Tática do presidente Sisi para vencer as eleições: afastar os concorrentes

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Na última eleição presidencial egípcia, em 2014, John Kerry, secretário de Estado do presidente Obama, ficou tão emocionado que disparou: “É um retorno à democracia”.

De fato, ela tinha sido suspensa, em 2013, por um golpe militar, sob liderança do general Sisi, que derrubou o governo Morsi, democraticamente eleito.

Sisi assumiu a presidência em caráter interino, com o objetivo declarado de preparar o país para um verdadeiro regime democrático, a se iniciar com a eleição presidencial de 2014.

Nessa fase transitória, Morsi declarou terrorista a Irmandade Muçulmana, casualmente a principal força de oposição. O que não é verdade – do contrário, a monarquia do Catar não receberia no país líderes da Irmandade.

Ignorando esse pequeno detalhe, Morsi tratou de caçar esses soi disant terroristas, prendendo-os em massa, especialmente os ativos.

Mas, não ficou nisso, também os liberais, esquerdistas, seculares e defensores de direitos humanos foram alvos de dura repressão.

Os críticos dizem que ele silenciou toda a forma de oposição no estilo dos déspotas pouco esclarecidos.

Um total de mais de mil manifestantes pacíficos contra a ditadura foram assassinados, segundo Sarah Leah Wilson, dirigente do Human Rights Watch.

No chamado massacre do sit-in (protesto sentado) da praça Rabaa, o exército matou 817 partidários do deposto Morsi. Sequer se abriu sequer um único inquérito sobre a ação militar.

Mesmo com essas ”realizações”, Sisi era para a maioria da população uma esperança, depois de dezenas de anos de governos que nada resolveram.

Como havia sido programado, foram marcadas eleições para 2014. Sisi candidatou-se.

Ele contava com total apoio da imprensa, que glorificava suas ações, além de uma intensa e bem articulada campanha de propaganda, garantida por imensos recursos financeiros.

Muito importante: Sisi, sem dúvida, tinha um certo carisma. Além, disso a maioria das figuras da oposição mais conhecidas estavam presas ou exiladas. Os remanescentes não dispunham das facilidades do general, nem de apoios, nem de dinheiro.

Sisi venceu por larga margem, mas a abstenção eleitoral foi tão grande que o governo deu mais um dia de prazo-extra para conseguir mais votos.

Pressionou o povo via imprensa, com incentivos e ameaças. Não adiantou muito. Somente 47% dos eleitores compareceram às urnas.

Infelizmente para Kerry, sua entusiástica proclamação saudando o advento da democracia egípcia, marcado pela eleição de 2014, acabou sendo uma furada.

Sisi não abrandou a fúria de sua repressão contra a Irmandade Muçulmana e outros grupos adversários do seu regime. No seu quadriênio, ele prendeu, processou e condenou 16 mil membros da Irmandade e muitos oposicionistas e manifestantes que não rezavam por sua cartilha.

Tentando resolver a situação altamente crítica do país, ele promoveu duras reformas econômicas, de olho em empréstimos substanciais do FMI. Mas, a redução pela metade do valor da moeda egípcia pesou drasticamente no bolso já meio vazio das classes pobres.

Sua imagem de salvador da pátria sofreu um sério desgaste. Nesse contexto, a proximidade das eleições marcadas para 26 e 28 de março de 2018 tirou o sono dos principais elementos do grupo do general-presidente.

Embora, a candidatura de Sisi à reeleição continuasse contando com abundantes recursos, apoios e a maioria da mídia relinchando em seu favor, poderia não ser suficiente para garantir sua vitória.

Foi considerado necessário barrar críticas na imprensa e em manifestações públicas que pudessem atingir o povo.

Táticas de intimidação poderiam fazer esse trabalho. O próprio Sisi encarregou-se de anunciar pela TV, em 2 de março, que insultos pela mídia ao exército e à Polícia seriam vistos como difamações, portanto, na lógica militar do país dos faraós, equivaleriam à traição, crime sujeito a pesadas penas (Middle East Eye, 3 de março).

Como é o governo que irá qualificar o que seria “difamação”, só indivíduos de coragem próxima da temeridade ousariam formular críticas. Como costumam ser muito raros, podemos admitir que, na prática, protestos contra órgãos de segurança do Estado estão duramente proibidos pelo regime.

O Middle East Eye teme que muitos repórteres se neguem a falar, com medo que sejam alvo da repressão. Aqueles que aceitarem vão certamente exigir anonimato.

Jornalistas estrangeiros independentes, que cobrem o Egito há três anos, também se sentem pressionados. Um deles informou ao Middle East Eye: “Recente comunicação do escritório do procurador-geral relaciona uma série de avisos e ameaças diretas à mídia”.

Em dezembro de 2017, relatório do Comitê Para Proteção dos Jornalistas (com sede nos EUA) relata que 20 jornalistas definham em prisões egípcias sob várias acusações, muitos acusados de divulgar notícias falsas ou colaborar com a Irmandade Muçulmana.

Cerca de 500 websites, incluindo dezenas de noticiários e publicações de defesa dos direitos humanos, como o independente Mada Masr e o site do Human Righs Watch foram bloqueados pelo Estado, de acordo com o Comitê para Proteção dos Jornalistas.

Mas a tática, talvez definitiva, foi o afastamento direto ou indireto de todos os opositores que haviam lançado poderiam lançar candidaturas à presidência.

O que teria mais chances de suplantar Sisi, o ex-chefe do Estado Maior do Exército, general Sami Anan foi preso por supostamente ter entrado na campanha eleitoral, estando ainda registrado como oficial da ativa.

Ele já recebera um aviso inequívoco de que sua campanha seria enfrentada com violência. Hisham Genena, ex-chefe da vigilância anticorrupção do Estado e porta-voz da campanha do general Sami Anan, foi detido ao sair de casa por cinco indivíduos, que o atacaram com facas e bastões, deixando-o seriamente ferido. Até hoje, os criminosos não foram identificados (Reuters, 27 de janeiro).

Outro adversário muito popular, Abdel Fotouh, ex-líder da Irmandade Muçulmana, foi colocado na lista dos terroristas, por ter espalhado notícias falsas que poderiam “prejudicar os interesses do Egito”.

Por sua vez, o procurador-geral decidiu sequestrar “os recursos de Fotouh” e de outros cidadãos inscritos na lista de terroristas, no decorrer de inquérito judiciário interminável no qual ele é acusado de usar seus fundos para “promover atividades terroristas”. Foutouh é réu em inquérito judicial interminável sem fim sobre existência de fundos usados pelo oposicionista para “promover atividades terroristas”.

Para não ficar atrás, o ministro do Interior de Sisi informou que o renitente Fotouh tinha mantido contatos com exilados no exterior para “semear problemas e instabilidade”.

O Guardian de 20 de março foca os afastamentos de mais três presumíveis candidatos a enfrentar Sisi nas eleições.

O ex-primeiro ministro Ahmed Shafiq foi deportado da União dos Emirados Árabes e, ao chegar no Cairo, teve de se retirar da disputa eleitoral.

O coronel Ahmed Konsowa foi preso por aparecer num vídeo de sua campanha à presidência usando uniformes militares.

Por fim, o advogado esquerdista Khaled Ali e Answar Sadat, sobrinho de um ex-presidente do Egito, caíram fora da disputa, alegando sofrer intimidações.

Apesar desta revoada de adversários, Sisi declarou, talvez com um certo cinismo: “juro por Deus, que eu queria ter um, dois, três ou mesmo dez pessoas ilustres concorrendo e aí vocês escolheriam”.

Solicitamente, um cidadão apressou-se a atender aos desejos do presidente. Mousa, nada menos do que um dos seus mais ardentes partidários, apressou-se em apresentar sua candidatura.

Seu partido tem uma longa história de colaboração incondicional com a ditadura militar do presidente Sisi.

Mousa garante que pretende disputar o pleito pra valer. Devia estar de brincadeira...

Recentemente, alguém colocou no Facebook uma foto do lançamento do candidato Mousa, vendo-se ao fundo cartazes da campanha Sisi.

Para não aborrecer o presidente, nenhuma das propostas de Mousa, apresenta, mesmo indiretamente, alguma referência negativa a qualquer dos temas ou ações do candidato oficial. Mostra que houve um cuidadoso trabalho de seleção.

Parece claro que o lançamento de Mousa foi só para mostrar ao mundo que o pleito egípcio não fugia da receita democrática.

Não seria negado ao povo seu direito de escolher. Haveria, isso sim, uma alternativa ao presidente Sisi. Acredite se quiser.

Atualização: Al-Sisi venceu as eleições com 97% dos votos válidos e 41% de abstenção dos eleitores.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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