Jornalismo “pós-capitalista” para tempos de crise

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Organizado pelo site Outras Palavras no Ateliê do Gervásio, o curso “O jornalismo na era da internet” foi um encontro de ideias no qual se trabalhou o conceito de “jornalismo na era do pós-capitalismo”, um termo ainda pouco difundido e que suscita reflexões entre os interessados em encontrar novas formas de comunicar.

 

Nesse sentido, foi destacado o pensamento de Immanuel Wallerstein, isto é, a concepção de que há uma crise profunda do capitalismo, mas não sob a ótica meramente marxista. Seria uma crise de sentido histórico, geopolítico, do “sistema-mundo”, pra usar o termo cunhado pelo sociólogo.

 

Suas previsões, compartilhadas por um significativo número de pensadores, dão conta de uma crise que ainda deve durar de 20 a 40 anos e parir um novo mundo por volta da metade do século.

 

Diante disso, discutiu-se a noção de relações “pós-capitalistas”, que significariam a difusão de novos valores de relações sociais e da vida frente ao trabalho.

 

Do ponto de vista do jornalismo, significaria trabalhar em termos referentes à qualidade de vida e valorização do ser humano, além de suas possibilidades de contribuição social e comunitária.

 

Seriam exemplos de temas a serem perseguidos nesse âmbito a educação (inclusive novas maneiras de se educar e escolarizar), a cultura, a economia, o meio ambiente, o trabalho, o feminismo, ao lado de questões referentes a direitos específicos, a exemplo de LGBTs, negros, indígenas etc.

 

Antônio Martins, organizador do curso e editor do Outras Palavras, lembrou que atualmente os grandes debates não têm mais sido feitos pelos partidos políticos e, sim, a partir de organizações da sociedade civil que trabalham em cima de pautas segmentadas.

 

O papel do jornalista

 

No meio desse mundo em crise, poderemos chegar a um estágio de “caos informativo”, pois a intermediação entre produtor e receptor da notícia é cada vez menor, e cada vez mais “dispensa” o papel do jornalista, o que também pode significar um fluxo descontrolado e desqualificado da informação.

 

Como conversado no Ateliê, as TVs e jornais têm cada vez menos audiência, as pessoas se comunicam e informam cada vez mais pelo whatsapp ou o algoritmo do facebook (que presume o conteúdo preferido do usuário, de forma bastante torta) e sob os olhares da NSA.

 

Indo nessa direção, outra ideia que pareceu mexer com os participantes foi a necessidade de se buscarem novas narrativas jornalísticas, o que pra muita gente faz parte da atual crise dos jornais e revistas tradicionais.

 

O agravamento ou confirmação desse quadro é bem possível enquanto não conseguirmos criar mecanismos de “jornalismo cidadão”. Isto é, o jornalismo que narra fatos sociais complexos com linguagem acessível e popular.

 

O curso contou com a participação de um pessoal em maioria jovem, mas não somente. Também foi notória a presença de um bom número de pessoas que estão mais fora do que dentro do jornalismo, mas gostam do ofício e manifestam vontade de se aprofundar, entrar na cena e ajudar na construção de novos veículos de comunicação.

 

Em meio ao debate, ficou muito evidente o sentimento de ser necessário criar novas fórmulas de sustentação de projetos de mídia, através de crowdfunding ou outros métodos de financiamento. Em meio a isso, Martins contou um pouco da campanha de assinaturas recém-inaugurada pelo Outras Palavras. Claro está que ninguém tem um modelo pronto na cabeça, mas há uma certa angústia, por assim dizer, a esse respeito.

 

Além de debater inquietações que permeiam o jornalismo no século 21, o editor dividiu com o público um pouco da rotina do Outras Palavras, e explicou o que o levou a decidir não entrar em temas mais espinhosos da política nacional, a exemplo de questões de Congresso, personagens como Eduardo Cunha, entre outros casos: não há fôlego pra qualificar a discussão e análise.

 

Nesse sentido, foi apontado como os meios “alternativos” podiam dialogar melhor entre si, pra se pautarem em temas importantes sem gastarem as mesmas energias, abrindo espaço uns aos outros para a divulgação de determinado trabalho de reportagem. E o mesmo vale pra outros debates, mais amplos, como a democratização da mídia, a exemplo de como se deu na Argentina e sua nova legislação.

 

No entanto, tal empenho também é dificultado pelos esforços gastos nos cuidados de cada um desses veículos, no dia a dia, sempre dependentes de pequenas equipes. De toda forma, uma rodada mensal de conversa e até a criação de uma “associação de classe” para tais meios foram ideias colocadas.

 

Por fim, Antônio Martins deixou claro que pretende criar cursos mais extensivos, ainda este ano. Realmente se faz necessário, pois é impossível discutir e refletir razoavelmente sobre todas as questões postas na mesa e sair com novas ideias em apenas um dia de encontro.

 

O Ateliê

 

O espaço do evento é um caso à parte. Um casarão no Bixiga compartilhado por diversas pequenas redações e coletivos. Há uns 10 grupos. Além do Outras Palavras, a Fórum, a Ponte e os Jornalistas Livres estão ali sediados, entre outros grupos artísticos e culturais.

 

O ponto mais chamativo é que o espaço tem vocação para muita coisa além de trabalho cotidiano e de Redação, com ambientes que permitem a promoção de seminários, debates, exposição, exibições artísticas, lançamentos, reuniões diversas etc., com ambiente agradável e convidativo.

 

Isso, obviamente, evidencia outra solução para os tempos que vivemos: Redações e espaços compartilhados, alugados por um punhado de grupos e aliviando o preço de um aluguel, em comparação com um espaço exclusivo. E com a vantagem de se conviver com muito mais diversidade e troca.

 

Segunda-feira

 

Por feliz coincidência, dois dias após o curso o Ateliê Gervásio recebeu o lançamento do livro-reportagem sobre o episódio que ficou conhecido como Massacre de Corumbiara, escrito por João Peres, ex-chefe de Redação da Rede Brasil Atual.

 

Foi grande a afluência de trabalhadores da mídia “alternativa”, até maior que no sábado e, de novo, deu pra notar a ânsia em criar coisas novas fórmulas, métodos e financiamentos, realmente independentes e com respaldo do público.

 

Enfim, há muito por se elaborar e realizar, mas é animadora a constatação de que há uma geração inteira de jovens e inquietos jornalistas em sintonia.

 

No meio disso, as grandes redações estão minguando e o público vem ficando mais exigente a respeito da qualidade e veracidade das informações. Há todo um campo aberto, mesmo em tempos de crise.

 

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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