que filtram os conteúdos de acordo com a preferência dos usuários e criam, por decorrência, as tais "bolhas" em que as pessoas ficam "ilhadas".

Dentro de uma bolha, a tendência é que o sujeito só veja discursos e imagens que reforçam suas crenças pessoais. Isso tem propiciado um terreno fértil para a propagação de informações sem base nos fatos - como os boatos mentirosos espalhados pela campanha de Donald Trump nos Estados Unidos. E tem ainda reduzido o nível e objetividade, precisão e fidedignidade do noticiário em geral. Para os posts dessa nova era, parece que agradar à torcida de cada uma das bolhas conta mais pontos do que ser verdadeiro. A verdade factual perde terreno.

Em setembro, a revista Economist fez uma capa dizendo que estamos ingressando na era da pós-verdade. O termo é mais antigo, vem de um livro de Ralph Keyes, publicado em 2004. Se a pós-verdade triunfar de fato, teremos também a era da pós-imprensa, com o jornalismo sendo substituído pela indústria do entretenimento a serviço dos boatos, e da pós-política, com os partidos políticos sendo substituídos por religiões que não dialogam entre si. Eu não acredito que a pós-imprensa vá triunfar, mas não será uma briga fácil.

Correio da Cidadania: Como você enxerga a situação da mídia dita de mercado, corporativa, mainstream, como queira nomear? Como avalia editoriais que defendem políticas de austeridade fiscal quando há uma dependência cada vez maior da publicidade governamental para a sobrevivência dessas empresas?

Eugênio Bucci: Infelizmente, trata-se de uma mazela, um atraso, um anacronismo, uma prática de clientelismo e coronelismo antiga no Estado brasileiro e muito “democrática”, por ter todo tipo de aproveitador, de esquerda e de direita. Estão eles na mídia convencional e nos blogs;  nos grandes diários, dos mais vetustos, até aqueles que prometem uma utopia cibernética. O problema não é o que o editorial diz ou não, mas que o Estado brasileiro ainda pratica um tipo de subvenção não discutida democraticamente para os veículos que agradam a autoridade de ocasião.

É incrível como, sempre que muda a autoridade, também mudam os beneficiários. A prática é idêntica, é a mesma. Fazendo uma conta simples, o Estado não poderia veicular publicidade. Eu já propus várias vezes: o Estado não deveria usar dinheiro público para apoiar uma opinião em detrimento de outras opiniões, pois este dinheiro é de todas as opiniões.

O Estado dispõe de meios para fazer sua comunicação com a sociedade, não deveria comprar espaço publicitário a qualquer título. Alguns dirão que há situações de emergência: tudo bem, pode acontecer alguma coisa fora do comum, como um esquadrão de naves extraterrestres pousar em Brasília e ser preciso avisar as pessoas. Mas seria uma situação, digamos, ultra-excepcional. E mesmo pra situações excepcionais, o Estado já dispõe de mecanismos para alertar a população. Por exemplo, no que se refere às campanhas de vacinação, o Estado tem recursos tecnológicos e de comunicação para fazer este alerta.

Chegamos a uma situação no país em que a verba pública é a maior anunciante do mercado publicitário. E não dá para conviver com isso, que é uma estatização dos canais de debate público, uma usurpação da função crítica da imprensa, uma hipertrofia e uma das piores deformações do patrimonialismo. Aí é que está o problema: não é um editorial conservador aqui, um blogueiro “progressista” ali, isso é tudo consequência de uma prática deletéria que infelizmente está instalada e é universal, acontece pra todo lado.

Correio da Cidadania: O Correio da Cidadania está fazendo 20 anos de constante circulação e está se reorganizando para não só manter sua base de leitores, como ampliá-la. Qual o conselho você dá para jornais e websites não alinhados com partidos políticos ou entidades de classe e que papel têm a exercer?

Eugênio Bucci: O papel é exercer a função crítica do jornalismo. O jornalismo tem que criticar o poder. Ele só existe como instância crítica do poder. Criticar e confrontar o discurso dos políticos e do poder com os fatos, daí vem a expressão adaptada do inglês de checagem de fatos. E o jornalismo sempre fez isto. Está o tempo todo procurando e verificando provas que comprovem se os políticos e autoridades estão mentindo ou não, sejam eles da situação ou da oposição.

Não tem uma receita que eu poderia dar, procuro evitar essa condição de falar o que vai ser ou o que deve ser, não é minha intenção, mas refletir criticamente sobre o que está posto e tentar extrair desta reflexão algumas marcações. O que está posto é o valor da independência. Muitas vezes, por conta do que acabamos de falar das verbas públicas, as pessoas negociam a independência da informação, sem perceber que isso acaba lesando a sociedade muito mais do que o próprio veículo.

Resumindo: garantir a independência, ver novos formatos de financiamento e fiscalizar o poder, seja o Temer, seja a Dilma, o Alckmin ou o Haddad. Há coisas que autorizam algum otimismo no cenário, por isso temos que apostar em tal caminho, pois é para isso que a sociedade precisa do jornalismo.

Correio da Cidadania: Qual sua opinião desta opção acerca do atrelamento editorial a governos e entidades públicas com finalidade de sobrevivência?

Eugênio Bucci: Aprendi ao longo da vida a ter cautela com tudo o que é patrocinado com dinheiro público. Não quero que a minha afirmação sobre esta cautela seja entendida como uma condenação às coisas que são patrocinadas com dinheiro público, não é isso. Eu mesmo presidi a Radiobras durante 4 anos, 3 meses, 20 dias e 2 horas. Também fui conselheiro da Fundação Padre Anchieta, que tem boa parte dos seus orçamentos vinda dos cofres do Estado. Fui do conselho da Fundação Roquete Pinto, da TV Educativa do Rio de Janeiro, tenho um trabalho longo nisso e sou um defensor dos meios públicos. Acho que eles têm um papel insubstituível a cumprir nas democracias.

Quando digo que tenho desconfiança de coisa que leva dinheiro público, espero deixar entendido como um alerta e não como uma condenação, até porque é sobre um campo no qual trabalho e valorizo muito. E qual é o alerta e a razão da desconfiança? A opinião, que quando patrocinada pelo poder público já nasce desviada.

Nós podemos e entendemos que devemos ter franqueamento do acesso à informação graças aos recursos públicos, é uma tarefa democrática necessária, da mesma forma que temos o franqueamento da educação com dinheiro público. Ocorre em todas as democracias. A educação inclusive é um franqueamento do acesso à informação.

A democracia depende desse domínio pelo cidadão das informações de interesse público pela razão simples de que a democracia depende de uma delegação visceral e vigorosa de poder, vinda das pessoas comuns para as que estão eleitas para governarem e legislarem. Assim, se não tivermos um sistema informativo pleno, a democracia não será plena. Por uma questão de lógica mecânica – para não entrar em questões de moral e ética –, senão a engrenagem não gira.

O dinheiro público deve agir para garantir o acesso à informação, mas, quando começamos a falar em opinião, caímos na questão da propaganda, o que traz grande cautela. Vimos muito e continuamos a ver propaganda política patrocinada. Aconteceu muito no governo do PT, acontecia antes nos governos do PSDB, ainda é um pouco cedo para avaliar o governo Temer, que talvez termine antes mesmo de termos tempo para fazer tal pesquisa, mas é o que estou falando. Trata-se esta, portanto, de outra razão pela qual o Estado não deveria fazer anúncios, nem ser um anunciante no mercado comercial de espaço publicitário, pois é uma deformação.

Correio da Cidadania: Acredita na sustentabilidade de novas mídias através do engajamento de seu público ou isso, ao menos ainda, não é suficiente?

Eugênio Bucci: Só acredito nesses. Nos outros é que não acredito. E se pegar toda a chamada grande imprensa, um conceito difícil de demarcar com precisão, vemos que tais órgãos do Brasil e de fora só sobrevivem porque não são alinhados. Eles têm anunciantes, mas não deixam os anunciantes ditarem suas linhas editoriais. Seja um anunciante público ou seja um privado. Muitas vezes enfrentam conflitos desagradáveis, muitas vezes cedem e erram, mas só esses vão sobreviver. O público desconfia e rejeita o resto. Essa fórmula já é conhecida. O resto cai no descrédito.

Na minha opinião, tal modelo de organizações não governamentais e sem fins lucrativos é uma alternativa real e necessária. Só é preciso evitar o efeito de propaganda, aquela coisa que acaba virando onguismo e não resolve nada. Organizações sem fins lucrativos que se enquadram no modelo das ONGs e fazem informação com seriedade estão atuando, já existe gente inclusive firmando sua história na área. Acredito ser uma alternativa a ser levada a sério.

Correio da Cidadania: Supondo que a sustentabilidade não fosse uma questão vital e estivesse equacionada, que papel vê para os jornais e websites de pequeno porte?

Eugênio Bucci: Sem medo de errar, a imprensa local é a célula mater da liberdade de imprensa – para brincar com aquele pensamento conservador que diz que a família é a célula mater da sociedade. A imprensa local é quase a semente da qual emerge a grande cena da imprensa de larga escala. É preciso existir um dinamismo local, no município, na região.

Em várias democracias a vitalidade da imprensa local abasteceu a construção dos grandes espaços democráticos e das grandes democracias. No Brasil, tivemos um ciclo invertido porque aqui a imprensa foi posta em cena com a chegada da família real em 1808; é o Estado que implanta, sob muitos aspectos, a sociedade brasileira como um todo, a exemplo de como implantou a própria imprensa naquele momento. Muito depois é que começa a surgir um pouco de imprensa de oposição, bem mais tardiamente.

Uma nota de rodapé é que a imprensa sempre foi um espaço crítico, portanto, sempre deve levar uma linha antagonista, e tem isso por definição. Mas nós temos uma carência de como saber fazer imprensa local no Brasil. Acredito muito na importância dos veículos menores, sejam eles locais ou a expressão de uma determinada comunidade. Sou favorável a esse tipo de publicação, qualquer seja a plataforma. É fundamental.


Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista e editor-adjunto.



Comentários   

0 #1 RiscosRaimundo Nonato 20-01-2017 16:29
As empresas devem estar comprometidas com seus clientes, acionistas, parceiros comerciais e com a sociedade em que atua, focando esforços em reduzir os riscos existentes e/ou os que possam se manifestar no futuro e também na maximização das oportunidades de negócio. Para tanto, é necessário conhecer os riscos que a afetam e seus impactos sobre os seus negócios. Os riscos permeiam todos os níveis das atividades do negócio e, se não forem gerenciados adequadamente, poderão resultar em perdas financeiras, deterioração da imagem e reputação ou desencadear uma crise.
O gerenciamento de riscos tem se tornado um assunto de suma importância no meio empresarial, uma vez que a conscientização da necessidade de administração dos riscos potenciais é, hoje, uma questão de competitividade e sobrevivência.
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