O circo e a Fórmula 1

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O ex-corredor e empresário Emerson Fittipaldi costuma comparar a Fórmula 1 ao circo.

 

Refere-se de maneira genérica a uma vida intinerante, onde os profissionais vivem viajando pelo mundo. Mas, principalmente, diz que em ambos existe uma tradição hereditária, onde a profissão passa de pai para filho. Certamente tem em mente casos próximos: o filho de Nelson Piquet, que já é um campeão internacional; e seus próprios netos, Enzo e Pietro, que com menos de 10 anos já acumulam vitórias no kart nos Estados Unidos. E o próprio pai de Emerson era ligado ao automobilismo.

 

No entanto, a comparação tem pouca sustância.

 

O circo é uma forma de entretenimento que antecede a sociedade de massas. Sua força deriva do isolamento da sociedade pré-industrial. Seu magnetismo está na possibilidade de tornar acessível o insólito e o maravilhoso – além do cômico – a existências que pouco ultrapassam a esfera comunitária.

 

A força da mágica antecede o mundo dos efeitos especiais e da computação. A maravilha do trapézio, do equilibrista, do malabarista, têm um quê artesanal que os vincula a uma sociedade onde ainda é a mão humana quem faz, e não a máquina. O impacto do diferente: animais exóticos, os “freaks” – a mulher barbuda, o anão, o homem de duas cabeças – só causa furor antes da fotografia e da comunicação de massas. E a graça do palhaço depende de um exercício de empatia que é estranho à televisão.

 

O automobilismo esportivo nasce com o consumo de massas e a indústria do entretenimento. A Fórmula 1 alcança o lugar de competição máxima do esporte ao mesmo tempo em que se difunde a televisão.

 

A Fórmula 1 é uma disputa entre empresas capitalistas, que se associam a produtores e fornecedores (de pneu, de motor), a patrocinadores e à grande mídia. É esta convergência de esferas de negócios que permite a criação de uma modalidade esportiva milionária, onde a “equipe” é um time de operários altamente especializados e apenas um é atleta. É a competição característica e ideal do capitalismo monopolista.

 

Neste contexto, a expressão “circo da Fórmula 1” só pode servir ao propósito de dissimular – marketing - sua natureza mercantil, fazendo realçar seu único denominador comum: como forma de entretenimento.

 

Em uma palavra, o circo da Fórmula 1 está associado a um mundo que esvaziou o sentido de ser do circo tradicional. Este só não se extinguiu onde o estado assumiu a sua tutela: na União Soviética, na China, em Cuba. Reapareceu totalmente resignificado – ou seja, remodelado pela indústria cultural em experiências como o Cirque du Soleil canadense, que virou um grande negócio. Este sim, pode ter alguma proximidade com a Fórmula 1.

 

No mais, sobrevive residualmente. No Brasil, de maneira deformada em espetáculos comerciais de segunda linha – como o circo do Beto Carreiro ou aquele do ator global Marcos Frota, ou em companhias precárias que lutam para sobreviver ou aproximam-se de um entretenimento infantil voltado às crianças endinheiradas.

 

Em suma, o tempo da Fórmula 1 atropelou o circo. Porque o show do capital não pode parar.

 

 

Fábio Luís é jornalista. 

 

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