2014 não nos deixará saudades!

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Uma rápida comparação com os acontecimentos políticos/populares de 2013 nos ajudará a entender por que 2014 foi “mais pobre” em relação à grande mobilização social que tomou conta do Brasil.

 

O ano de 2013 teve apenas um momento político de calmaria porque estava voltado para o carnaval, época em que a população brasileira, em grande parte, se prepara para curtir aqueles dias de descarga emocional, fato que lhe aliviará o estresse provocado pelo trabalho mal remunerado ou pelo péssimo atendimento dos serviços essenciais, como saúde, educação, transporte, etc., ou ainda pelas informações de tantas falcatruas que ocorrem impunemente neste país. Em outras palavras, 2013 teve apenas os dois primeiros meses do ano dedicados ao descanso e/ou irrigados pelo ópio do carnavalesco padrão global, especialmente no Rio e em São Paulo.

 

A escassez do material dopante oficial durante o resto do ano permitiu que sobrasse mais tempo para o povo pensar em coisas mais sérias, pensar na própria vida, no coletivo. Daí, manifestações como as inúmeras greves ocorridas durante aquele ano, e que teve seu ponto mais elevado nas manifestações maciças do mês de junho, em protesto pelos tantos crimes que se cometem contra o povo, esquentaram a vida nacional. O ano todo de 2013 se manteve aquecido, preocupando fortemente os homens e mulheres dos vários governos (federal e estaduais), o capital nacional e internacional e a toda poderosa FIFA, que pensava nos lucros extraordinários que viria auferir durante a Copa do Mundo.

 

Já o ano de 2014 teve vários momentos de derrame de narcótico ideológico para o povão e isto foi bem aproveitado pela burguesia, que se preparou para dar a volta por cima e retomar as rédeas da vida política e econômica do país. A começar pelo próprio carnaval: “A felicidade do pobre parece, a grande ilusão do carnaval, a gente trabalha, o ano inteiro, em busca de um momento de sonho, pra fazer a fantasia, de Rei, Pirata ou Jardineira, e tudo se acabar na quarta feira...” (do filme Orfeu de Carnaval).

 

Passada a quarta-feira de cinzas, entrou em cena a preparação para a Copa do Mundo: era necessário continuar o doping popular para que o evento “fifiano”, ou global, não gorasse; não se poderia admitir que os planos das grandes empreiteiras, envolvidas nas históricas falcatruas oficiais, não se consumassem. Assim, toca publicidade, musiquinhas, atores a atrizes também globais enfiando goela abaixo seu entorpecente e, acima de tudo, repressão contra os “insatisfeitos” do povo, os rebeldes que não querem ver o povo feliz com os gols de Fred, Neymar, Oscar, gente que ficará frustrada caso os “canarinhos” levantem, pela sexta vez, o caneco da FIFA.

 

Era o repeteco do “Pra frente Brasil, salve a seleção”. Pois não é que a presidência da República reeditou o conceito da Doutrina Nacional de Segurança, dos famigerados tempos de ditadura civil-militar? E por cima tivemos que ouvir o ministro da “Justiça” explicar a medida pra “garantir a ordem e a tranquilidade durante a Copa”. Ordem e tranquilidade para quem, cara pálida?

 

Ancorados nesse conceito autoritário, governos dos estados e da federação, assessorados por agentes da CIA, prepararam as polícias e parte do próprio Exército com a mais avançada técnica de repressão que seria, e foi, aplicada sobre as mais legítimas manifestações populares. E o fizeram com todo rigor possível, conseguindo apagar temporariamente a fogueira do descontentamento popular. Porém, não apagaram suas brasas.

 

E a Copa deu no que deu. Elefantes brancos aos montes, com muito dinheiro do povo; milhares de famílias desalojadas de suas modestas casas sem ter pra onde cair; aumento da dívida pública já monstruosa; desvios do dinheiro público que deveria ser canalizado para os serviços essenciais e, por cima, o fracasso acachapante da seleção verde, amarela, azul e branca, que amarelou diante dos alemães.

 

Porém, com o fim da Copa, não estava acabada a farra da ideologia conservadora. O ano tinha de ser da burguesia mais reacionária e corrupta deste país. Para fechar o ano com sua chave de ouro, faltava o exercício pleno da “democracia”, faltava o povo eleger seus representantes, aqueles e aquelas que irão nos (des)governar pelos próximos quatro anos. Se as eleições no Brasil nunca foram marcadas pelo verdadeiro debate político e pela seriedade, neste ano o espetáculo foi simplesmente degradante, asqueroso, cheio de mentiras deslavadas, de caras de pau ocupando as telinhas e telões, ludibriando aqueles que sustentam com seus impostos as “raposas colocadas para cuidar dos galinheiros”.

 

A carência de projetos de interesse do povo deu lugar aos mais deslavados ataques à honra e à integridade moral e ética dos concorrentes aos cargos majoritários. Jamais assistimos a tanta baixaria, o que por si só bastaria para que um povo minimamente politizado partisse para a anulação dos seus votos, num solene “basta!”, e jogasse toda essa cambada de oportunistas no ostracismo político nacional. Mas o povo vem sendo despolitizado pela mídia monopólica.

 

Muito triste é perceber que a degradação progressiva do universo político tupiniquim levou às eleições de Congresso e várias Assembleias Legislativas mais conservadores de todos os tempos, em nossa curta vida política. O que se pode esperar de um covil?

 

Todos esses tristes acontecimentos acabam gerando, ou propiciando, o retorno das “viúvas da ditadura”, que ousam desafiar as autoridades e o próprio povo com suas manifestações fascistas, antidemocráticas.

 

Muita gente considera como único ponto positivo o fato de a corrupção oficial ter sido escancarada. Pode ser até certo. Porém, quem disse que tudo, ou quase tudo, não terminará na pizzaria da esquina? Por acaso alguém, de fato, acredita na Justiça deste país?

 

Podemos perceber que o ano de 2014 não deixará frutos positivos, que o doping ideológico penetrou nas várias camadas do povo e esse povo, em sua média, tornou-se mais conservador, ou desesperançoso, e talvez mais acomodado, esperando que, como a chuva que nos tem faltado, as mudanças caiam do céu, como milagre.

 

A aproximação do final deste ano nos traz péssimas notícias, como a formação do novo governo Dilma que, por sua composição, não nos dá esperança alguma de mudança no país.

 

Profundamente comprometida com o capital que, muito benevolente, lhe garantiu centenas de milhões de reais para bancar sua reeleição, Dilma avança na política econômica que satisfaz as grandes empresas e o capital financeiro e, de quebra, joga na lata do lixo todas as reivindicações populares.

 

Num dos seus últimos pronunciamentos, Dilma deixa claro que caminha na contramão dos anseios populares: rejeita as propostas da Comissão Nacional da Verdade, que pede punição para 377 agentes da repressão que praticaram crimes hediondos; curva-se à pressão de velhos e arrogantes militares e diz que “devemos respeitar os pactos”. Com tais indicativos, o que esperar do seu segundo mandato?

 

É a história da humanidade que nos dá a resposta: se o povo não avançar em sua organização de base e de massa, e assim voltar a ocupar as ruas de todas as cidades do Brasil, tudo continuará como dantes, com forte tendência de se agravarem os vários problemas que já afetam a vida do povo trabalhador: rebaixamento progressivo do seu padrão de vida, aumento do desconcerto familiar, da revolta popular, crescimento incontido da violência e falência dos serviços essenciais da saúde, educação, moradia, transporte; o avanço da barbárie.

 

As experiências de mobilização popular de 2013 precisam voltar. Porém, com um salto qualitativo nas suas lutas por profundas mudanças nas estruturas política e econômica, em função do social e não mais do lucro a qualquer preço. É a tarefa e o desafio para as jovens gerações, é delas que dependem as mudanças que há décadas são o grande anseio popular. Papai Noel político não existe para o povo, só para o grande capital.

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

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