O avião da TAM e o subdesenvolvimento

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Há dois tipos de acontecimento que geram manchete e alarde em um país subdesenvolvido como o Brasil.

 

De um lado, episódios onde morrem brancos em escala. Por trás desses eventos, subjaz algum tipo de irresponsabilidade característica do capitalismo subdesenvolvido. É o Bateau Mouche que afunda, os prédios da construtora do deputado que caem no Rio de Janeiro, o avião que atravessa a cidade.

 

Há sempre uma espécie de negligência onde o imperativo do negócio atropelou as elementares precauções de segurança. Não significa que isso só aconteça na periferia do capitalismo: mas aqui, é a regra.

 

No caso recente do acidente envolvendo o avião da TAM em São Paulo, a hipótese mais ventilada evoca a pressa em utilizar a pista reformada, onde o asfalto deveria esperar 45 dias para receber os sulcos que drenam a água da chuva. E isso não aconteceu.

 

O outro tipo de notícia que ganha as manchetes são chacinas que envolvem pobres indefesos em larga escala. O massacre da Candelária, o massacre do Carandiru, os 17 sem terra mortos no Pará. Ao contrário das mortes envolvendo os brancos, estas não motivam a consternação unânime dos cidadãos, divididos por aqueles que acham que direitos humanos é coisa de bandido.

 

Outra diferença: as chacinas de pobres são, no geral, operadas pelo Estado ou contam com a sua conivência - enquanto os desastres no mundo dos brancos são causadas por negócios privados, ancoradas na omissão do poder público.

 

Não significa que esse tipo de crime seja inexistente no capitalismo central. Mas lá constitui uma aberração, enquanto entre nós é o padrão.

 

Existem também as tragédias pessoais que ganham as páginas da imprensa. Geralmente protagonizadas por brancos ricos – como no caso da menina Richtofen, que matou os pais com os irmãos Cravinhos –, encontrou uma exceção inovadora no caso do ônibus 174 no Rio, onde um ex-menino de rua provocou um drama que o levou ao estrelato e à morte.

 

Ambos os tipos de episódio configuram faces opostas da moeda do subdesenvolvimento: no mundo dos brancos, predomina a ausência das regras que caracterizariam um ambiente competitivo, onde o Estado se faz presente como agente regulador em nome de um patamar mínimo de homogeneidade social, chamado de bem comum – ou a República.

 

No mundo dos pobres, explicita-se a falta de organicidade do tecido social, no momento em que um setor marginalizado do bem comum é alvejado por representantes do Estado sem direito a defesa nem acusação póstuma. A impunidade é a marca registrada desta sociedade cindida, que se sustenta no consentimento ativo ou passivo da maioria silenciosa.

 

Todos se condoem das vítimas do acidente da TAM, como nos Estados Unidos ninguém festejou as mortes nas Torres Gêmeas. E, no entanto, é preciso perceber que são duas faces da mesma moeda: o subdesenvolvimento em um caso, o imperialismo no outro.

 

Que, por sua vez, são as duas faces do capitalismo contemporâneo.

 

 

Fábio Luís é jornalista.

 

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