Dialética da gratidão

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Quando pensamos em gratidão, é difícil não associá-la à retribuição. Ainda mais em português, onde ainda dizemos “obrigado”.

 

Especialmente no varejo das relações humanas é muito forte o princípio da reciprocidade. Isto tem sua naturalidade, mas também a sua história: se de um lado é na correspondência mútua do afeto que se afirmam vínculos entre os homens, por outro, é característica de uma sociedade mercantil que a doação dificilmente possa ser concebida sem uma contrapartida.

 

Se amar ao próximo que não nos quer bem é o verdadeiro desafio cristão, a expressão deste amor implica em um certo grau de abstração, para ser saudável e não ferir a outra baliza do amor cristão: amar a si mesmo.

 

A maturação deste sentimento de identidade entre os homens e de amor pela vida se desdobra em uma posição combativa, e não ingênua, diante da realidade. É a raiz do amor militante, fonte do compromisso revolucionário, assentado em uma relação dialética entre a gratidão pela vida e o amor ao próximo.

 

Quem desperta para o dom inexplicável e simplesmente maravilhoso da vida, é invadido por um sentimento profundo de gratidão por tudo aquilo que recebe. A vida é o que de mais gratuito recebemos, e a sensibilidade para isso, comove.

 

E, no entanto, quando se olha ao redor, percebe-se o outro – o próximo – e imediatamente toma-se consciência de quanta vida tem o seu desaflorar bloqueado. A fome, o frio, a miséria, a violência.

 

O ser humano que reage a esta realidade movido por compaixão tem a sua militância firmemente enraizada na sensibilidade à vida. Este compromisso não envelhece, ao contrário: a maturidade vai abrindo novas dimensões do amor, como a maternidade, a vivência de avós, a solidariedade na perda... E amor não soma, mas multiplica.

 

Este militante está maduro para a experiência da indignação. Porque a indignação nasce de um amor radical. Caso contrário, é raiva.

 

A diferença é muita: a indignação é um sentimento coletivo, de identidade com a espécie humana e o seu destino. Portanto, aponta para soluções organizadas; o seu horizonte é a história.

 

A raiva tem uma dimensão explosiva imediata, identificada com a afronta pessoal. Aponta para a justiça com as próprias mãos. E a vingança, já dizia Trotsky, não é um sentimento político.

 

Na intercessão entre a gratidão pela vida e a indignação com a morte é que habita o terreno da experiência mística na América Latina.

 

 

Fábio Luís é jornalista.

 

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