Atraso e moderno na visita do papa

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A relação entre atraso e moderno que marca a Igreja contemporânea foi explicitada na recente visita do papa ao país.


A própria instituição do papado transpira arcaísmo. De um lado, a noção de um homem que encarna a divindade – ou no mínimo, sucede o seu zelador, São Pedro – apenas por comandar a instituição que se apresenta como a portadora do seu legado. O que resulta nas entrelinhas é uma concepção burocrática da santidade.


De outro lado, o papa é uma espécie de todo poderoso infalível e incontestável, que não tem pares. Aí a instituição papal traz a marca indelével da sua parceira oposta e complementar na história: a monarquia. Não é casual que a Revolução Francesa, marca da afirmação da subjetividade na história, tenha se voltado simultaneamente contra estas duas entidades.


Como santo por decreto e rei por tradição, o papado contraria o princípio fundante da contemporaneidade, onde o homem afirma sua subjetividade – e portanto sua humanidade ou sua santidade – na relação horizontal com seus iguais e com o mundo. Em suma, o papado contradiz a afirmação histórica da individualidade humana.


Ao mesmo tempo, o Papa faz questão de ser pop. A sociedade de massas transforma um líder político, vestido de religioso, em uma celebridade. A parafernália midiática e de segurança que cerca a visita do pontífice deveria vexar qualquer voto de humildade.


Ocorre que o Papa é o mais alto funcionário de uma instituição de poder. E como tal, antes de negar os aspectos da contemporaneidade que possam contrariar seus princípios espirituais, a Igreja procura aproveitá-los.


Assim, não há constrangimento em tratar fiéis como consumidores de um espetáculo de massa, tietes do Vaticano. Portadores de uma devoção fetichista, carregada dos vestígios de um tempo histórico onde a salvação – e a danação – são produto de reza e graça, e não fruto da atividade dos homens. Em uma palavra, resquícios do tempo onde o destino do homem ainda estÁ subordinado aos desígnios natureza.


Ao Vaticano parece não interessar a emancipação do homem em suas múltiplas dimensões, inclusive espiritual. Os desígnios da igreja como entidade de poder político prevalecem sobre quaisquer princípios imateriais.


O fato de atraso e moderno conjugarem-se na igreja contemporânea apenas explicita sua característica institucional: assentada em valores que são ao mesmo tempo superados e superáveis – o devocionismo arcaico, reapresentado em forma fetichista pelo consumo fiel –, a Igreja consagra-se inimiga da libertação do homem: tanto do passado como do presente.

 

 

Fábio Luís é jornalista.

 

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