Ciência e mídia: como se juntam para defender seus interesses

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O estudo de caso aqui apresentado trata do Editorial do jornal Folha de S. Paulo, de 17/2/15, intitulado "Ciência Brilhante". Um jornal que pretende ser "brilhante" deveria também ser transparente nos editoriais que produz. Aqui, queremos trazer à luz o que este editorial oculta.

 

A Folha sempre apoia as soluções neoliberais para a sociedade/economia brasileira, como o fez com os "ajustes" do governo Dilma Rousseff. Agora, este jornal se manifesta contra os cortes no projeto Sirius, de R$1,3 bilhão de reais, para construir um anel de 235 metros de diâmetro cuja função é acelerar elétrons a velocidades inimaginavelmente altas. Sirius irá substituir o acelerador UVX, operado desde 1997 pelo LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), divisão do CNPEN (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), também responsável pela nova máquina.

 

Claro que para justificar o gasto de "R$ 1,3 bilhão e bancado na maior parte por dinheiro federal", usa como argumento que "produzirá um tipo especial de radiação, a chamada luz síncrotron, que possui utilidade em várias áreas de pesquisa, como física, química, biologia, geologia, nanotecnologia, engenharia de materiais e paleontologia”.

 

Veja como são as coisas. Até a paleontologia é buscada para justificar um projeto desta ordem de recursos. Como todos sabemos, a paleontologia brasileira sempre foi prestigiada pelas decisões de Ciência e Tecnologia.

 

Sem que tenha havido qualquer consulta aos cidadãos brasileiros e/ou aos contribuintes, um grupo social, qual seja, cientistas ligados à organização social - as chamadas OS - que administra o CNPEN/LNLS e alguns que trabalham nestas instituições se articularam politicamente para realizar este projeto Sirius.

 

Agora, se articulam politicamente com os proprietários da Folha de S. Paulo, ao que parece através do Prof. Emérito da Unicamp, Rogerio Cezar Cerqueira Leite, membro do conselho Editorial da Folha de São Paulo, cidadão que mais escreve sobre Ciência e Tecnologia na página 3 do diário (seção Tendências & Debates).

 

Rogério Cezar apenas requentou um comunicado à imprensa publicado pela Agência Fapesp, em 28/01/13, e que pode ser acessado em: http://agencia.fapesp.br/brasil_iniciara_obras_do_acelerador_de_eletrons_de_terceira_geracao_este_ano/16751/).

 

 

Vejam como a ciência e a mídia se juntam para defender seus interesses. A força política deste cidadão (Rogerio Cezar Cerqueira Leite) e da Folha de S. Paulo é tanta que os proprietários assinam embaixo este mero press release atualizado e requentado, de forma a dar todo o peso político deste jornal para que não haja cortes no projeto Sirius, mesmo em tempos de "ajustes" do governo Dilma Rousseff. A escolha foi usar o espaço do Editorial e não a página 3, à qual o Dr. Rogerio Cezar tem pleno acesso a qualquer momento.

 

Os Frias e seu jornal também são manipulados e/ou coniventes com este grupo de cientistas (à frente, seu representante no conselho da Folha), para quem a sociedade brasileira deve colocar recursos públicos neste projeto, mesmo sem qualquer consulta sobre quem vai pagar a conta deste projeto. Isto porque o "mainstream" científico e político, do qual a Folha faz parte, entende que as decisões sobre ciência devem ser tomadas por quem entende de ciência, ou seja, esses cientistas e seus "aliados políticos", que, em seu entendimento, mesmo em tempos de "ajustes", têm de ficar de fora dos cortes orçamentários generalizados.

 

Lembremos que "a guerra é muito importante para ficar apenas sob decisões de generais", assim como a "ciência é muito importante para ficar apenas sob as decisões dos cientistas".

 

Se a Folha de S. Paulo quer se tornar um "jornal brilhante", deveria refazer seu editorial e explicitar aos seus leitores a teia de relações do "andar de cima", que manda a conta para o "andar de baixo" e ainda exige que este projeto Sirius fique fora do "ajuste" – muito desejado pelo jornal para o "andar de baixo".

 

Este é um exemplo de como a ciência e a mídia se juntam para defender seus interesses, deixando as contas disto para o "andar de baixo".

 

Ser livre é ser bem informado e a divulgação ampla e correta das atividades relativas à ciência brasileira contribui para o aprofundamento da democracia e da cidadania no Brasil. Cabe à Folha decidir se quer colaborar neste processo, incrementando o nível científico dos cidadãos brasileiros. Para tanto, um jornal que quer ser "brilhante" deveria ser transparente nos editoriais que produz.

 

Paulo Martins é sociólogo, doutor em Ciências Sociais e pesquisador em nanotecnologia, sociedade e meio ambiente.

Comentários   

0 #1 RE: Ciência e mídia: como se juntam para defender seus interessespaulo patalano 27-02-2015 17:02
Uai, cadê aquilo que o editorial do jornal "do mal" esconde da patuléia, onde está o oculto, a revelação bombástica prometida? A de que pesquisa básica no Brasil não se faz sem dinheiro público? Onde a novidade? Tudo o que o texto passa ao leitor é uma forte sensação de que o articulista prometeu o parto de uma montanha no título, mas pariu no texto, na verdade, um camundonguinho bem miudinho, eh, eh...
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