Enquanto Mônica vai à Playboy, o Senado e o PT ficam nus

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Em fotos de J.R. Duran, Mônica Veloso vai se mostrar pelada na Playboy de outubro. Os senadores da República resolveram se antecipar nesta quarta-feira 12 de setembro. Mais nu do que ela ficou o Senado ao absolver o senador Renan Calheiros em votação secreta. Da foto publicada como divulgação, o colunista de humor político José Simão reclamou principalmente do mau gosto do sofá onde ela aparece deitada. Da foto desta votação histórica ficam mal, além do Senado como instituição, o governo Lula, sua base de sustentação e particularmente a bancada do PT.

 

Mônica informou também para uma colunista social que pretende escrever um livro sobre as “coisas de Brasília que nunca foram publicadas”. Igualmente impublicáveis devem ter sido as conversas das articulações governistas para garantir a impunidade a Renan Calheiros.

 

A Playboy de outubro promete vender. O livro que Mônica Veloso promete escrever, também. Bem de acordo com todo este processo, recheado de compras e vendas de vacas, de rádios, jornal, cervejaria, laranjas, consciências... Algumas reais e outras fantasmas, para esconder aquelas verdadeiras, impublicáveis e inconfessáveis. Renan até aceitou confessar seus “pecados matrimoniais”, mas não é o que efetivamente é importante do ponto de vista político e de interesse da sociedade.

 

A votação foi secreta. Pelo jeito, tinha mesmo que ser secreta, como secretas foram todas as articulações que passaram a ser denunciadas desde 25 de maio. Esta foi a data da primeira denúncia, de que um lobista da empreiteira Mendes Júnior é quem fazia pessoalmente e em dinheiro vivo os pagamentos mensais de 16,5 mil reais para a jornalista Mônica Veloso e a filha desta com o senador. Desta denúncia, feita pela própria jornalista, decorreu a primeira representação por quebra de decoro parlamentar junto ao Conselho de Ética do Senado, de autoria do PSOL.

 

O vexame do Senado tem seu início quando, após o discurso inconsistente de Renan Calheiros em que este tentava se justificar, foi feita uma fila de senadores da base do governo Lula e da oposição conservadora para se solidarizar. Foi justamente a representação feita pelo PSOL quatro dias depois da denúncia que começou a quebrar este discurso de compactuação.

 

Este processo não foi arquivado porque logo veio uma segunda denúncia dando conta de que era falso o argumento utilizado por Renan de que tinha pago a pensão de Mônica Veloso utilizando recursos próprios, advindos de venda de gado. Ficou claro que estes “negócios” não eram verídicos ou que Renan usava fantasmas e laranjas.

 

Em seguida veio um novo processo - também de iniciativa do PSOL -, agora para apurar denúncias de que o senador e seu irmão, o deputado federal Olavo Calheiros, favoreceram a cervejaria Schincariol junto ao INSS, em troca de vantagens financeiras extraordinárias envolvendo a venda de uma fábrica de cervejas do deputado à cervejaria.

 

Um terceiro processo veio com nova denúncia de sócios de Renan em negócios ilegais, com o uso de laranjas, para a compra de duas emissoras de rádio e um jornal no estado de Alagoas. Quem fez a denúncia foi seu sócio na transação de gaveta, o usineiro João Lyra.

 

As investigações da Polícia Federal não encontraram justificativas para as explicações fantásticas de Renan. E o secretário-geral adjunto da mesa do Senado pediu afastamento alegando pressões sobre a equipe jurídica do Senado para inocentá-lo.

 

Finalmente, em 6 de setembro, o PSOL entrou com uma quarta representação contra o senador, agora sobre a acusação de que este arrecadava dinheiro usando o esquema do PMDB nos ministérios.

 

Das quatro acusações, a única votada até agora foi a primeira. Esta foi aprovada pelo Conselho de Ética do Senado por 11 votos a 4 e na Comissão de Constituição e Justiça por 20 a 1. Ambas decisões foram tomadas em voto aberto. No voto dado no escurinho do plenário do Senado, Renan teve 40 votos e 6 abstenções a seu favor, contra 35 votos pró cassação.

 

Na reta final do processo, ficou claro que o governo Lula estava envolvido com as manobras para livrar Renan da cassação. Na quarta-feira, 12 de setembro, Renan Calheiros foi absolvido com o apoio maciço dos senadores da base do governo, inclusive a maioria dos petistas. Apoio com o voto claramente favorável ou através da abstenção, como fez, hipocritamente, o senador Aloísio Mercadante – pois, neste caso, a abstenção significava, de fato, tirar voto contrário à condenação. A defesa inicial pedindo a cassação foi feita pela ex-senadora e presidente do PSOL, Heloísa Helena, por ter sido este o partido que deu entrada na representação por quebra de decoro parlamentar. Não por acaso, as quatro defesas de Renan em plenário foram feitas por senadores da base do governo Lula, sendo dois do PT, Sibá Machado e a líder do partido na casa, Ideli Salvatti.

 

O resultado é, assim, mais uma desmoralização do Senado, do governo Lula e do PT. Este sai de um congresso com várias resoluções que formalmente procuram manter suas bases em setores populares. Mas, como se vê, parece que foram tomadas com aquele objetivo que o próprio Lula externou quando falou sobre a aprovação formal do apoio ao plebiscito sobre a re-estatização da Vale do Rio Doce: para fazer média com a militância e a sociedade. Assim, enquanto na votação aberta do Conselho de Ética seus membros votam contra Renan, o mesmo não ocorre no voto secreto do plenário. A absolvição de Renan Calheiros é, assim, a condenação do Senado, do PT, da base governista e do governo.

 

Mas a crise não se resolveu com esta votação. Ao contrário, pode até piorar. O Senado fica desmoralizado e o senador ainda terá que se submeter aos outros três processos que estão em andamento na casa, além do que corre na polícia e na justiça.

 

Em tempo: 40 foram os votos pró Renan. 40 os mensaleiros processados pelo STF. Número simbólico, este 40!

 

 

Jorge Almeida é professor de Ciência Política e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA). Autor de “Como vota o brasileiro” e de “Marketing político, hegemonia e contra-hegemonia”.

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