De farsa em farsa, Paraguai continuará a simbolizar pior faceta do subdesenvolvimento sul-americano

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Foco de todas as baterias da mídia “liberal na economia e conservadora nos costumes”, como diz um presidenciável brasileiro, a Venezuela acabou de passar por eleições que em breve estarão nas páginas deste Correio. No entanto, voltamos algumas semanas e abordamos o Paraguai, que acabou de eleger novo presidente sob fortes suspeitas. Entrevistamos o jornalista Leonardo Wexell Severo, que lança dois livros sobre o controverso caso Curuguaty, responsável pela destituição de Fernando Lugo em 2012.

“A vitória de Abdo Martínez dará prosseguimento à ideologia de Cartes, Federico Franco, isto é, abertura do país ao capital estrangeiro, sem perspectiva alguma de industrialização, de desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da educação... Ou seja, um país que renovou seu compromisso de ceder mão de obra para que os empresários cheguem para ‘usar e abusar”’, analisou Severo, cujos livros são Curuguaty, carnificina para um golpe e Curuguaty, o combate paraguaio por terra, justiça e liberdade.

Jornalista com mais de 30 anos de trabalho próximo de movimentos sociais e sindicais, Leonardo comenta em detalhes o caso de Curuguaty, onde esteve como observador internacional de investigações sobre o célebre confronto entre camponeses e policiais que motivou a ofensiva conservadora responsável pela destituição do presidente Fernando Lugo – único nome em mais de 70 anos que governou o país sem pertencer ao Partido Colorado.

“Discutir o Paraguai ou os presos políticos de Curuguaty significa discutir a reforma agrária no Brasil, a concentração de terra, de poder e de mídia. Significa discutir a relação prostituída e imbricada entre todos, porque ao denunciar um vértice chutamos os outros. O livro tenta desmontar o julgamento e demonstra que houve uma farsa. Todo o silêncio sobre os presos têm um objetivo político muito claro”, explicou.

A entrevista completa com Leonardo Wexell Severo, realizada em parceria com a webrádio Central3, pode ser lida a seguir.

Como foi sua chegada ao Paraguai para a missão de observador internacional do caso Curuguaty?

Tenho cerca de 30 anos de jornalismo e iniciei minha militância internacionalista na Nicarágua, apoiando a revolução sandinista, colhendo café enquanto se combatia a contrarrevolução que vinha de Honduras. Morei outro ano em Cuba e sempre tive grande interesse pelo relacionamento com a América latina. Meu relacionamento com movimentos sociais me fez ser convidado para observador neste caso, que sempre me pareceu emblemático.

No dia 15 de junho de 2012 ocorreu uma carnificina na região, chamada também Marina Kue, em guarani, ou “terras da marinha”, já que antes havia sido ocupada por batalhão militar. Apenas uma semana depois do “confronto”, entre aspas porque foi provocado por franco-atiradores, no qual morreram 17 pessoas (seis policiais e 11 camponeses), foi deposto Fernando Lugo. Em seu lugar, entrou um fantoche, que não apenas obstaculizou alguns avanços sobre a reforma agrária como abriu caminho para multinacionais como Monsanto e Cargill mandarem e desmandarem no país, em especial com agrotóxicos.

Curuguaty fica a uns 240 km de Assunção, a leste, para o lado do Mato Grosso do Sul. Devido à presença de sojeiros brasileiros também registra outros problemas fundiários consideráveis.

Estamos em campanha de solidariedade. São quatro condenados a até 35 anos de prisão por crimes que não cometeram, como homicídio doloso, associação criminosa e invasão de domicílio, acusações completamente insustentáveis.

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Mas qual teria sido o caldo político que antecedeu o caso e qual o contexto agrário paraguaio?

Havia uma discussão a respeito de se ter mais rigor na fiscalização dos agrotóxicos. O governo se negava, inclusive, a liberar um deles, carregado de veneno para o plantio de algodão. Os grandes latifundiários, também ligados ao grupo Zucolillo, dono do ABC Color, principal jornal do país, começou a convocar uma paralisação, que não ocorreu, pois Lugo já fora derrubado.

O governo Lugo era frágil, mas tinha perspectiva de fazer avançar a reforma agrária. O país tem 85% das terras agricultáveis na mão do latifúndio, para fins de exportação. O Paraguai importa tudo. Pra se ter ideia, é um país que não tem cebola, batata, o básico. Porque 94% da terra é para exportação. O país alimenta, com soja e carne de gado, cerca de 60 milhões de pessoas no mundo. Mas de seus 7 milhões de habitantes, 1,5 milhão passa fome e um terço é desnutrido. É uma contradição.

A invisibilidade que a mídia brasileira dá ao país é justamente porque há muitas semelhanças com o Brasil. Discutir o Paraguai ou os presos políticos de Curuguaty significa discutir a reforma agrária no Brasil, a concentração de terra, de poder e de mídia. Significa discutir a relação prostituída e imbricada entre todos, porque ao denunciar um vértice chutamos os outros.

O livro tenta desmontar o julgamento e demonstra que houve uma farsa. Todo o silêncio sobre os presos têm um objetivo político muito claro.

O livro também conta uma história sobre um dos prisioneiros, que nem castelhano fala, abordado com arma na cabeça enquanto pescava e forçado a se declarar culpado, mas chegou na Delegacia falando apenas em guarani...

Vamos contextualizar: em 15 de junho de 2012 havia uma ordem de averiguação, porque o senador Blas Riquelme, ex-presidente do Partido Colorado, que governou o país por mais de 70 anos seguidos e voltou agora, ou seja, teve uma interrupção apenas no período Lugo, reivindicava os cerca de 2000 hectares da terra de Curuguaty – até menos de 2000 hectares na verdade...

Ele pediu uma ordem de averiguação, alegava haver guerrilheiros ali, enfim, um monte de historinha. Mudaram a ordem de averiguação para ordem de despejo. Foram 324 policiais altamente armados, com fuzis e todo o aparato bélico, gente do grupo de operações especiais, treinada na Colômbia, e chegaram com cavalo, helicóptero e o escambau retirar os camponeses.

Quando chegam, o comandante da ação, Erwin Lovera, irmão de Alcides Lovera, chefe da guarda presidencial, abre diálogo com os camponeses. Quando começa a conversa, seis policiais caem mortos com tiros na cabeça. Tratava-se de franco-atiradores. Parecido com um episódio no governo Chávez, quando se abriu fogo contra partidários e opositores do governo para criar clima de comoção que o depusesse.

A partir deste sangue derramado, é óbvio, e existe vídeo na internet, começa o tiroteio. O documentário “Descontruindo Curuguaty” até começa com os sons do tiroteio, numa sequência de tiros de armas de grosso calibre, que são as dos franco-atiradores. Depois que os policiais veem seus companheiros mortos começam as execuções, seguidas de cenas de selvageria. Há registros de dois camponeses que chegaram a ligar para suas famílias e avisaram que estavam feridos. No total, 11 camponeses mortos.

Mal havia ocorrido aquilo, ninguém sabia direito, os movimentos sociais também ficaram prostrados, e começava uma intensa campanha midiática, pedindo sangue, pedindo o fim do governo Lugo.

E foi muito rápido...

Fernando Lugo foi destituído apenas uma semana depois. Um julgamento político express. Caiu o presidente e toda a pauta conservadora foi restabelecida.

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Você conhece muito do país e sua matriz econômica. Mas, mais detalhadamente, como o Brasil entra, com sua burguesia sojeira poderosamente envolvida nos negócios e na vida política do país?

Inicialmente, os sojeiros entraram numa linha de se associarem, como grandes capitalistas, aos interesses nada humanos dos capitalistas paraguaios.

Para se ter noção do grau de vergonha e submissão: Horacio Cartes, presidente anterior, se reunira com empresários brasileiros para dizer: “usem e abusem, tratem o Paraguai como uma mulher fácil”. É um nível de mediocridade... Seria inconcebível para nós ouvir algo assim de qualquer governante. O cara até pode fazer do país um quintal, a exemplo do que faz Temer, mas jamais teria a “manha” de pegar um microfone e dizer isso.

Infelizmente, e não apenas para os brasileiros, existem muitas denúncias de superexploração e trabalho escravo. E se para o Brasil já é uma situação vergonhosa, calamitosa, imagina para os grandes empresários norte-americanos, transnacionais, sistema financeiro. É uma calamidade, a economia do país entra em colapso porque os sucessivos governos agem em função dos interesses externos.

Falo de algo visto e comprovado. Como brasileiros, só podemos nos solidarizar e mostrar que como povo não temos o mínimo de identidade com os nossos grandes capitalistas.

O que você comenta sobre o Exército do Povo Paraguaio (EPP), do qual sempre tivemos poucas e enviesadas notícias, e esteve conectado ao caso no sentido de incriminar os camponeses e sustentar a destituição de Lugo?

Vejo muito mais como um instrumento de propaganda do próprio governo. Não tem qualquer tipo de base social. Conheço muitos movimentos paraguaios e vejo o EPP muito mais como um biombo para justificar o aumento da militarização da segurança e criminalização de movimentos sociais. Não vejo tal movimento dispor de grandes pautas.

No livro, falo um pouco de alguns soldados que foram mortos. E sobre aqueles supostamente assassinados pelo EPP, que seria uma guerrilha e não um grupo a serviço do narcotráfico, veio à tona que o exército havia comprado um programa espião norte-americano que consegue acionar celulares desligados e fazer todo tipo de intervenção na vida das pessoas, em clara violação de direitos.

Assim, as mortes também ajudaram a demonstrar que generais, grupelhos de coronéis e figuras de alto escalão recebiam um adicional salarial por estarem “sob riscos” ao ficarem em tal área, quando na verdade não estavam. Os soldados é que ficavam, inclusive bem distantes das famílias.

Não vejo base social expressiva no EPP. O que existe no Paraguai é um movimento camponês bem forte. Inclusive, capitalizou boa parte da chamada ao voto nulo nesta eleição, que registrou 38% de nulos e 5% de abstenções. Mesmo com a fraude, os colorados ganharam com margem de apenas 3%. Há um grande desgaste da política.

Falando nisso, como foram as eleições, com vitória de Mario Abdo Martinez sob fortes suspeitas de fraude?
 
Trata-se da vitória de um grande empresário que dará prosseguimento à ideologia de Cartes, Federico Franco, isto é, de abertura do país ao capital estrangeiro, sem perspectiva alguma de industrialização, de desenvolver a ciência, a tecnologia, a educação...

Ou seja, um país que renovou seu compromisso de ceder mão de obra para que os empresários cheguem para “usar e abusar”. Inclusive dispondo de seu parco capital e abrindo mão de impostos. Os caras chegam, veem que não existe seguridade social, não tem aposentadoria...

A língua do “investidor”...

Está mais pra especulador que qualquer coisa. Não precisa pagar imposto. Tal figura recebe energia grátis, porque Itaipu abastece muito, água e mão de obra baratas e incentivo do governo para “usar e abusar” do país “como uma mulher fácil”... Imagina como isso se reflete no dia a dia.

E a Frente Guasú, coalizão de movimentos populares que elegera Lugo, se aliou ao Partido Liberal, a outra vertente conservadora local.

Acredito que a aliança da Frente Guasú com os neoliberais desmotivou o campo popular. Embora houvesse setores do PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico), que até teve um jovem assassinado na ocupação do Congresso de março de 2017 (episódio no qual seus partidários atearam fogo no Congresso e depois foram até covardemente retaliados, com o incêndio de sua sede), em geral não têm uma postura de recuperar o Estado, a soberania... É tudo meia boca, com pouquíssima autoridade para dialogar com a população.

Acho que vai se intensificar a luta social, pois para além da exportação bancada pelo agronegócio, baseada em carne e soja, agora aparecem as maquiladoras.

No Paraguai, a informalidade atinge mais da metade dos trabalhadores. O governo fala em 60% de informalidade e os sindicatos 80%. No mundo “formal”, tem-se 12 dias de férias até o quinto ano de trabalho. Depois há uma progressão. Tentem imaginar... Quarenta e oito horas de jornada de trabalho semanal, um salário minúsculo... Não temos a dimensão da exploração e da relação de trabalho que vigora no país. É um pouquinho do pós-feudal, do começo do capitalismo, bem rastaquera.

Isso faz o país, como todo, mas particularmente o movimento sindical – há 5% de sindicalização –, fraco pra enfrentar esse Estado, que por sua vez joga na cooptação de lideranças, na precarização das relações... Não há grandes perspectivas. Por isso batemos na tecla da solidariedade internacional e vemos especial importância no caso Curuguaty. Neste sentido, já andamos por Peru, Uruguai, Argentina, onde há muitos paraguaios, que são em Buenos Aires aquilo que os nordestinos eram em São Paulo nos anos 70 e 80...

Ou seja, além da falta de perspectiva de um desenvolvimento saudável, não se vê oposição forte a tal projeto de país.

Uma vez me reuni com sindicalistas em uma empresa. Planejaram organizar o sindicato que precisava de determinado número de assinaturas. Vinte sindicalistas se reuniram no domingo. Na segunda, 19 estavam demitidos, exceto o alcagueta da reunião. Por incrível que pareça, ainda há tal tipo de expediente, altamente desleal.

E vamos lembrar que a ditadura de Stroessner durou 35 anos. Um tempo longo, no qual mais de 500 pessoas foram mortas e desaparecidas e mais de 20.000 exiladas e torturadas – numa população que só hoje atinge os 7 milhões. No Brasil, considerando 203 milhões, é como se 900.000 pessoas tivessem passado por isso. Ou seja, todo mundo no país tem um parente que foi morto, torturado ou exilado. A cultura da repressão ainda está muito presente.

Se falarmos demais, vamos lembrar dos vínculos que Stroessner tinha com Franco....

Que morreu em exílio no Distrito Federal brasileiro, aliás.

A cultura do terror ainda está muito presente. As armas e esquemas de tortura usados pelos EUA no Iraque foram usados no Paraguai já em 1956, quando se afogava as pessoas em piscinas de excrementos e urina. Tem até um museu em Assunção, com instrumentos e relíquias da tortura.

A América Latina viu a ascensão de diversos presidentes ligados ao campo popular e articulações históricas de movimentos sociais. Agora, parece haver uma reversão, na Argentina com Macri e seu discurso de abertura econômica, um Brasil que tenta claramente colocar alguém de tal perfil na presidência, no Chile com Piñera...  Como observador internacional do caso Curuguaty, e até do país, o que mais você comenta em cima do contexto socioeconômico? O Paraguai pode ser uma espécie de “bola da vez”?

Temos as eleições da Colômbia e no México, onde a projeção de figuras como Gustavo Petro e López Obrador mostra que a situação não é tão favorável ao neoliberalismo. No caso do Brasil perdemos uma chance ímpar, por meio do boom das commodities, de nos industrializarmos mais. Mesmo com Lula e uma maior preocupação social, o pagamento de 500 bilhões de reais anuais de juros foi mantido, uma sangria desmedida. Figuras como Henrique Meirelles ou Joaquim Levy dirigiam a economia...

Houve uma continuidade, não houve um aproveitamento, no meu entender, do ponto de vista de canalizar os recursos, tal como a Bolívia fez de modo mais contundente, a partir da nacionalização de seus hidrocarbonetos. Antes, o Estado boliviano tinha 5 bilhões de dólares pra injetar na economia. Hoje tem mais de 30 bilhões.  

Estive na Bolívia e vejo que lá se pensa em formar indústria pra agregar valor, para trabalhar com os metais nobres. Isso faz uma diferença fundamental. Em vez de se garantir pequenas melhorias, uma saída da fome e da miséria por determinado tempo, não se deixou de enfrentar o problema central, isto é, geração de emprego e renda.

Neste 1º de maio, Evo Morales até falou na possibilidade de um 14º salário (em espanhol se chama o 13º de aguinaldo), o que se dará caso o país cresça acima de 4,5%. Ou seja, o governo não trava a discussão política e ideológica em nome de pequenas melhorias. O Estado boliviano tenta mostrar que o projeto de país diz respeito a todos, que está entrando com sua parte e investindo em setores estratégicos, em empresas fundamentais e, feito isso, pede a colaboração do povo. A perspectiva é diminuir o desemprego de 8 para 4%.

No outro lado, para comparar com países de economias semelhantes, temos a Guatemala, que se abre como o Paraguai para as maquiladoras, retira direitos, precariza o trabalho, promove assassinato e perseguição de dirigentes trabalhistas... Neste sentido, não sei se o Paraguai é uma espécie de bola da vez. Não vejo perspectiva de reais investimentos internacionais. São grandes especuladores, que como canibais tentam, dentro do sentido mais animalesco do capitalismo, extrair o máximo de riqueza com o mínimo de investimentos, observando onde se encontra a estrutura mais frágil possível.

Os Estados neoliberais abrem concorrência gritando ‘quem dá menos?’ – Macri oferece base militar, outros abrem mão de impostos para maquiladoras –, pensando que assim se cria perspectiva de crescimento. Pode ser um sopro, mas a grande ausência das pessoas do processo eleitoral, com pouca diferença para uma oposição medíocre, mostra que não está fácil.

Todo dia somos bombardeados de desinformação e sentimentos que visam nos deixar prostrados. Mas a popularidade do Macri despencou. A de Temer nunca existiu. A verdade se impõe e não há marketing que consiga sustentar.

Matias Pinto e Bruno de Oliveira são jornalistas. A entrevista foi gravada no programa Conexão Sudaca, podcast veiculado pela webrádio Central 3, e editada por Gabriel Brito, jornalista do Correio da Cidadania.

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