Solano Trindade, o poeta da resistência negra.

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Em 2008 comemora-se o Centenário do nascimento de Solano Trindade. Já em 2007, entre os dias 21 e 22 de julho, o Teatro Popular Solano Trindade - liderado pela incansável Raquel Trindade (filha de Solano) -, em parceria com a prefeitura municipal, organizou um festival em comemoração aos cem anos de seu natalício. Esta homenagem deverá ser acompanhada de outras, em 2008, organizadas, sobretudo, por artistas, intelectuais e ativistas do movimento negro. Estamos todos instados a refletir sobre a importância deste artista que lutou a vida toda ao lado do povo e dos negros.

 

Quando refletimos sobre a poética-estética de Solano Trindade (1908-1974), observamos, de forma recorrente, os mesmos motivos que inspiraram o líder abolicionista e escritor Luis Gama (1830-1882): a afirmação de uma identidade rebelde do negro associada com a valorização estética e cultural dos valores afro-brasileiros.

Esta consciência negro-rebelde que tem em Luis Gama um precursor e em Solano Trindade um dos principais prosseguidores é, por outro lado, a mesma que embalou os sonhos de transformação do poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003) e do angolano Antônio Jacinto (1924-1991), para ficarmos restritos a África lusófona. Em termos históricos, estas manifestações artísticas e poéticas marcam dois períodos distintos da relação conflituosa de integração dos negros à sociedade Ocidental: o primeiro, aqui representado por Luís Gama, em que os negros se "erguem da escravidão" (meados do século XIX, auge das lutas abolicionistas, a 1888, com a abolição oficial); o segundo, no qual se inscrevem Solano, Craveirinha e Antônio Jacinto, inicia-se mais vigorosamente no pós-Segunda Guerra Mundial com o processo de descolonização do continente africano.

 

O ator, poeta e pintor Solano Trindade nasceu em Recife, em 1908. Era filho do sapateiro Manuel Abílio e da quituteira Merença (Emerenciana). Estudou no Liceu de Artes e Ofícios e nos anos 30 começou a escrever seus primeiros poemas. Em 1934 participa do 1º e 2º Congressos Afro-Brasileiros, em Recife e Salvador. Em 1936, funda a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileiro. Em 1940 transfere-se para Belo Horizonte/MG, Pelotas (RS) (onde organiza um grupo de cultura popular), e em 1941, após breve passagem por Recife, dirige-se à capital federal: o Rio de Janeiro. No Rio, o seu ponto de encontro com poetas, intelectuais, jornalistas e artistas é o Café Vermelhinho. Ingressa no Partido Comunista Brasileiro (PCB). No início dos anos 50, Solano, Margarida Trindade (sua esposa) e o sociólogo Edson Carneiro fundam o Teatro Popular Brasileiro (TPB). A proposta do TPB distinguia-se da do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado e liderado por Abdias do Nascimento. O primeiro tinha como foco a "cultura popular" e as suas manifestações artísticas e o segundo abriu espaço para a montagem de peças de autores estrangeiros, como O Imperador Jones, de Eugene O'Neill.

 

O trabalho do TPB foi apreciado por grupos estrangeiros a exemplo da Ópera de Pequim, a Cia. Italiana de Comédia, a Comédie Française, e por personalidades como Edith Piaf. Em 1956, Solano Trindade encenou a peça "Orfeu", de Vinícuis de Morais (que depois se transformou em filme por intermédio de Marcel Cammus). O ator Solano Trindade atuou nos filmes "Agulha no Palheiro", "Mistérios da Ilha de Vênus" e "Santo Milagroso". Também foi co-produtor do filme "Magia Verde" (este premiado em Cannes). O TPB realizou também uma turnê pela Europa e se apresentou na Polônia e Tchecoslováquia. Certa vez, o TPB veio se apresentar em São Paulo e Assis, um escultor do Embu, foi assistir ao espetáculo. Assis e Solano ficaram amigos e este o convidou para visitar a cidade de Embu, na região metropolitana de São Paulo, local que já abrigava artistas como Sakai e Asteca. Ao conhecer Embu, Solano se encantou com o clima da cidade e adotou-a como sua residência. Nela organizou festas, exposições e criou junto com Assis a feira de artesanato do Embu (semelhante à feira hippie da Praça da República, em São Paulo). Durante este período, em 1964, seu filho Francisco, preso pela ditadura militar, morre na prisão. Em 20 de fevereiro de 1974, na cidade do Rio de Janeiro, falece Solano Trindade, no Rio de Janeiro.

Entre os principais livros publicados por Solano estão Poemas de uma vida simples (1944), Seis tempos de poesia (1958) e Cantares do meu povo (1963). Em Poemas de uma vida simples está o seu poema mais conhecido, "Tem gente com fome", que foi gravado, em 1979, pelo grupo Secos e Molhados e interpretado pelo cantor Ney Matogrosso. "Tem Gente com Fome" lhe custou uma prisão e a apreensão dos exemplares do livro.

 

Neste sentido, a poética e o intenso labor artístico de Solano Trindade estão muito além do que se convencionou classificar, de forma pejorativa na maioria das vezes, de uma estética-poética "negra" ou "folclórica". O seu método era sintetizado na frase: "Pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte". Ou seja, o papel do artista é o de defrontar o povo com aquilo que ele mesmo produz para que ele (o povo) se veja como sujeito criador de cultura e sentido para o mundo. Desta maneira, o artista cumpre o seu papel criativo de intérprete/desconstrutor da realidade e, ao mesmo tempo, se liga historicamente às aspirações e dilemas dos homens e mulheres do povo.

 

Para Solano, a cultura negra traduz valores universais que, sem diluir-se no amálgama cultural brasileiro, refaz-se historicamente em forma de consciência crítica e transformadora da realidade social. Em resumo: escutar o povo e traduzir a sua consciência em forma de poesia. Neste trecho do poema "Conversa" (Cantares a Meu Povo, 1963) o poeta coloca-se como um crítico à realidade dos negros sem, com isso, se arrogar o papel de "observador neutro" ou de "eleito" que fala assepticamente para "os de baixo", pois conhece a "verdade". Ao contrário, Solano, ao identificar-se com os dramas do negro, o faz como um negro, como parte, e é desta posição que lança o seu olhar crítico, em forma de poesia, às condições degradantes de trabalho e de vida do povo. Por isso, o poema é estruturado na forma de um diálogo e é através deste instrumento que se desmistifica a realidade presente:

 

Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê...
 
- Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
- Plantei os canaviais do nordeste
 
- E tu, mano, o que fizeste?
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau
...

 

Em meu ponto de vista, este é um dos maiores méritos da "negritude popular" de Solano Trindade, como fazia referência o historiador Clóvis Moura (1925-2003): fazer esta síntese entre a consciência negro-popular – que é, em linhas gerais, o seu saber ser, provar e conhecer o mundo — e as aspirações de transformação e mudança social que sacudiam a alma do artista e poeta. Este fato torna a poesia de Solano mais leve, repleta de cores, sons, aromas e ritmos, sem abrir mão do comprometimento político de subverter a realidade.

 

Comparativamente, a poesia negra do final dos anos 70 e da década de 80 – a exemplo da poesia de Paulo Colina (1950-1999) e dos primeiros trabalhos de Cuti – é uma poética menos angustiada: a conflitividade não se concentra no "eu" negro que se descobre em um mundo que o sufoca e nega e, por isso mesmo, o faz se afirmar, mas em um "nós" negro que se encontra travestido sob diversas personas (o mulato, o trabalhador, o sambista) e manifestações culturais (afoxé, samba, maracatu, etc.).

 

Obviamente, a constelação histórica da "negritude popular" de Solano não é a mesma da encontrada por Colina e Cuti. Sem querer me alongar neste ponto, vale dizer que a percepção da cultura negra e a sua dimensão atlântica, durante os anos 70, emergem com um vigor desconhecido anteriormente. O importante aqui, no entanto, é avaliar as possibilidades de novos pólos de cultura contra-hegemônica, histórica e territorialmente referenciados, que se oponham ao pastiche da World Music, homogeneizadora de estilos e ditadora de padrões de consumo e comportamento.

 

Solano, neste sentido, nos indica caminhos extremamente importantes para o tipo de guerrilha cultural travada, atualmente, por aqueles que militam no front da cultura negra, indígena e popular.

 

Fabio Nogueira é membro da Comissão Nacional do Círculo Palmarino, Setorial de Negras e Negros do PSOL, e do Diretório Nacional do PSOL.

 

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Comentários   

0 #14 mudinhonone 23-11-2009 19:22
Já disseram tantas coisas q nem tenho mais nada para comentar!legal!............... .............................. .......Sem comentários:D
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0 #13 Cynthia Alonso 11-11-2008 13:08
Concordo plenamente com Roger Bastides quando ele diz a Solano: "O senhor faz dos seus versos uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor."
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0 #12 Êita Nego Bom!Roberto Mardônio de Oliveira 06-11-2008 13:18
No centenário de nosso ilustre companheiro, e mestre Solano Trindade, paíra no ar uma atmosfera que converge a favor do reconhecimento em torno de todo mundo daqueles que sempre foram referência de luta e resistência e que fincaram mais uma bandeira no ano de 2008.
Centenário de Solano Trindade, o prefeito da cidade de Recife João Paulo, consegui quebrar dois tabus na história política da cidade que era a de não se reeleger e a outra de não fazer o sucessor, mas não é que o negão conseguiu as duas façanhas, mostrando que é possível, e para fechar com chave de ouro temos a vitória esplendorosa do Barak Obama, para presidir os Estados Unidos da America.E para finalizar não poderia de citar um companheiro que foi candidato a vereador na cidade de Recife, o Professor Jamerson 13000, que dizia o seguinte em seu discurso: É possivel sim fazer campanha política com uma militância aguerrida sem precisar comprar a consciencia nem as mentes das pessoas, olhando olho no olho e mostrando que o brilho das pessoas é bem maior.

A negrada está em festa!
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0 #11 Solano, reprsentante da resistência negrAna Cristina Crispim Maurício 06-11-2008 09:03
Estou fazendo um artigo sobre resistência negra cujo principal representante no Modernismo é o poeta Solano Trindade e este trabalho serviu ainda mais para ratificar a verdadede minha pesquisa que tem a intenção de desmisticar o mito da passividade negra, no Brasil.
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0 #10 Solano necessárioLourival Holanda 24-07-2008 08:31
Solano Trindade é uma memória "necessária" contra a diluição que a mídia faz da especificidade do ser negro na cultura brasileira.
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0 #9 virgilina de fátima gualano vi 25-06-2008 14:36
\"Bem , procurando conhecer mais sobre êste grande \"Escritor\", encontrei êste maravilhoso compêncio dêste \"ilustre Brasileiro . Parabéns, gostaria de que vocês pudessem sempre me enviar seus \"Artigos\"!
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0 #8 Solano Trindade: Poeta e negro até o fimRogério Generoso 11-06-2008 12:35
A Poesia é uma vida. Solano Trindade levou a sua realidade individual ao plano coletivo, e sua voz, no seu poema, traz os gritos de dor e os silêncios de fome dos que não tem voz. A sua luta pela cultura popular orgulha aos pernambucanos e remete a nós poetas, cada um com sua peculiaridade, a estabelecer um campo de tensão na criação entre o lúdico e a realidade do tempo presente.
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0 #7 C. A. 11-06-2008 12:33
Negros, brancos, pardos,amarelos, multicoloridos. Não importa! Solano é do mundo. Sua poesia real, comprometida, nos fortalece a alma. Nos faz ir adiante, na busca de um mundo mais justo.
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0 #6 Solano Pernambucano TrindadeRoberto Mardônio de Oliveira 14-04-2008 07:06
É um orgulho para o estado de Pernambuco e para o Brasil ter em sua história uma personalidade como o nosso querido Solano Trindade, comemorar cem anos e snedo lembrado por toda comunidade negra de nosso país é motivo de alegria e satisfação. Eu como negro e pernambucano, conterâneo de Solano, me sinto feliz por este momento.

Espero que possamos organizar a nossa sociedade para que não tenhamos que dizer que ainda "TEM GENTE COM FOME".
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0 #5 Poesia EngajadaMaurilio Tadeu de Campos 13-04-2008 16:15
Como poeta, sempre acreditei na poesia como arte angajada, comprometida com o homem em sociedade, sua luta por uma vida saudável, mais digna. Encontro Solano Trindade como um poeta forte, direto e firme em seus propósitos, mostrando, através da arte, que a poesia precisa ser melhor apreciada, melhor compreendida, pois revela os anseios de poetas como esse homem pernambucano, esse homem brasileiro. Viva o Poeta Solano Trindade! Viva a Poesia!
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