Depois da greve geral, uma terça-feira para cair na real

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Passada a abstração coletiva da esquerda brasileira, e sua greve geral de um único dia às vésperas de um feriado, a terça-feira, 2, obriga todos a voltarem à realidade. Se nos discursos e pressões políticas de corredores exige-se uma “unidade” entre setores que se descolaram há muitos anos, na vida real cada um corre para seu lado e defende seus interesses.

Enquanto a esquerda lulista, se é que o lulismo merece ser colocado neste espectro ideológico, brinda a soltura de José Dirceu, em habeas corpus concedido pelo STF e o visceral anticomunista Gilmar Mendes, aquela que se convencionou chamar “esquerda autônoma” continua pagando o preço do cerceamento político cotidiano.

“Ontem entramos na cela da DP de Jacuí (extremo leste de São Paulo), eu, Guilherme Boulos, parlamentares etc. Eles ainda não tiveram oportunidade de defesa. Só policial deu testemunho. E ainda fizeram muita pressão para a delegacia manter só a versão deles”, disse ao Correio o Padre Paulo Sergio Bezerra, pároco da igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, onde três militantes do MTST foram presos nos atos grevistas de sexta-feira, 28.

Se o histórico líder estudantil dos anos 60 merece ser classificado como um dos principais sabotadores da redemocratização do Brasil após a ditadura militar, é tema para outra conversa. Mas que a vida da esquerda que conheceu de perto as benesses de se associar aos grandes capitais é um pouco mais fácil, não restam dúvidas.

Nos mesmos dias em que o consultor do megacapitalista Carlos Slim era solto, sob especulações de que tal gesto prenuncia um acordão entre todos os acossados pela Operação Lava Jato, pouco antes do temido depoimento de Antônio Palocci, militantes da causa palestina eram presos após confrontarem a manifestação do movimento neofascista Direita SP. O obscuro agrupamento “denunciava” a Nova Lei de Migração, em trâmite no Congresso, entre a Avenida Paulista e a Consolação na noite do dia 2, e mostrava apoio ao deputado Jair Bolsonaro.

“Foi o trabalho de delegacia mais pesado que fiz e olha que já fui em muitos casos semelhantes. A pressão deles era grande. Teve confronto, todos bateram e apanharam, o careca de direita que tinha a perna machucada parecia mesmo ter sido vitima de explosivo (mas não está claro de onde teria vindo). Já o delegado não franqueou acesso à sala e bateu a porta na nossa frente várias vezes”, declarou Giovanna Migliori, advogada que acompanhou os membros do Movimento Palestina Para Tod@s (Mopat) presos na noite desta terça.

Não estamos aqui para analisar a tecnicalidade da soltura de Dirceu, que aguardava há dois anos em prisão cautelar e de fato poderia responder por tal crime em liberdade. Afinal, o ex-chefe da Casa Civil continua condenado por outros crimes. Ademais, conta com assessoria jurídica e política que lhe permitem desfrutar de processos muito menos abusivos, por mais que seu séquito brade em defesa de um suposto estado de direito em vigor no Brasil.

Tampouco nos debruçaremos no fato de outros 220 mil presos estarem privados de liberdade mesmo sem condenação firme. Isso porque para pessoas como Hasan, Juracy, Luciano e Ricardo bastam um gesto, uma manifestação, uma presença em lugar ‘indesejado’ para que a mão pesada do Estado brasileiro se faça sentir.

“Os manifestantes que estavam na Radial Leste fechavam os dois sentidos, por volta das 18:15, na altura de Itaquera, já cercado de polícia por todo lado. Um dos motoristas que vinha no sentido centro queria passar pela barreira humana, com suas faixas e adereços, e estava totalmente exaltado. A polícia veio e ao invés de mediar a situação, como imaginamos, soltou bombas. Houve uma dispersão e ali por perto a detenção de Luciano, Ricardo e Juracy. Foram detidos acusados de soltar foguetes e promover incêndio”, contou Padre Paulo.

Como se veria nos dois casos, intervenção das autoridades de Estado foi claramente no sentido de criminalizar o grupo identificado à esquerda politicamente. No caso dos Sem Teto, já teve grande repercussão a relação da juíza Marcela Filus, que decretou suas prisões, e os movimentos de impeachment, em especial o Vem Pra Rua.

“Depois de detido, o guarda viu a chave do carro de Juracy e queria saber se tinha artefatos dentro. Foi ali que eles vieram pra garagem do local onde moro, revistando e confiscando imagens de celular de quem filmava, sem permissão alguma. Não acharam nada no carro, mas levaram pra DP de Arthur Alvim, sob acusação de flagrante. Não comprovaram nada e mesmo assim eles se mantêm presos. Todas as bombas vieram da polícia, todas. Eram de efeito moral, que só eles têm. É esse o fato, não tem mais o que falar. A prisão dos três se deve a um fato inexistente. É uma prisão política”, criticou Padre Paulo.

“No depoimento os militantes de direita apontaram dois sujeitos a esmo que protestavam no lado de fora, que logo foram detidos. Assim, foram quatro detidos na Paulista e dois na frente da DP. Dos quatro da Paulista, três estavam machucados, sendo dois com lesões consideráveis. Já os dois da DP caíram de gaiato. Depois, esses dois detidos na porta da delegacia conseguiram comprovar, através de recibos do Uber, que não estavam na Paulista na hora dos acontecimentos”, prosseguiu Giovanna.

Na conversa com o Correio, ela não tem dúvidas em reiterar a partidarização dos oficiais do Estado brasileiro em favor do movimento xenófobo, algo já registrado em 2013. “A detenção foi direcionada a um dos lados, sendo unânime que a confusão foi generalizada e as agressões mútuas. Os presos disseram que foram muito xingados pelos policiais, em tom xenofóbico e anticomunista. A postura dos policiais, como sempre, foi muito violenta na detenção. Roberto e Nur estão muito machucados, Roberto até tremia na oitiva pelas lesões. Eles alegam que só ouviram bombas vindas da polícia. O delegado e os policiais se juntaram aos manifestantes de direita nos xingamentos racistas”, contou.

E após manter os militantes sob custódia até a tarde desta quarta, 3, sem de fato oferecer nenhuma acusação de terrorismo, a justiça paulista determinou a soltura dos detidos. “O delegado foi muito condescendente (com os neofascistas), depois tentou baixar o tom. Foram muitos constrangimentos e arbitrariedades. E o engraçado era que ele tinha uma régua com o logotipo do PSDB à vista sobre sua mesa”, completou Giovanna.

Não para por aí

Mais além dessa efervescente terça-feira, houve outras manifestações que remetem a regimes e sociedades nazifascistas de forma muito mais grave que meia dúzia de lunáticos a vomitar anticomunismo de salão na maior cidade do país, como são os patetas do Direita SP. E outra vez reforça-se a alienação da velha esquerda em oferecer alguma solidariedade digna de nota.

Dias atrás, por conta do famigerado Dia do Índio do calendário oficial, causou revolta em setores pró-indígenas a aparição de Gleisi Hoffmann em trajes típicos, dado que a esposa de Paulo Bernardo mostrou-se mais que aliada da rainha do latifúndio Kátia Abreu, que por sua vez nunca economizou manifestações e práticas racistas em relação aos povos originários. Lula não fez por menos ao comandar reunião com lideranças indígenas, agora que precisa galvanizar todos os setores e boas causas possíveis para se credenciar como presidenciável.

Mais ao norte, causou a mesma ojeriza a manifestação do governador maranhense Flavio Dino (PC do B) a respeito do assassinato de três índios gamela em seu estado, obviamente por açambarcadores e seus prepostos. Os requintes de crueldade extrema do crime não ocupam as exortações petistas em favor da democracia. No mais, sequer vale a pena discutir as elaborações que alguns apoiadores do ex-governo fazem a respeito dos direitos indígenas, a encontrar ressonância nas entorpecidas redes sociais.

Já no centro do país, outro massacre latifundiário chocou os mais atentos, no caso, o assassinato de dez camponeses no município de Colniza, noroeste do Mato Grosso, divisa com Rondônia e Amazonas novamente com altos dotes de covardia e certeza de impunidade.

“São pessoas comuns, sem passagem policial, pais de família sem histórico de conduta violenta. E nada foi encontrado, afinal, nas averiguações. Mas e daí? Mesmo se tivessem queimado pneus na rua não se configuraria crime de incêndio, trata-se de expediente largamente utilizado pelo Brasil. Não há razão alguma para a prisão dos membros do MTST, senão a política”, lamentou o pároco, também membro do coletivo Povo de Deus em Movimento, que reúne cinco igrejas da zona leste paulistana.

Pra completar o breve e tenebroso apanhado, não podemos deixar de mencionar o bizarro caso de Rafael Braga, preso desde 2013 e condenado a 11 anos de prisão por um suspeito porte de drogas. Vale lembrar que o morador de rua negro se tornara um personagem público depois de já ter passado bom tempo em cana por conta da sua primeira prisão, em 2013, por portar pinho sol à margem de uma manifestação, à época das jornadas de junho, quando este e outros inquéritos policiais ficaram conhecidos pela má fé dos agentes do Estado brasileiro.

As campanhas pela sua libertação e contestação ao processo jurídico jamais contaram com qualquer solidariedade lulopetista, muito menos apoio material dessa milionária fileira da esquerda brasileira (esquece-se convenientemente que, só para ficar no exemplo de Belo Monte, o partido teria levado 150 milhões de reais, segundo uma das delações).



Dessa forma, não é sem motivo que alguns sindicalistas alertaram para o fato de que a greve geral é só um pequeno passo. Mais ainda: se dependesse das velhas direções, talvez nem tivesse acontecido, como declararam algumas lideranças de categorias mobilizadas no dia 28.

Enquanto isso, o Estado brasileiro e seus reformadores vinculados ao “livre mercado” continuam tentando de tudo pra renovar o ciclo de lucratividade de seus financiadores de campanha, como tão bem explicou Emilio Odebrecht, cujo depoimento já faz parte da antologia do capitalismo brasileiro.

É esse sistema que vai deixando claro que, como em 1964, a alternativa fascista sempre pode ser uma carta na manga. “É tudo bizarro e violento. Evidentemente, uma repressão direcionada a todo o movimento popular”, finalizou Padre Paulo.

(continua amanhã, com depoimentos dos presos, análise da atuação da mídia que tenta fazer o país engolir as “reformas” de Temer e um pouco do que já houve de terrorismo organizado na história do Brasil).

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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