Tempos estranhos

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O ano de 2012 foi surpreendente, daqueles para desmoralizar a crença em todo e qualquer tipo de vidência. Sim, porque, se em dezembro de 2011 alguém afirmasse que ao final deste ano que ora se encerra José Dirceu e mais boa parte da cúpula do PT estariam condenados a dezenas de anos de prisão, ou que a identidade de uma “amiga íntima” do ex-presidente Lula seria revelada e que tal amiga seria indiciada por formação de quadrilha e outros crimes, qual seria a reação de dez entre dez analistas políticos? Risos, provavelmente.

 

Mas não é só isto, tem mais: e se um hipotético vidente vaticinasse que o Catão do Senado Federal, o implacável defensor da moral e dos bons costumes, seria cassado por ligações com um bicheiro, como ocorreu com Demóstenes Torres em julho, liquidado politicamente por ter colocado seu mandato a serviço de Carlinhos Cachoeira? Ou ainda, se previsse também que José Serra, recém-saído das urnas com mais de 40 milhões de votos, seria derrotado por um neófito na política, sem nenhuma eleição no currículo, em pleno auge do julgamento do mensalão?  E se dissesse que a presidenta Dilma Rousseff manteria, mesmo com a economia andando de lado, a estratosférica popularidade, despontando nas pesquisas de opinião como candidata imbatível na eleição de 2014?

 

Provavelmente, pela soma das previsões, o vidente seria considerado louco varrido, merecedor de internação imediata no primeiro hospício ao alcance.

 

No entanto, tudo aconteceu, e não foi só: o Corinthians venceu a Libertadores e o Mundial de Clubes... Sem a menor sombra de dúvida, 2012 foi um ano diferente, muito diferente e, sobretudo, estranho. O que nos leva então a um exercício de interpretação complexo. Afinal, o que está acontecendo no Brasil?

 

Se a resposta é difícil, a velha e boa técnica da eliminação das alternativas ajuda a pensar. É possível perceber com razoável grau de certeza o que NÃO está acontecendo.

Oposição paralisada

 

Em primeiro lugar, não existe, nem de longe, um movimento organizado da oposição para desestabilizar o governo ou atingir Lula, Dirceu, Genoino e outros integrantes da cúpula do PT.

 

Ao contrário, na verdade a oposição só se debilitou nos últimos anos, parte dela capitulando cada vez mais ao regime petista. Estão aí o DEM de ACM Neto e o PSD de Gilberto Kassab, ambos praticamente em vias de integrar a amplíssima base do governo Dilma. Ainda mais emblemático é o exemplo do governador tucano das Alagoas, Teo Vilela, que participou de recente desagravo ao ex-presidente Lula, convescote que reuniu em São Paulo quase uma dezena de governadores de estado.

 

No fundo, a oposição partidária se resume hoje a uma parcela, cada vez mais diminuta, do PSDB e PPS, à direita. E às pequenas agremiações de esquerda (PSOL, PSTU, PCB etc.), que lutam, com grande dificuldade, para ter alguma voz no debate público, e que têm também as suas próprias contradições, como ficou claro na disputa interna do PSOL em Belém, que acabou tirando uma eleição quase certa de Edmilson Rodrigues, candidato do partido à prefeitura da capital do Pará.

 

De toda maneira, resta claro que nenhuma dessas forças está por trás dos movimentos que culminaram no julgamento do mensalão, na condenação dos mensaleiros, Operação Porto Seguro e o “Rosegate”.

Elites e movimentos sociais

 

Também não há sinais de qualquer movimentação organizada das chamadas “elites”, como Lula gostava de se referir. Salvo uma parcela do setor de mídia, em especial a Editora Abril, sobre a qual trataremos mais adiante, não é possível perceber qualquer sinal de apoio do empresariado a tentativas de desestabilizar o governo ou o PT. Ao contrário, o que mais se vê é o aplauso à política econômica de Guido Mantega, em que se pesem algumas críticas pontuais em aspectos absolutamente laterais e que na verdade têm muito mais a ver com os pleitos de determinados segmentos da economia do que com uma crítica abrangente sobre a condução da política econômica nacional.

 

Por fim, não existe qualquer movimentação, organizada ou desorganizada, nas ruas. Os movimentos sociais, urbanos ou rurais, andam um tanto ausentes do debate público de forma geral, uma parte porque está de fato cooptada pelo governo, outra parte talvez enfraquecida ou cansada de não conseguir se fazer ouvir. Mesmo as tentativas de líderes petistas de utilizar os “seus” movimentos sociais para pressionar por alguma forma de “resistência” às penas estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão também não surtiram, até aqui, efeito algum, o que apenas demonstra, com sinal trocado, a inapetência desses movimentos por qualquer tipo de mobilização neste momento.

 

Ora, se vimos acima o que NÃO ESTÁ acontecendo, voltamos então à pergunta inicial: o que ocorreu para que tantos fatos estranhos na política nacional tenham acontecido em 2012?

Jogo nas sombras

 

Aparentemente, e por isto é tão complicada a análise, o jogo político relevante está se desenrolando nas sombras e dentro do governo, dentro do Partido dos Trabalhadores. Todos os indícios levam a crer que há uma guerra interna, bastante importante, sendo travada no interior do regime, envolvendo a divisão do poder (cargos e recursos, obviamente) e interesses bastante difusos.

 

Seria um simplismo enorme falar em “dilmistas”, “lulistas” e “dirceuzistas”, porque a configuração é evidentemente muito mais complexa e envolve disputas não apenas de grupos do PT, mas também os aliados que compõem a vasta aliança montada por Lula desde 2002 e que teve continuidade com Dilma.

 

A questão de fundo, na verdade, parece ser 2014, ano em que o país terá mais uma eleição geral, com o Planalto em disputa. E, ao contrário de 2006 e 2010, quando Lula disputou a reeleição e ungiu sua candidata, agora a sensação é de que tudo está em aberto, criando assim um vácuo de poder. Lulistas espalham que o ex-presidente pode ser o candidato do PT de novo, mas Dilma parece ter gostado da experiência e tem a seu favor muitos argumentos para pleitear a reeleição.

 

Na base aliada, o PSB reforçado com diversas vitórias nas eleições deste ano parece se movimentar para ocupar a vice-presidência, porém há um PMDB no meio do caminho, e quem há de governar sem o PMDB?

 

Em meio a este clima de incertezas e vazio de poder, muita coisa pode acontecer, e já aconteceu. O Rosegate parece ser expressão acabada deste jogo confuso, em que a Polícia Federal aparece com uma autonomia sem precedentes na história recente. Este ambiente permitiu que Carlinhos Cachoeira, velho conhecido do PT, do PSDB, do DEM, do PMDB e de todas as agremiações que já estiveram no centro do poder ou em torno dele gravitaram, fosse apanhado e encarcerado como um criminoso sem qualquer trânsito junto aos poderosos. O mesmo vale para o ex-senador Gilberto Miranda, cuja influência em diversos negócios, públicos e privados, data de décadas, sem jamais ter sido de fato incomodado.

 

Demóstenes Torres, o Catão do Senado, tornou-se vítima, digamos assim, deste mesmo ambiente, com sinal trocado, é claro, e foi rapidamente abandonado por seus aliados, como é comum acontecer. Vide os casos de José Roberto Arruda e mesmo de Antonio Carlos Magalhães, embora este, com maior robustez e base política, tenha conseguido se reerguer.

Mídia conservadora e o mensalão

 

Mais difícil é interpretar o julgamento do mensalão, porque o vácuo de poder não explica totalmente o que se assistiu no STF. Afinal, dos 11 ministros que terminaram o julgamento, oito foram indicados por Lula ou Dilma, inclusive o relator, Joaquim Barbosa, que terminou o ano com status de celebridade. A expectativa inicial era de que, de alguma maneira, os advogados de defesa conseguissem protelar ou desmembrar o julgamento. Não aconteceu. Depois, dizia-se que muitos seriam absolvidos por falta de provas. Também não aconteceu. Outro palpite que não se concretizou dizia respeito à aplicação das penas, que deveriam ser pequenas. Foram penas duras, com multas altas e dezenas de anos de prisão para os condenados, impossibilitando que eles possam cumpri-las em regime semiaberto.

 

Neste particular, a mídia conservadora, em especial a revista Veja, da Abril, talvez tenha tido um papel relevante ao criar um ambiente de pressão pela condenação dura dos envolvidos. Cobertura extensa e diária, na internet, com blogs de colunistas cobrando diuturnamente uma postura agressiva dos ministros, pode ter criado uma zona de desconforto para os ministros que talvez estivessem propensos a não acompanhar o relator. A demonização dos votos do revisor, Ricardo Lewandowski, foi outra estratégia para evitar que o resultado fosse diferente de uma condenação efetiva do núcleo político do esquema, mesmo diante de provas eventualmente frágeis.

 

E, já ao final do processo, Veja publicou como furo de reportagem novas “revelações” do publicitário Marcos Valério, peça chave do esquema, àquela altura já condenado a mais de 40 anos de prisão e em busca de alguma forma de reduzir a sua pena. Sem aspas efetivas do protagonista, a revista tentou envolver o ex-presidente Lula, que, sim, saberia e teria autorizado os empréstimos para a empresa de Valério.

 

Tudo somado, o ambiente político permitiu e proporcionou a condenação de líderes petistas da magnitude de José Dirceu e Genoino. Não é pouca coisa e fica para 2013 o momento da prisão de todos os condenados e também uma possível nova ação da Procuradoria Geral da República, tendo em vista os novos fatos relatados por Valério.

Ventos de mudança ou de continuidade?

 

Para finalizar, cabe então a pergunta: o que esperar de 2013 tendo em mente esses tempos estranhos que vivemos? Neste novo ano que se inicia, o espaço para palpites parece pequeno, visto que os do ano anterior foram todos desmoralizados pelos fatos. O que dá para afirmar com tranquilidade é que a turbulência deve continuar, e o jogo deve prosseguir nas sombras, naquelas áreas que o público geral pouco conhece, em que a informação é escassa e privilégio dos muito bem informados.

 

Mesmo em um ambiente tão turbulento, porém, não dá para vaticinar que ventos de mudança estão chegando, como atesta a eleição do petista Fernando Haddad, contra tudo e contra todos, em São Paulo. Dilma continua extremamente popular, mesmo com um PIB fraco. É preciso lembrar que o Brasil vive um inédito momento de pleno emprego e que o crédito continua turbinando o consumo interno. Para os mais pobres, a vida segue melhorando, e todos sabemos que a economia conta muito para a (im)popularidade dos mandatários da nação.

 

Para a sorte do regime petista, a oposição, de direita ou de esquerda, não parece ter forças para aproveitar a turbulência e consolidar um nome, um projeto, ideias gerais que sejam, alternativos ao programa petista para o Brasil. Desta forma e apesar das crises políticas, o espaço da mudança parece continuar reduzido à ocorrência de um cataclisma econômico que mude radicalmente o humor dos brasileiros em relação aos seus governantes. Ou a uma verdadeira reviravolta, a partir de terremotos políticos de alto grau. Tendo em vista o que aconteceu em 2012, nenhuma dessas hipóteses pode ser descartada. Como palpite, no entanto, este colunista acha que é possível, mas não provável.

 

Previsão mesmo, daquelas que o leitor pode cobrar no final de 2013, apenas uma: o Corinthians não ganha outro Mundial... E ficam então aqui já os votos de um ótimo ano para todos, com muitas realizações.

 

Luiz Antonio Magalhães é jornalista, foi editor do Correio da Cidadania, do Observatório da Imprensa e do Diário do Comércio, Indústria e Serviços (DCI).

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