Por que derrubaram o general Flynn?

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O caso do general Flynn, afastado antes da posse de Trump por ter se reunido com o embaixador russo, quando foram tratados temas delicados, está fervendo nos EUA.

As teorias sobre o verdadeiro alcance do fato pululam. A mais frequente, adotada por grande parte da mídia, é alarmante para o governo atual.

O Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA e o embaixador estavam analisando a troca das revelações dos hackers russos sobre a candidatura de Hillary Clinton pela suspensão das sanções contra Moscou, na anexação da Criméia.

Se verdadeira esta interpretação, não justificaria o impeachment de Trump? Na sua carta de renúncia, o general admitiu que mentira ao vice, Mike Pence, quando disse que não se falara sobre essa suspensão. Mas garantiu que foram apenas menções esparsas.

Por sua vez, o Washington Post denunciou que nove agentes, membros de alto nível dos serviços de inteligência, afirmaram, sob anonimato, que as referências à ação eleitoral russa foram explícitas.

Seria, portanto, a prova de que Trump negociara as revelações dos hackers russos prejudiciais à candidatura Clinton e oferecera a retirada das sanções norte-americanas contra Moscou.

A ação dita criminosa do Conselheiro de Segurança Nacional, em favor dos interesses do seu chefe, justificaria o impeachment de Trump.

Claro, denúncias anônimas não servem de prova. Por isso mesmo os democratas pedem um inquérito do Senado sobre a questão. Talvez aí os agentes de inteligência sairiam do anonimato e, quem sabe, apresentariam cópia da gravação da reunião.

The Donald nega: fora uma reunião normal entre o já escolhido conselheiro e um embaixador russo.

Michael Flynn não poderia ser inculpado de nada grave. De fato, a única lei que poderia se aplicar contra ele, o Logan Act – que trata da interferência de cidadãos norte-americanos na diplomacia internacional – data de 1799 e nunca foi usada para processar alguém.

Foi, portanto, uma lei que “não pegou”. Não existe uma única jurisprudência em que se baseie a acusação para conseguir um veredicto favorável.

Conjecturas

Justificando Flynn, Michael McFaul, embaixador em Moscou no governo anterior, diz que se reuniu várias vezes com autoridades russas, antes da eleição de Obama em 2008. “Como ex-diplomata e autoridade oficial do governo, (afirmo que) a pessoa precisa estar apta a ter contatos com estrangeiros para fazer seu trabalho”.

Mas, dizem alguns comentaristas, o general mentiu para o vice-presidente quando negou ter tratado da suspensão das sanções durante a reunião.

Como é censurável usar dois pesos para duas medidas, convém lembrar o que aconteceu com James Clapper, chefe das agências federais de inteligência (CIA, NSA e FBI, entre outras) no governo Obama.

Num depoimento ao Congresso, em março de 2013, perguntado se a NSA coletava “qualquer tipo de dados” sobre milhões de estadunidenses, ele respondeu que não.

Três meses depois, documentos vazados por Edward Snowden provaram que ele mentira. Não deu para Clapper negar. E mentir sob juramento no Congresso é crime grave, que ameaça a vigilância constitucional dos congressistas sobre o Executivo.

Não obstante, nada aconteceu ao chefe da inteligência nacional, continuou no seu cargo durante anos.

Depois de ilibar Lynn, Trump referiu-se aos vazamentos da reunião rugindo: “isso, sim, que é o escândalo!”

Em parte, não deixa de ter razão. A revelação dos agentes poderia lhes custar até 10 anos de prisão, conforme as leis que penalizam a revelação de fatos sigilosos por funcionários do governo.

A segunda Guerra Fria?

Resta explicar porque nove agentes-sênior da inteligência ousaram encarar esta parada indigesta, arriscando suas posições no governo. E mesmo sua liberdade.

Seriam partidários de Obama, buscando denegrir Donald Trump para por em risco seu mandato? Seriam adversários da aproximação com a Rússia, mostrando o governo como aliado de Moscou, quando propõe o fim das sanções numa troca de favores com Putin, de olho numa aliança entre os dois países?

Ambas as teorias merecem consideração, embora a segunda tenha mais força no momento. Até surgir (se surgir) a transcrição da fatídica reunião, o “fora Trump” não tem chance. Mas, a aproximação EUA-Rússia já está comprometida por muito tempo pelas acusações que vêm de todos os lados a respeito de interferência russa nos assuntos norte-americanos, com a cumplicidade de Trump.

O que, aliás, tem potencial para acabar dando em impeachment. Mesmo que isso não aconteça, a ameaça russa ficou ainda mais impressa nas mentes estadunidenses, já trabalhadas nesse sentido há muitos anos por fortíssima campanha da grande mídia, políticos, militares de alta patente e grupos de direita.

Portadores desta ideia, os agentes envolvidos na delação veriam no general Michael Flynn o mais forte defensor das ligações perigosas de Trump, uma verdadeira ameaça à segurança nacional.

Diz o ex-candidato presidencial do Partido Democrata, Dennis Kucinich, na TV FoxBusinness: “o que está no centro disso (a reunião fatídica) é um esforço da comunidade de inteligência para derrubar qualquer relacionamento positivo entre EUA e Rússia”.

Para ele: “há pessoas interessadas em separar os EUA da Rússia de modo que este eixo militar-industrial-inteligência possa faturar”. E conclui Kucinich: a situação evolui para uma segunda Guerra Fria, caminho para um pote de ouro, o qual Flynn poderia obstaculizar.

Bem, faltam evidências ou mesmo indícios fortes. Mas existem motivos, condições e fatos similares, onde figuras do referido eixo atuaram em defesa dos seus interesses de lucro e poder.
Partimos aqui do fato de que a continuidade do péssimo relacionamento russo-americano tem tudo para provocar uma nova Guerra Fria.

Os negócios da guerra

Não há dúvida de que as indústrias de armas teriam muito a ganhar em uma nova contenda de tamanho porte, quando EUA e Rússia fatalmente aumentariam muito seus gastos militares.

Aliás, estas empresas já estão ganhando horrores graças aos conflitos na Síria, no Iêmen, na Europa Oriental e nos temores de guerra que atingem países como Irã, Israel e Arábia Saudita, além de muitas nações africanas cronicamente em guerra.

Diz o 2417 Wall Street site (em 13 de fevereiro): “a segurança nacional e a guerra são grandes negócios. Em 2015, o governo dos EUA gastou 598 bilhões de dólares, metade do seu orçamento discricionário (despesas que o governo pode ou não executar) com armamentos e outras despesas militares”.

No seu recente relatório anual, “As 100 Maiores Companhias Produtoras de Armas e Serviços Militares”, o insuspeito Instituto de Pesquisa da Paz Internacional, de Estocolmo, constata que as empresas norte-americanas dominam o mercado internacional, tendência que não deverá ser alterada.

A Lockeed Martin Corp. – a maior do mundo no seu setor – vendeu 36,44 bilhões de dólares em armas, lucrando 3,6 bilhões. A Lockeed é também a maior fornecedora de armas ao governo dos EUA, o que representa 78% do total das suas vendas.

Para se ter ideia do volume deste mercado, a 20ª classificada do instituto de Estocolmo, a Booz Allen, vendeu nada menos do que 3,9 bilhões de dólares em armas.

A amizade russo-americana teria muitas chances de por fim a muitos conflitos que geram os atuais saborosos lucros das indústrias bélicas. Sem falar que iria matar suas bilionárias esperanças de uma segunda Guerra Fria, capaz de aguçar a sede de armas das potências mundiais.

A história tem mostrado que a indústria militar costuma investir muito para evitar reduções de pedidos que perturbem suas perspectivas de lucros.

Segundo o Washington Post (28 de janeiro de 2012), a Lockeed Martin e suas congêneres General Dynamics e Rayheon, em 2011, gastaram 33,4 milhões de dólares com lobistas.  Num momento de crise financeira, em que governo e congressistas debatiam quais cortes fazer no orçamento.

Os lobistas agiram eficientemente, influenciando políticos dos dois partidos a pouparem os gastos militares dos temidos cortes.

Estima-se que o lobby das armas seja o primeiro ou segundo no ranking do lobismo dos EUA.
O site do Open Secret.Org revela que, em 2016, 218 empresas de armas gastaram quase 127 bilhões de dólares com lobistas.

Esses cidadãos encontram a maior receptividade no Congresso, entre os elementos dos dois partidos, adeptos do chamado War Party. Ou seja, aqueles que veem nas ações militares a melhor opção para encarar os países rebeldes à hegemonia mundial do bom Tio Sam. A maioria deles recebe nutridas subvenções das grandes empresas de armas para alimentar suas campanhas eleitorais.

É lógico que empresas e políticos fariam o que pudessem para tirar o general Flynn da frente dos seus lucros e das esperanças de multiplicá-los.

Mas, e os nove agentes sêniores de inteligência que, ao fazerem o vazamento, explodiram uma bomba contra o acordo pró-Rússia?

Sobre isso, transcrevemos texto da Al Jazeera (11 de janeiro de 2014). “Há milhares de lobistas em Washington para garantir as sempre crescentes despesas para guerra e segurança interna. Um maciço sistema de contraterrorismo criado para empregar dezenas de milhares de pessoas, com bilhões de dólares para buscar terroristas domésticos. Mesmo as pesquisas mostrando que a maioria dos cidadãos opõe-se a continuar as guerras no Iraque e no Afeganistão (acrescente-se que posteriormente também na Líbia, Síria e Iêmen), o novo complexo industrial militar continua facilmente a conseguir o necessário suporte dos democratas e republicanos no Congresso. É um testemunho desta aliança, na qual centenas de bilhões estão sendo aplicados nas guerras enquanto o Congresso planeja cortar bilhões de programas sociais essenciais, devido à falta de dinheiro”.

Isso aconteceu num ano de crise, mas demonstra que a indústria de armas não baixa a guarda quando as coisas estão difíceis.

Contam com o apoio dos outros integrantes da sua aliança em prol de crescentes compras de armas: os militares e a comunidade de Inteligência.

Os militares na eventualidade de uma nova Guerra Fria têm muito a ganhar – maior poder e maiores verbas – por se tornarem especialmente importantes para os países em conflito.

Por isso, no caso dos estadunidenses, a maioria deles tende a ver na Rússia, desde o fim da Segunda Grande Guerra, um inimigo mortal dos EUA. O maior de todos, por suas impiedosas forças nucleares.

Talvez nem um deles tenha participado de uma conspiração para vazar as conversas entre Flynn e o embaixador russo, com o fim de fazer naufragar a aproximação Trump/Putin.

O sistema contra Trump

Mas certamente muitos acreditam que houve uma troca do trabalho sujo dos hackers russos pela possível suspensão das sanções contra Moscou. E, de uma forma ou de outra, devem estar engrossando a campanha de condenação desse acordo secreto e dos seus mentores.

Por sua vez, a poderosa comunidade de inteligência, que hoje abrange dezenas de agências dedicadas ao contraterrorismo e à defesa da segurança, deseja manter seus poderes. O que, humanamente, considera fundamental para a nação.

Claro que, uma suavização do clima tenso das relações atuais entre duas grandes potências reduziria a grande valorização atual dos serviços de inteligência, que seria ainda maior no caso de uma segunda Guerra Fria.

Acrescente-se ainda que era sabida a disposição do general Flynn em propor uma reforma dos serviços de inteligência, por ele subavaliados.

Também devem ter acreditado na importância de sua ação para livrar o governo dos EUA de um general de ideias perigosas e os EUA de uma aliança que consideravam suicida.

Tudo isso deve ter motivado os ousados nove agentes da inteligência a fazerem o vazamento, criminoso pela Constituição que juraram defender.

Por fim, talvez deve ter pesado o desejo de ver Trump em má situação, talvez sujeito a um impeachment. Eles não devem gostar muito de um sujeito que os criticou repetidas vezes na campanha presidencial.

Esta hipótese é adotada por Philip Giraldi, ex-agente da CIA e hoje comentarista político, em artigo no American Conservative (16 de fevereiro):

“Portanto, parece que a destruição de Flynn, envolvendo, como pode ter sido, um número de ‘vazadores’ de toda a comunidade de inteligência, poderia ser parte de um esforço coordenado para diminuir as opções da Casa Branca de Trump para negociar com os russos”.

Certeza absoluta, não é possível ter. Mas, como dizem os italianos, “se non é vero é ben trovato”.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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