O ano do macaco. Mas para quem?

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Os chineses introduziram a simbologia dos animais para identificar, a cada doze anos, os anos solares com a imagem de um bicho. Em 2016 foi o ano do macaco, 2017 será o ano do galo. Pior em 2019, quando o ano será representado pelo porco! Isto é, o ano das “porcalhadas” que o novo governo PMDB/PSDB/PRN irá fazer após as “macacadas” da turminha de Temer no Brasil, ou de Renzi na Itália e de Erdogan na Turquia. 

 

Estados Unidos: os partidos e as excelências de Wall Street

 

O elemento político que mais chamou a atenção em 2016 nos EUA foram as campanhas eleitorais dos únicos partidos representados no Congresso, isto é, o Republicano e o Democrata – e também o comportamento da mídia estadunidense. O New York Times, o Washington Post, o Los Angeles Times, o Wall Street Journal, a CNN, a CBS e os outros órgãos da imprensa estadunidense, com seus erros de avaliação e suas potenciais campanhas de manipulação da opinião pública demonstraram, claramente, que os partidos políticos e seus candidatos presidenciáveis são mesmo apêndices do poder, cujas decisões e representações institucionais dependem exclusivamente das excelências dos conglomerados que controlam Wall Street.  

 

Por isso, esta eleição adquiriu tonalidades e questionamentos que, na realidade, são a representação institucional de um conflito político que existe e se repete nos EUA desde os tempos dos Kennedy. Um conflito subterrâneo, que a maior parte dos eleitores ignora, enquanto mobiliza e divide os “investidores” de Wall Street. Assim, de um lado temos os conglomerados mais internacionalizados, que detêm uma visão moderna e global do poder imperial dos EUA. Para eles o candidato à Casa Branca não podia ser outro, senão Hillary Clinton.  

 

Do outro lado, temos aquela parte de Wall Street que quer um poder imperial mais decidido, incisivo e, sobretudo, mais valente nas aplicações das opções geoestratégicas. Enfim, um poder imperial autenticamente “AmeriKano” que, por exemplo, no caso da Líbia, nunca teria deixado a iniciativa do ataque militar à França e Inglaterra, enquanto no caso da Ucrânia nunca teria aceitado que o Congresso ficasse refém do lobby polonês e ucraniano, com sério risco de transformar um conflito de fronteira em uma guerra revanchista com a Rússia, alimentando, assim, a ruptura política e militar da União Europeia com Putin, no momento em que a Rússia entabula uma nova aliança com a China. Pois esse foi o principal erro de Obama, pretensiosamente sustentado por Hillary Clinton.     

 

Na realidade a atuação da grande mídia estadunidense em favor de Hillary não foi um erro de avaliação, mas uma posição circunstancial determinada por alguns setores de “investors” de Wall Street, pelos quais com a vitória de Clinton teria sido possível consolidar uma série de opções geoestratégicas e geoeconômicas nos EUA e no resto do mundo. Porém, contra a artificiosa racionalidade de Hillary, tivemos a folclórica campanha de Trump que, apesar de ter contribuído em fazer vender mais jornais, exprimia o anseio de importantes setores do mercado, além de revigorar nas camadas populares as esperanças por um “New Deal”. De fato, a mensagem política da candidatura de Donald Trump era dirigida ao mercado e a classe média estadunidense a quem prometia ser o instrumento institucional para acentuar os fundamentos do domínio geoestratégico e geopolíticos do imperialismo estadunidense no mundo inteiro. Algo que com Obama havia sido posto em discussão e por isso poucos acreditavam que Hillary fizesse algo diferente. 

 

É necessário recordar que se os articulistas da “grande mídia” estadunidense publicavam longas reportagens para lembrar que Trump era um ricaço arrogante, machista, mulherengo e também racista, os editoriais, durante toda a campanha eleitoral, diziam que os EUA precisavam de um presidente que, direta ou indiretamente, fosse o porta-voz de um estado imperial mais “AmeriKano”, a quem todos deveriam se submeter. Uma consideração que, depois da tristonha experiência de Barack Obama e depois das revelações sobre os erros cometidos por Hillary Clinton, quando estava à frente do Departamento de Estado, a retórica de Donald Trump inflamou os corações e as mentes da maioria. Por isso os próximos quatro ou oito anos de mandato de Donald Trump serão, certamente, os mais perigosos para a humanidade inteira.

 

Isto por que Trump tentará resolver os dois grandes problemas que afligem as excelências de Wall Street. O primeiro é o chamado “Planeta China” (ou planeta chinês), visto que a Republica Popular da China, depois de ter alcançado os EUA no volume de exportações, acumulado a maior reserva mundial de lingotes de ouro e apresentar um inatacável controle político e social, possui um sistema econômico que continua a crescer. Ao mesmo tempo, a China mantém uma formidável estrutura militar de tradição comunista, onde o poderio nuclear nunca foi reduzido ou desarmado. E foi em função disso tudo que a China, nos últimos anos, começou a disputar com os EUA e com a União Europeia importantes áreas de influência não só no continente asiático, mas também na África e na América Latina. 

 

O segundo problema é com a União Europeia, que para os as excelências de Wall Street, devia se tornar o “bastidor” seguro, influente e agressivo dos interesses políticos, econômicos e militares dos Estados Unidos. De fato, as dificuldades de assinar o tratado TTIP – Tratado Transatlântico de Parceria e Investimento – com a União Europeia foram a enésima demonstração da incapacidade do Parlamento Europeu de uniformizar, em termos estratégicos e econômicos, os vinte e sete países da União Europeia, com os quais promoveram a formação de um verdadeiro estado federativo. Além disso, o resultado referendário na Inglaterra (Brexit) e a continuidade das crises políticas e financeiras na Itália, na Grécia, na Espanha, na Irlanda e na própria França, demonstrou que a imposição da união monetária do euro – baseada na valorização do marco alemão e sustentada pelo eixo financeiro e militar franco-alemão, no lugar de unificar os países europeus favoreceu o descrédito do projeto europeísta e o retorno das reivindicações nacionalistas e xenófobas.

 

América Latina: desencanto no Brasil e na Argentina, incerteza na Colômbia e na Venezuela

 

A heroica luta dos povos e dos governos da ALBA bolivariana, nomeadamente Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e Cuba, ficou contraposta às derrotas que o movimento popular sofreu primeiro na Argentina e depois no Brasil, à causa das medíocres e em muitos momentos péssimas atuações dos governos liderados pelo PT no Brasil e a Frente da Vitória, na Argentina. 

 

Um contexto em que os arautos latinos das transnacionais não deixaram escapar para poder, finalmente, voltar a governar, depois de quase uma década de governos oficialmente “populares”, mas que na realidade foram uma mal sucedida tentativa de conciliação de classes, que no seu conjunto promoveu uma dita “paz social” para evitar a explosão de poderosos conflitos de classe. Uma forma de “concertation” capaz de garantir um “status quo” onde a prioridade foi preservar os interesses e os lucros das classes patronais nacionais e das transnacionais.  

 

Foi, portanto, neste âmbito que, a partir de 2012, os governos do PT e da FdV cometeram erros crassos, que viraram politicamente imperdoáveis em 2016, sobretudo para quem foi eleito pela maioria popular e com o objetivo de realizar profundas reformas estruturais. Por isso Daniel Scioli foi derrotado na Argentina com muita facilidade, enquanto no Brasil os peões da Casa Branca conseguiram inventar um processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Uma operação política e judiciária que foi realizada com a máxima facilidade graças aos quase catorze anos de anestesia política e ideológica das massas populares construídas por parte do lulismo. 

 

Uma situação que alimentou o efeito cascata na Colômbia e na Venezuela bolivariana. De fato, na Colômbia a assinatura dos acordos de paz entre o governo liderado por Juan Manuel Santos e as FARC-EP foi publicamente desautorizada pelo plebiscito que a direita e o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez conseguiram ganhar. Uma difícil e complicada situação de empate institucional que a Corte Constitucional deverá solucionar com uma sentença que, certamente, deverá legitimar os compromissos assumidos depois de quatro anos de longas negociações. Por isso a Suécia tentou aliviar a tensão que reina na Colômbia, conferindo ao presidente Santos o prêmio Nobel da Paz. Um prêmio que, na realidade, deveria ser dividido com Timochenko, da direção das FARC-EP, e com Raul Castro, visto que sem a perseverança e a sabedoria destes dois líderes as negociações nunca teriam iniciado e nunca teriam chegado ao fim com a assinatura de um acordo paz. 

 

Enquanto na Colômbia, em 2016, a temática principal é a procura de uma solução que garanta a paz, na Venezuela o povo e o governo bolivariano de Nicolás Maduro sabem que a guerra civil pode explodir a qualquer momento, visto que este país foi a principal vítima da decisão da Casa Branca de voltar a transformar a América Latina no “quintal” do poder imperial dos EUA. Por isso, é necessário lembrar que em 2016 tudo foi feito por parte da oposição e das centrais da desestabilização localizadas em Miami, Bogotá e Madrid, para provocar a queda do governo bolivariano e, assim, romper a relação de confiança com a sua base popular. 

 

2016 foi, portanto, o ano em que terrorismo dos chamados “guarimbas” explodiu na capital Caracas e nas cidades dos estados de Miranda e de Maracaibo, enquanto em todo o país as camadas populares sofriam com os efeitos do desaparecimento dos principais produtos alimentares. Pois, estes reapareciam nas prateleiras das lojas privadas após uma complicada operação de exportação clandestina até a fronteira colombiana, onde eram reimportados em dólares pelos mesmos produtores que as haviam exportado. Um mecanismo montado pelas ”antenas” da CIA e do DEA que mobilizou e enriqueceu vários clãs do narcotráfico e dos paramilitares colombianos.

 

Uma situação que virou dramática quando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar promoveram o rebaixamento de 60% dos preços do petróleo e do gás, para dificultar a parceira militar da Rússia e do Irã com o governo sírio de Bashar al Assad. Uma decisão que no interior dos EUA determinou o fechamento da maioria dos projetos de extração de petróleo com o método da ruptura das camadas rochosas, porém, não criticada pela Casa Branca, do momento em que a baixa dos preços do petróleo, em termos de geoestratégia política, permitia aos banqueiros de Wall Street e a própria Casa Branca realinharem-se ao poderio político do dólar sobre todos os produtores de petróleo e de gás. Por outro lado, na Casa Branca, a turma de Obama achou que com a baixa dos preços do petróleo o governo bolivariano não aguentaria mais as pressões da oposição e as consequências nefastas da guerra econômica em curso.

 

Foi por esse motivo e na tentativa de aliviar a tensão que o presidente Nicolás Maduro teve de assinar um compromisso com a oposição, introduzindo algumas “reformas” econômicas que reforçam ainda mais o poder econômico do capital privado e das multinacionais. Um contexto que Fidel Castro havia previsto e alertado ao próprio Hugo Chávez, caso a revolução bolivariana não assumisse algumas posições “radicais”, sobretudo no que diz respeito ao controle dos fluxos financeiros. A única justificação política para o governo bolivariano é ter impedido sua queda e conservado intacto o controle da máquina administrativa do Estado federal venezuelano. Uma lição que, entretanto, servirá aos dirigentes do PSUV e aos seus militantes para se prepararem convenientemente para a disputa das eleições de 2018.

 

Europa: a onda conservadora e o desalento da esquerda reformista

 

Deixando de lado os atentados terroristas do Estado Islâmico em Paris e Bruxelas, as homilias de Papa Francesco, o drama dos migrantes africanos e árabes que morrem na tentativa de atravessar o Mar Mediterrâneo e a guerra sem fim na Ucrânia, em quase todos os países europeus o elemento político novo é a chamada onda conservadora que está removendo o posicionamento dos diferentes setores sociais europeus e ainda não tem uma explicação científica.

 

Um fenômeno que nos 27 países da União Europeia se tornou ainda mais visível e em certo sentido mais popular na Inglaterra, na Áustria, na França, na Bélgica, na Dinamarca e na Itália. De fato, se esta onda conservadora não comporta a volta do autoritarismo fascista, ao mesmo tempo não aceita as imposições dos Estados Unidos, além de rejeitar em toda sua plenitude o conceito de Europa unida e o projeto geopolítico da União Europeia.

 

Na realidade, esta onda conservadora europeia é a filha bastarda de um nacionalismo que, no campo econômico, pretende radicalizar os conceitos do neoliberalismo, porém, em termos geopolíticos não aceita o fortalecimento do eixo franco-alemão. Enfim, trata-se de um estranho e confuso debate que rejeita a perspectiva da transformação das nações europeias em federação, alinhado com a geoestratégia imperialista dos EUA.

 

Em 2016, na Itália, na Espanha, na Bélgica, na Áustria, na Hungria, na Dinamarca, na Grécia e até na própria França a onda conservadora se manifestou, inclusive em termos de nova moral conservadora, que utiliza as temáticas de um nacionalismo insatisfeito por conta das complicações econômicas geradas pelo euro. Um nacionalismo que, porém, esconde todas as suas contradições quando assume uma postura agressiva e explicitamente racista contra todo tipo de imigrantes, em particular os africanos e os árabes de religião islâmica.

 

Um contexto que arrastou também os partidos da esquerda reformista, já comprometidos com a adaptação do receituário econômico liberal. De fato, foi nesse âmbito que os partidos da esquerda reformista perderam sua autonomia política para se tornar mecanismos de controle social do eixo geopolítico e geoestratégico franco-alemão. Aliás, foram os principais partidos desta esquerda reformista europeia – o PD italiano (descendente do Partido Comunista) e o PS francês (o Partido Socialista de Mitterrand) que, em 2016, adotaram medidas antipopulares (Jobs Act e Loi de Travail) que, no passado, nenhum governo de direita havia conseguido sequer debater nos respectivos Parlamentos.

 

Por isso tudo, na França, a pós-fascista Marine Le Pen é a principal candidata da direita, enquanto na Itália o ex-primeiro-ministro, Matteo Renzi, havia previsto transformar o PD em um superpartido, chamado “Partito della Nazione” (Partido da Nação). 

 

Uma operação com a qual Renzi previa (e já conseguiu) isolar a dita esquerda do PD, ainda fiel às temáticas da socialdemocracia, para depois juntar os restantes eleitores “progressistas” do PD e os moderados da centro-direita e da própria direita (mesmo se amarrados a Berlusconi), nesse novo partido que devia aparecer no cenário político italiano logo após a vitória do “sim” no pleito referendário de 4 de dezembro.

 

Felizmente, a maioria dos italianos disse claramente “não” a Matteo Renzi, que não conseguiu (ainda) realizar seu projeto partidário, inclusive porque cometeu o erro de emparelhar o lançamento do novo partido com o pleito. Por isso Renzi teve que se demitir, apesar de conservar ainda o cargo de secretário geral do Partido Democrático.

 

De fato, Matteo Renzi e a maioria da direção do PD foram severamente castigados pelos eleitores, não só no referendo sobre as modificações constitucionais formuladas pelo governo, mas, também com o 67% dos eleitores que disseram "não" à onda conservadora, na qual Renzi cavalgou para se legitimar no poder.

 

As conclusões políticas disso tudo são ruins para o movimento popular e, sobretudo, para os trabalhadores italianos, porque tal derrota de Renzi divide ainda mais o PD entre uma maioria “renziana”, que quer transformá-lo em um “partido de centro”, sem mais ligações ideológicas com o reformismo de esquerda, e uma esquerda reformista minoritária, ligada aos conceitos socialdemocratas do bem-estar social - e que na direção do PD tem uma presencia reduzida a 14%, além do carisma do velho Pierluigi Bersani.

 

Hoje, quase todos os partidos da dita “esquerda reformista europeia” estão vivendo o drama do PD italiano, renunciando ser porta-voz dos antigos valores ideológicos classistas para adotar o pragmatismo político, com o qual acabam por justificar a aceitação e o alinhamento ao neoliberalismo. Enfim, é digna de nota a perfeita previsão que o velho Norberto Bobbio fez no fim dos anos 80!

 

Rússia e China: novamente amigos e aliados

 

O acordos energético e financeiro que o governo russo subscreveu com seu homólogo chinês fecham definitivamente o capítulo hostil e medonho oportunamente construído durante a presidência de Yeltsin.

 

Hoje, a Rússia e a China, apesar da pífia participação de Michel Temer na última cúpula dos BRICS, juntamente a Brasil, Índia e África do Sul, representam uma alternativa válida e oposta ao processo de globalização. Uma opção que não combate a lógica do capitalismo, mas pretende corrigir a selvageria provocada, sobretudo nos países do terceiro mundo, pelos mercados através da aplicação das regras do neoliberalismo.  

 

Uma alternativa que o imperialismo estadunidense e seus aliados europeus tentam combater em todos os níveis, porque os BRICS dentro das linhas da economia capitalista oferecem uma nova visão da economia, mais humana e mais centrada no trabalho, não nos bancos.

 

Por outro lado, a Rússia e a China são duas potências nucleares que, sobretudo em 2016 começaram a fazer pesar seu “status”. Primeiro na solução da questão iraniana e depois no impasse que existia na Síria. De fato, foi em função desse “status” que a Rússia conseguiu impor sua presença estratégica no Mar Mediterrâneo e, assim, pôde ajudar militarmente o governo e o exército de Bashar al-Assad na luta contra o Estado Islâmico.

 

Foi em função dessa presença que o exército da Síria conseguiu reverter um cenário que Estados Unidos, Arábia Saudita, Catar e Turquia haviam preparado para operar a “vivissecção” da Síria e do Iraque. A reconquista da cidade de Aleppo e o volume de ajuda militar que a Rússia submeteu ao exército da Síria são, portanto, uma consequência direta da afirmação internacional do novo “status geoestratégico” que o governo russo e especialmente seu presidente, Vladimir Putin, readquiriram em 2016. 

 

 

 

Achille Lollo é jornalista italiano de “Contropiano”, editor do programa “Contrappunto Internazionale” de ADIATV, colabora com a revista “Nuestra América” e é colunista internacional do Correio da Cidadania.

 

Achille Lollo, de Roma, para o Correio da Cidadania

Jornalista italiano e editor do programa TV "Quadrante Informativo".

Achille Lollo

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