Paz e refugiados

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Amã, capital da Jordânia, é uma cidade sem muitos atrativos. Suas construções padronizadas possuem paredes de uma cor areia capaz de se misturar perfeitamente com a desértica e pedregulhosa paisagem que, vista do alto de um dos dezenove morros da cidade, se extende ao horizonte, proporcionando a sensação de que, se aquele pedaço do planeta não estivesse localizado no Oriente Médio, poderia muito bem ter sido esquecido pelo homem e continuado por séculos e séculos sem maiores turbulências.

A bucolicidade jordaniana não transparece que tranqüilidade de fato só existe no reino desde 1994, quando foi assinado o Tratado do Vale do Aravá, responsável pela paz entre o país e Israel. Resultante de intenso trabalho de negociações entre o então rei Hussein e o primeiro-ministro israelense Ytzhak Rabin, o fim das agressões entre os países - que datavam desde a guerra árabe-israelense de 1948, intensificando-se na Guerra dos Seis Dias, em 1967 - proporcionou avanços no comércio e no turismo das duas nações e é tido como modelo para futuros avanços na pacificação da região.

A assinatura do tratado, no entanto, foi incapaz de tornar a Jordânia livre do fardo da ocupação israelense nos territórios palestinos. Mesmo cessando qualquer reivindicação ao território da Cisjordânia - que esteve sob a jurisdição do país entre 1948 e 1967 -, os governantes jordanianos não conseguiram proporcionar uma solução definitiva para os milhares de refugiados palestinos que o país abriga desde a criação do Estado de Israel.

Deslocados de suas terras pela guerra e pelas agressões dos recém-chegados sionistas, os palestinos primeiramente foram assentados pelas entidades assistenciais, entre elas a Cruz Vermelha, às margens orientais do rio Jordão. Com a intensificação da turbulência regional, em 1950, a recém-criada ONU assumiu a assistência aos refugiados, estabelecendo a UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East) e transferindo as famílias para novos campos localizados no interior da Jordânia.

No início dos anos 1950, as tendas que por alguns anos abrigaram os refugiados foram substituídas por galpões de tijolos como forma de amenizar o sofrimento das famílias neles instaladas, proporcionando um mínimo de infra-estrutura necessária. Cada família, normalmente um casal com dois ou três filhos, ocupava um quarto de 12m² - espaço que era aumentado à medida que a família ganhava novos membros, recém-nascidos ou por meio de casamentos.

Em 1967, com a Guerra dos Seis Anos e a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza pelo exército israelense, uma nova onda de refugiados provenientes da Palestina chegou à Jordânia. Na ocasião, cerca de 400 mil palestinos, de acordo com números oficiais, viram-se obrigados a fugir da violência e foram alojados em tendas erguidas em caráter emergencial no interior do reino hashemita.

Desde então, os dez campos de refugiados administrados pela UNRWA passaram a ser o lar de milhares de famílias desabrigadas - que hoje continuam a viver em uma situação precária. A quarta geração de refugiados palestinos já está se tornando adulta, superlotando os campos e levando-os lentamente rumo a uma situação insustentável.

Além destes campos considerados "oficiais", bairros inteiros das cidades de Amã, Zarqa e Mádaba também são considerados como abrigo de refugiados palestinos pelo governo jordaniano - justamente como maneira de alertar o mundo para a questão. Semelhantes às favelas do Brasil e de outros países, trata-se de bairros marginalizados, habitados por refugiados de baixíssima renda, que sobrevivem graças à ajuda dada pela ONU e pelo DAP (Departamento de Assuntos Palestinos do reino da Jordânia).

Nestes bairros, onde se observam milhares de casas que parecem pouco propícias a agüentar o rigoroso inverno jordaniano e mesquitas improvisadas que remotamente lembram a pompa e a beleza dos tradicionais templos do Islã, está a maior parte dos 1,8 milhão de refugiados palestinos que hoje vivem na Jordânia, tendo suas vidas tornadas miseráveis pelo "espetáculo de crueldade desnecessária" - como descrita pelo filósofo e prêmio Nobel inglês Bertrand Russell - que é a ocupação da Palestina pelas Forças de Defesa Israelenses.


Mateus Alves é jornalista.

 

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