Nomear o mais radical dos ultras: o que Trump tem na cabeça?

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John Bolton para assessor especial de segurança foi talvez a mais desastrosa nomeação de Donald Trump.

O J Street, organização judaico-americana, em uma opinião: “John Bolton é uma escolha completamente inapropriada para qualquer cargo relacionado aos interesses de segurança da América e suas relações com o resto do mundo. Estamos horrorizados pela sua nomeação para ser Conselheiro de Segurança Nacional e acreditamos que essa decisão do presidente põe em perigo a situação nacional do país e a segurança fundamental dos EUA e dos seus aliados, inclusive Israel”.

Por declarações e ações em favor das guerras preventivas, Bolton defende a política imperial sem limitações dos Direitos Humanos e do Direito Internacional.

Para ele, quem não está com os EUA está contra a ordem mundial, é um inimigo, por mais justa que seja a sua causa. E os aliados, façam o que fizerem, devem ser sempre apoiados por Washington.

É a velha oposição entre os good guys e os bad guys, de uso adequado nos bangue-bangues, mas não na política internacional.

Muitas personalidades norte-americanas pensam como Bolton, mas nenhuma delas se manifesta de maneira tão virulenta e inescrupulosa como o novo assessor de Trump.

Sendo subsecretário de Estado do governo Bush, ele foi um dos principais arquitetos da trama que reuniu e defendeu falsos argumentos para justificar a invasão do Iraque. A qual, ao contrário da maioria dos que a apoiaram (até Trump a critica), continua considerando correta.

Oriente Médio


Esteve sempre ao lado de Israel, em todos os seus pleitos. No governo Bush, quando o secretário de Estado Colin Powell afirmava que a política do governo não era atacar o Irã, Bolton, desobedecendo seu superior, viajou a Israel para planejar com os chefes locais o modo de criar fatos que obrigassem Washington a mudar de posição. Na visita de fevereiro de 2003, ele garantiu em reunião privada aos militares israelenses que os EUA atacariam o Iraque e, em seguida, o Irã e a Síria.

Recentemente, segundo o jornal israelense Haaretz, ele declarou que os palestinos não merecem um Estado, afirmando que a solução dos dois Estados (apoiada oficialmente por dois presidentes dos EUA) não era viável. O certo seria dividir Gaza e parte da Palestina entre o Egito e a Jordânia.
Claro, Bolton aprovou a mudança por Trump da norte-embaixada americana para Jerusalém.

Quando, com a abstenção dos EUA, o Conselho de Segurança da ONU condenou os assentamentos israelenses, Bolton relinchou que Obama havia “esfaqueado Israel na cabeça” e que a medida “pretendia claramente gratificar os palestinos.” Que ele odiava, assim como os islamitas de modo geral (excluindo os good guys sauditas e afins).

Numa entrevista com o notório islamófobo Frank Gaffney, ele concordou com a acusação de que o governo Obama estaria infiltrado através de uma conspiração secreta islâmica. Seria, pois, necessário que os funcionários públicos jurassem lealdade aos EUA e não ao Islã.

Em 2010, Bolton falou numa concentração de grupos de ódio anti-Islã e de extrema-direita, protestando contra a construção de uma mesquita no centro de Nova Iorque.

Para a Mondoweiss (23 março) a islamofobia de Bolton é inegável. Ele chefia um “instituto” que em 22 de março afirmou que a Grã-Bretanha havia se tornado uma “colônia islâmica” devido a suas falhas no combate à lei Sharia e que vizinhanças de maioria muçulmana nas maiores cidades da América são fechadas para os não-muçulmanos.

O quintal

A América Latina já foi (e deverá ser) alvo dos dardos do novo disparo de Trump. Ele sempre enfatizou que Cuba, Venezuela e Nicarágua vêm prejudicando os interesses estadunidenses na região (um crime, para Bolton).

Especificamente quanto a Cuba, ele tem sido um defensor de restrições mais fortes à ilha. Em 2002, sendo subsecretário de Estado no governo Bush, acusou Havana de tentar desenvolver amas biológicas e acrescentou seu regime à lista dos “eixos do mal” (McClatchys Bureau, 22-3). Mais tarde, ficou provado que se tratava de uma mera mentira.

Com o restabelecimento das relações diplomáticas dos EUA com Cuba, Bolton criticou Obama asperamente por sua decisão.

Geopolítica

Destruir o Irã, porém, é o principal objetivo da carreira desta flor espinhenta do jardim da extrema-direita, onde crescem também o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, o Al-Nusra, a AIPAC e outras espécies daninhas à civilização.

Diz a CBS News (22 de março), que durante muitos anos Jonh Bolton pregou a guerra contra Teerã, propondo o bombardeio do país nas suas constantes aparições na Fox News,

Em 2015, antes da celebração do Acordo Nuclear com o Irã, ele foi particularmente enfático: “O tempo está terrivelmente curto, mas um ataque ainda pode dar certo. Esta ação deveria ser combinada com um apoio vigoroso dos EUA à oposição iraniana, visando a mudança de regime de Teerã”.

Agora que, por iniciativa de Trump, está pintando uma guerra econômica entre e EUA e China, Bolton se sentirá à vontade para colaborar do seu modo: pondo fogo na questão.

Quanto aos grandes rivais dos EUA, a China e a Rússia, o novo assessor demonstra certa má vontade.

A China viria roubando os segredos intelectuais dos EUA, ele disse, concordando com seu novo chefe.

Bolton já disse que não confia em Putin e que, portanto, os EUA devem ampliar seus recursos militares e da OTAN para fazer frente ao urso das estepes.

São apenas alguns exemplos das múltiplas declarações que Bolton tem espalhado pelo mundo, desde os tempos de George W. Bush. Sempre extremamente radicais, quando não claramente falsas.

Não é alguém com essa folha corrida e total falta de equilíbrio que teria condições para assessorar The Donald. Especialmente agora que há perspectivas de guerras e mais conflitos internacionais.

Todos eles requerem muita diplomacia, coisa que o novo integrante da equipe da Casa Banca costuma dispensar. Para ele as ameaças militares e as guerras são sempre as melhores soluções para resolver problemas com outros países.

A guerra contra o Irã pode tornar-se inevitável diante dos desdobramentos da rejeição do Acordo Nuclear.

O Irã não teria como deixar de retomar seu programa nuclear, talvez agora com objetivos também militares. O que causaria o bombardeio do país por Israel e os EUA. E sabe Deus mais quem.

Sempre guerra

A segunda guerra viável estaria a caminho, contra o Hizbollah no Líbano, com possíveis ataques de Israel às fábricas de mísseis no país, possivelmente também invadido pelo exército israelense.

A conflagração se estenderia com a entrada do Irã e do Hamas, em defesa do Líbano e do Hizbollah, e dos EUA, a favor do seu grande aliado.

Finalmente, não dá para se considerar a fogueira nuclear coreana praticamente apagada. Apesar da interrupção da troca de xingamentos e bazófias entre Trump e Kim Jong-Un e da reunião entre os dois marcada para maio.

Várias vezes Bolton já se manifestou por um ataque preventivo dos EUA contra a Coreia do Norte. Há cerca de um mês, o novo assessor deu sua opinião sobre a reunião prevista EUA-Coreia do Norte.

“Eu penso que a sessão entre os dois líderes poderia ser muito curta, com Trump dizendo: ‘diga-me se você começou a total desnuclearização, porque não vamos ter uma reunião de negociações demorada. Me responda agora ou nós começaremos a pensar em alguma coisa diferente”.

Ou seja: se vocês não estão acabando já com seu programa nuclear, acabou a reunião e vamos pra guerra.

Não seria exatamente uma negociação diplomática, mas um ultimato. Kim ficaria diante de uma opção, ou submissão ou guerra, ainda que ele sabe será desesperada.

O conselho já foi dado por Bolton, cabe a The Donald demonstrar que ainda tem algumas migalhas de bom senso no seu conturbado cérebro e dar o contra no seu subordinado.

Teme-se que o radical assessor cante no ouvido presidencial soluções drásticas para encarar a China no conflito que se esboça e poderá evoluir para uma guerra comercial.

Rumos

Que detonará uma crise mundial, para prejuízo de todos os países. Caso Bolton venha com ideias beligerantes para tratar a situação ora mal parada entre EUA e Putin, espera-se que The Donald aja de acordo com seu recente tuíte: “se dar bem com a Rússia (e outros) é uma coisa boa. Eles podem ajudar a resolver problemas com a Coreia do Norte, Síria, Ucrânia, EI, Irã e mesmo com a próxima corrida de armamentos. Bush tentou se dar bem, mas não tinha ‘esperteza’. Obama e Clinton tentaram, mas não tinham energia ou química. PAZ ATRAVÉS DA FORÇA”.

Muitos analistas deram opinaram sobre a razão da bizarra nomeação de Trump. E também a de Pompeo, é claro, ambos são falcões da mesma ninhada.
Eles são fiéis seguidores do presidente, nunca o contrariarão, e igualmente adeptos das intervenções injustas dos EUA e do uso frequente da força militar de Tio Sam.

Teria The Donald decidido partir de uma vez para uma linha agressiva contra todos os países que de algum modo, atrapalhassem os EUA (inclusive os europeus), ameaçando liberalmente com o poder superior de suas armas e de sua economia?

O respeitável The Economist pensa de um modo muito interessante: “Ele (Trump) é a estrela. Irritado por análises variáveis da política internacional, contratou um falcão da guerra, o que o fará parecer ‘duro’. Espero que seja mais um espetáculo de um showman, e que os instintos beligerantes do senhor Bolton não terão rédeas livres. Mas, agora tudo é possível”.

Esperemos que mais esse show de Trump não acabe saudado com vaias, tomates e ovos podres pelas plateias do Oriente Médio.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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