O Russiagate começa a afundar

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No início da primava nos Estados Unidos, Jennifer Palmieri, ex-diretora de comunicação da campanha Clinton, expôs a estratégia do Partido Democrata ao Washington Post: “Se deixarmos claro que o que os russos fizeram (a suposta intervenção na eleição dos EUA) é nada mais do que um ataque contra nossa república, o público ficará do nosso lado. E, quanto mais nós falarmos no assunto, mais ele ficará conosco”.

Muitos analistas na América davam de barato que a causa era boa. Como dissera Hillary Clinton, em conferência na Califórnia: “de 17 agências, todas ficaram de acordo, o que pela minha experiência no Senado e na Secretaria de Estado é difícil de se conseguir. Elas concluíram, com o mais alto nível de confiança, que os russos dirigiram uma ampla campanha de informação de guerra contra a minha campanha para influenciar os votantes na eleição”.

Não era bem verdade. Posteriormente, o New York Times publicou, na edição de 29 de junho, que Hillary estava errada. Apenas três (CIA, FBI e NSA) das 17 agências de inteligência dos EUA integraram a comissão que afirmou ter havido interferência russa na eleição presidencial.

No entanto, personalidades insuspeitas de vários setores puseram dúvidas sobre essa conclusão.

Vejamos, por exemplo, o que diz William Binney, aposentado como diretor técnico de análises militares mundiais e de geopolítica da NSA: “Com respeito à alegada interferência da Rússia e do Wikileaks na eleição norte-americana, é um grande mistério as razões pelas quais a inteligência dos EUA sente-se obrigada a confiar em evidências circunstanciais... O meu conhecimento dos recursos da NSA mostra que a revelação dos e-mails deveu-se a vazamentos, não a hackers” (Consortium News, 24 de março de 2017).

No New York Times de 7 de janeiro de 2017, o jornalista Scott Shane pôs sua mão na ferida: “o que está faltando no relatório público (da investigação) é o que muitos estadunidenses mais ansiosamente esperam: firmes evidências que apoiem as conclusões das agências de que o governo russo planejou o ataque às eleições”.

Mas nada disso havia chegado ao público no início da legislatura atual. Concentrando-se na denúncia do suposto complô entre russos e governo Trump, a pregação dos congressistas democratas, apoiada pela imprensa, conseguiu criar sérias dúvidas sobre a lisura do comportamento do presidente.

Infelizmente, produziu também um efeito colateral nefasto: o incremento do ódio a Putin e aos russos, vistos como fantasmas, sempre ameaçando a paz e o american way of life.

Os líderes democráticos, empolgados pelo processo de destruição da imagem de Trump, caracterizado como aliado servil do maléfico Putin (madame Clinton chegou a chamar The Donald de fantoche do líder russo), continuaram a bater na mesma tecla, esquecendo de apresentar suas propostas e criticar as lamentáveis ações do novo governo.

Mas como diz o congressista democrata Peter Welch, “falar de Trump e da Rússia não faz uma agenda”.

A agenda que o povo norte-americano esperava dos democratas era muito diferente. Algo voltado para a crítica das restrições dos direitos e programas sociais; da política intervencionista dos EUA no exterior, a por em risco a paz; de restrições aos direitos dos imigrantes; de desrespeito ao meio ambiente; de cortes de impostos dos mais ricos; da derrubada do Obamacare, prejudicando milhões de pobres, entre outros pontos do governo Trump.

Ao lado desse tipo de ação, cabia aos democratas, como oposição, apresentar suas soluções contra os caminhos tortuosos da administração Trump.

Talvez pelo diagnóstico errado da configuração do momento político nacional, talvez por sua ligação (ou subordinação?) com o establishment – que se sente feliz com várias medidas do governo – os democratas embarcaram na nave furada do Russiagate.

E a todo o vapor. Assim, contribuíram, e muito, para afastar um entendimento entre EUA e Rússia, essencial para a sobrevivência do homem no planeta.

Já estão pagando por isso: em várias eleições suplementares para preencher cargos de congressistas que se retiraram por razões várias, os democratas foram derrotados. E olhe que tiveram por si um clima bastante favorável pela queda abrupta do prestígio de Trump.

Esse fracasso da bandeira do Russiagate foi confirmado por recente pesquisa Harvard-Harris, na qual 52% dos respondentes não acreditavam que Trump conchavara com Moscou para influenciar a eleição de 2016. E 62% diziam não haver evidências nas acusações de uma conspiração russo-americana.

Os resultados desta pesquisa e, especialmente, as derrotas nas eleições suplementares deixaram os líderes democratas em situação delicada.

Suas orientações são agora cada vez mais contestadas por congressistas e líderes de movimentos de base, que exigem uma mudança progressista, atendendo às expectativas das classes média e baixa, o tradicional público do partido, hoje praticamente perdido.

Pode ter chegado a vez de Bernie Sanders. Ou caso os chefões não lhe deem o devido espaço, a vez de um novo partido, formado pelos grupos que lutaram pela candidatura Sanders.

Um partido progressista, de centro-esquerda, como o Partido Democrata foi, um dia, muito tempo atrás.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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