Lapso

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Voltava da dança, estava quase clareando. Ao abrir a porta que separa o salão de baile da rua, vi à minha frente um rapaz agitado. Era alto e forte, mas quase adolescente. Mal tinha barba.

Por algum motivo olhei bem no seu rosto, como se procurasse uma referência conhecida. Notei que era bonito, mas tive a sensação de aguada aflição nos seus olhos.

 

Isso tudo durou poucos segundos. Então às minhas costas ouvi alguém dizendo: “seu trouxa!”.

O menino fez menção de partir para cima do autor das palavras. E eu no meio, passando.

A mulher com quem eu estava pegou na minha mão com um gesto decidido de ir em frente.

Com o canto do olho percebi, como quem olha no espelhinho, amigos e amigas segurando o jovem agitado. A briga parecia evitada pela turma do deixa disso.

 

Ouviam-se gritos femininos ao fundo. Minha companheira comentou:

- Se fosse eu, largava e ia embora. Voltava de táxi.

Pensei comigo: se todas as mulheres fossem assim, o mundo seria bem mais pacífico.

- Já te aconteceu?


- Já. Mas foi só uma vez, com os amigos de faculdade. Depois disso, nunca mais arrumaram briga na minha frente.

Num instante pensei: se naquele momento ela tivesse olhado para mim e falado “você não vai fazer nada?!”, era bem provável que eu fizesse. Não sei o quê, mas alguma coisa faria. Me meteria no meio, procuraria acalmar ânimos. E com azar, levaria alguma bordoada grátis.

Dobramos a curva e ouvi um grito agudo. Era a mulher. Continuamos andando, nos afastando do local e o barulho subiu de volume. A briga tinha estourado com toda violência.

Sem querer, distingui som de metal, garrafa, o barulho inconfundível de soco no osso, e muitos gritos desesperados de mulher.

Fiquei perturbado.

Mas em poucos segundos estávamos à distância, e nada se ouvia a não ser os barulhos da noite.

E no entanto, aquele rosto ficou marcado na memória,  como um assassino que não esquece o último olhar da vítima.

Não que eu ache que pudesse ter evitado a briga de acontecer. Talvez pudesse, mas é improvável. Também poderia ter piorado. Nunca se sabe.

Mas não pude evitar o pensamento sobre o imponderável na vida: como em um minuto estamos saudáveis e, no outro, podemos estar com a cara arrebentada.

Aquele rosto não saiu da minha cabeça no dia seguinte: não sei o que lhe aconteceu, mas desconfio que tenha apanhado e muito. Quem chama o outro de trouxa assim, como que diz bom dia, é porque está procurando briga: deve medir o tamanho da sua imprudência.

Fiquei com aquele rosto jovem marcado, como se fosse o meu. Se tivesse guardado uma palavra a mais, um impulso, um desaforo, certamente teria se saído melhor. Vi ali o rosto de toda juventude: a diferença entre o que poderia ter sido e o que foi, em um milésimo de segundo. Rezei por dentro.

Para que, quando o discernimento faltar, estejamos acompanhados de boas anjas da guarda.

 

 

Fábio Luís é jornalista.

 

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