Contemplação e militância

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Difícil definir o que é contemplação, embora seja uma experiência conhecida.

Associada inicialmente à visão, passa no entanto pelo coração, que são os seus olhos. Porque contemplar implica tornar presente algo que até então se ignorava e seguir esse movimento.

Essa percepção não responde à razão, mas ao contrário: provoca a sua resposta. Pode-se ver um pôr-do-sol, um quadro, a pobreza e isso não tocar. Sair da experiência igual a que se entrou.

A contemplação implica em uma postura receptiva em relação ao real e não dominadora: deixar que o objeto – a arte, o outro – fale em você e não o contrário.

Neste sentido a contemplação é um mestre: o que está fora remete ao que está dentro. Por esse caminho podemos crescer enquanto humanos, mais próximos do sentir-se.

Um exercício de alimentação da subjetividade. Diálogo criativo do eu com o vivo: construção do sujeito.

Porque contemplar é praticar uma escuta, atenta a outras dimensões do real. Aponta para a integração com o redor e do redor consigo. Contemplar é aprender com o vivo.

Na prática, é descansar a cabeça e acariciar o coração. Relacionar-se com o redor, como o dia namora a noite. Complementar, como é o sono para a vida desperta.

O centro da contemplação é o redor. Por isso é um constante exercício de sair de si – e também de volta a si.

Daí deriva o seu nexo social. Passando pelo coração, movimenta. Não existe conexão consigo que não passe pelo outro, como não existe o ser humano sem cultura. A consciência é vazia sem ação, como o amor não se explica sem o beijo.

Integrar-se é estar mais atento à dimensão social da existência, através do amor ao próximo. E à dimensão holística da vida através do amor às criaturas – a ecologia. Concretamente, a defesa da vida como expressão de amor se traduz, sob o capitalismo, como militância.

Assim, o fundamento último da contemplação é o homem.

Exercitada como um resgate de sensibilidades do humano alienadas pela sociedade de massas, motiva o preenchimento da existência por formas antagônicas ao consumo. Porque a contemplação, como o amor, basta a si: não necessita adereços.

Por isso o capitalismo é antagônico à contemplação – como o é ao amor. Depende da alienação do sujeito para reproduzir-se: de vidas vazias de sentido, sempre na correria, que buscam no consumo um substituto postiço e funcionalmente infinito ao ser.

Na medida em que alimenta a experiência amorosa, consigo e com o vivo redor, a contemplação enraíza a resistência militante na subjetividade. Dimensão necessária para o enfrentamento e a superação da cultura de massas criada pelo capitalismo.

 

 

Fábio Luís é jornalista. 

 

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