Os EUA aceitam Assad

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O governo Obama apoiou a revolução anti-Assad logo nos seus primeiros tempos. E foi até agora seu principal sustentáculo com dinheiro, armamentos, treinamento, apoio logístico e a organização de uma coalizão de países asiáticos e árabes.

Talvez a Arábia Saudita tenha entrado com mais dinheiro e mais armas, mas é indiscutível que as rédeas estavam nas mãos do governo norte-americano.

Sem demora, Obama declarou que Assad, por suas violências e ilegalidades, tinha perdido a legitimidade.

Por conseguinte, por decisão unilateral do presidente dos EUA, ele teria de cair fora e jamais poder voltar ao poder.

Bem, isso não foi nada democrático. Afinal, o presidente dos EUA não tinha poderes legais para destituir o presidente eleito pelo povo sírio.

E o resultado é bem  conhecido. Já tendo mais de seis anos de duração, a guerra síria tornou-se a maior catástrofe humanitária do século com a destruição da economia nacional, de cidades inteiras e a morte de 420 mil pessoas, além de cinco milhões de desalojados, que se espalharam por campos de refugiados no exterior.

Nos países vizinhos e na Europa, o ingresso de muitos milhares de fugitivos sírios gerou graves problemas, inclusive fortalecendo o ódio aos imigrantes e os partidos de direita que o incentivavam.

Enquanto a guerra assolava todo o país, com o exército de Damasco apoiado militarmente por Rússia e Irã e os rebeldes pela coalizão liderada pelos EUA, sua devastação causou horror em todo o mundo.

Muitas tentativas de se chegar a um acordo de paz se realizaram sob a liderança dos EUA e da Rússia.

Fracassaram sempre, esbarrando no veto total a Assad pelos EUA, Arábia Saudita e os diversos grupos rebeldes; e, na posição do governo e aliados, negando a saída do presidente.

A guerra, que começava a pender para o lado dos rebeldes, sofreu uma reviravolta a partir do segundo semestre de 2016, com a entrada maciça da Rússia.

Bombardeiros russos dando cobertura aos avanços do exército do governo impuseram derrotas seguidas aos adversários.

A tomada de Aleppo, maior cidade do país, sinalizou uma vitória provável de Assad. Mas não certa, nem rápida, os EUA, a Turquia e a Arábia Saudita não iriam aceitar facilmente.

Eis que, em 30 de março, em entrevistas à imprensa, em Ancara, o secretário de Estado Rex Tillerson surpreendeu o mundo.

Ele anunciou que os EUA passavam a aceitar que o povo sírio decidisse a sorte de Assad.

Parece irrepreensivelmente democrático. O governo Trump iria se concentrar na destruição do Estado Islâmico, um inimigo muito mais perigoso, uma verdadeira ameaça à humanidade.

De resto, para os EUA não haveria mais opções na Síria. Tanto as forças moderadas quanto os grupos jihadistas não tinham mais condições de enfrentar as tropas do governo por muito mais tempo.

O governo estadunidense teria de gastar muitos bilhões para lutar com eficiência em duas frentes: contra o Estado islâmico e contra Assad.

O orçamento não é ilimitado e Trump tem objetivos mais interessantes para investir o dinheiro do seu país.

Claro, tal gesto não implica numa paz garantida. De um lado, Assad, sentindo-se mais forte com o forfait dos EUA, tenderia a não fazer concessões.

De outro lado, os rebeldes e os jihadistas não vão aceitar de mão beijada a permanência de Assad no poder.

Mesmo assim, é de se crer num acordo definitivo que porá fim às hostilidades. Os estadistas russos e estadunidenses, que me parecem conscientes, saberão pressionar o presidente sírio a aceitar concessões razoáveis.

Talvez implicando na formação de um governo de transição, formado por governistas e oposicionistas, mas sem Assad, que teria direito a candidatar-se a presidente depois da fase de normalização.

Assad iria resmungar, mas acabaria se conformando, pois, sem Rússia e Irã, suas chances de vencer a guerra seriam irrisórias.

No outro lado, os rebeldes, principais inimigos de Assad, sem os EUA, ficariam sem chances.

A Arábia Saudita, mais preocupada com a guerra do Iêmen, e a Turquia, cujo grande alvo é destruir os curdos, até que gostariam de não precisar mais gastar recursos e armas na guerra síria, que lhes interessa menos.

Embora raramente, Trump também faz seus acertos. Dar início ao epílogo de uma guerra particularmente cruel foi certamente um deles. De longe, o mais importante, até agora.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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