O meu guri

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"Vou com Deus
Se não voltar,
Fiquei com ele"

Essa inscrição é uma espécie de haikai do subdesenvolvimento contemporâneo, presente em algumas motos de motoboys.

Os horizontes que se descortinam diante de um jovem da periferia hoje são minguados. Como se sabe, a escola pública é difícil de atravessar, o ensino superior, uma farsa e o emprego, não existe.

De outro lado, a realidade pintada na música “Meu guri” de Chico Buarque tampouco existe mais: formas de sociabilidade marginal mas saudável, onde sobrevive-se ao sabor do improviso, alicerçado no ecossistema cultural do morro.

Na prática, o mundo urbano é cada vez mais hostil a toda forma de comunidade – mesmo aquela mais elementar, forçada pela necessidade.

O guri quando desce encontra hoje concorrência acirradíssima pela sobrevivência, da parte dos adultos. Qualquer posto para levantar um trocado – seja um farol, um bairro onde recolher latinha e papelão, um quarteirão para guardar carro – já está ocupado. Resta entrar pelo andar de baixo no andar de baixo, ou enfrentar-se através da violência.

A acentuada desagregação do tecido social brasileiro, produto da precarização no mundo do trabalho, multiplicou aos milhões o exército dos desempregados. Como resultado, jogou a luta pela sobrevivência em um novo nível de risco, reflexo do desespero social: os sem-terra no campo, o tráfico na cidade, os motoboys.

Sabe-se que, em geral, o jovem opera sua moto com um misto de dever profissional e desafio pessoal. A cada viagem, o motoboy parece estar querendo provar alguma coisa a si mesmo: mostrar que está vivo, ao desafiar a morte.

É uma forma desesperada de preencher o buraco existencial legado por uma rotina esvaziada de sentido. Uma forma deturpada, é verdade. Mas onde o trabalho não oferece possibilidade de realização do humano, não responde ao anseio de integração do homem com seu entorno - seu passado e seu futuro -, este vazio pode ser preenchido por qualquer emoção barata. Neste caso, ocorre de ser uma adrenalina no trânsito.

O consolo, como não poderia deixar de ser, gravita ao além. A fé na redenção não se deposita na luta social nem na história. Reside no metafísico, único recanto seguro para a esperança.

Deus é o retrato da família que leva no coração. Estruturada ou não, é o objeto de amor com que conta. É o que lhe dá a gasolina para seguir em frente.

Mas se não voltar, sabe que poucos sentirão sua falta. Fiquem tranqüilos, pois é apenas um rapaz que, atrás da vida, encontrou a Deus. Como uma espécie de jihad latino-americano, terá imolado sua vida na tentativa desesperada e digna de ir um passo além da sobrevivência, procurando engendrar no seu trabalho algum nível de superação da animalidade.

Super-homens urbanos, são guris que ousam buscar vida no trabalho. É um sinal de vida. Mesmo que nas circunstâncias, isso os coloque no limiar da morte.

 

 

Fábio Luís é jornalista.

 

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