Crime sem castigo

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Resultado de imagem para mais de 100 mortes palestina
117 mortos e cerca de 11 mil feridos. Em 19 de maio, esse era o total das vítimas na manifestação perto da fronteira Gaza-Israel.

Há duas interpretações sobre esse evento: EUA e Israel, de um lado, e toda a comunidade internacional, do outro, divergem.

A embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, somou-se ao coro da Casa Branca, minimizando a mortandade.

Nenhum outro país do mundo teria agido com mais moderação do que Israel.

Não me parece que escalar 100 snipers (atiradores de elite) para alvejar quem se aproximasse da cerca divisória ou se destacasse nos protestos, fosse uma forma moderada de lidar com uma manifestação pacífica.

Por causa desta, digamos, tática, o número de vítimas foi tão alto. É um “feito” digno dos governos nazista e comunista, numa época em que seus países não poderiam ser chamados de civilizados.

A mesma embaixadora Nikki Haley, que tem se revelado uma exuberante chacrete de Trump, e o próprio exército de Israel, entre outros, sustentam que o culpado do morticínio foi o Hamas.

Esse movimento, dito terrorista, que governa Gaza, teria organizado a manifestação. E pior: convencido ingênuos moradores de Gaza a tentarem romper a cerca. Como os soldados israelenses fatalmente atirariam, esses civis seriam usados como bucha de canhão, para detonar a opinião pública mundial contra o exército de Israel.

O +972 magazine ouviu al Kurd, um dos organizadores do protesto. Ele informou que entre as 20 pessoas que planejaram a “Grande Marcha de Retorno”, apenas duas eram membros do Hamas. Foi só num segundo momento que, tanto esse partido quanto todos os demais partidos palestinos, trouxeram seu apoio.

Rupert Colville, porta-voz do Conselho de Direitos Humanos da ONU, pondera que, mesmo que o protesto tivesse sido obra do Hamas, não se justifica a matança dos participantes de uma manifestação pacífica.

Trump, Nikki Haley e muitos semelhantes, inclusive o porta-voz da Casa Branca, Raj Shah (Al Jazeera, 14 de maio), vieram com esta: “Israel tem o direito de se defender”.

Claro que tem.

No, entanto, o major Danny Sjursen (professor em West Point) acha que não é bem assim: “Para respeitar a moral e a lei internacional é permitido matar somente combatentes e usar apenas a força necessária para remover uma ameaça. Uma olhada no vídeo (que mostrava a repressão na fronteira) fala por si: os soldados de Israel pensam que estão acima da lei, de qualquer lei”.

Fotos e vídeos mostram claramente que os snipers de Israel estão matando civis a tiros, usando força excessiva contra meros estilingues (“arma” para lançar pedras), aliás, portados por pequena parte dos manifestantes. Violam assim leis internacionais, que Israel e seu protetor, os EUA, não hesitam em violar quando lhes convém. Os assentamentos, a embaixada norte-americana em Jerusalém, a anexação de Gaza e a destruição das casas das famílias de terroristas são alguns exemplos.

Talvez para amenizar as perdas humanas no incidente, o exército de Israel revela que o Hamas planejava abrir brechas na cerca para terroristas entrarem em Israel e lá massacrem israelenses (Times of Israel).

Não fornece qualquer prova dessa afirmação; 70% dos habitantes de Gaza são palestinos ou seus descendentes, expulsos pelas milícias e o exército israelense, em 1948 e 1967. Devem compor a maioria dos manifestantes.

Querem demonstrar que não desistiram, nem desistirão, de seu sonho de voltar a Israel, protestando na fronteira. Alguns tentam levar seu protesto mais longe ao procurar penetrar no território israelense abrindo brechas na cerca da fronteira.

É o que as imagens dos inúmeros vídeos que circulam pelo youtube mostram. Nenhum manifestante portava armas, no máximo viam-se alguns com estilingues. No caso de conseguirem furar a barreira, não teriam como praticar massacres. No máximo, lançar pedras contra alguma inocente vidraça.

Poucas autoridades dos EUA ou Israel ousam falar no maligno plano do Hamas, denunciado pelo exército. Possivelmente teriam vergonha tal o exagero dessa mistificação.

Mas a grande maioria ressalta que os snipers atiram somente naqueles palestinos que chegam perto demais da cerca.

Rupert Colville, falando em nome da entidade de direitos humanos da ONU, diz que esse rigor passa dos limites: “o simples fato de alguém se aproximar da cerca não é um ato letal, que ameaça vidas, portanto, não se justifica que se atire nessa pessoa”. Ele diz que de acordo com a lei internacional, “força letal pode somente ser usada como último, não primeiro recurso”.

Por exemplo, jornalistas e médicos, trabalhando no local da manifestação, não poderiam ser alvejados. O exército de Israel garante que eles jamais seriam alvos dos snipers.

O problema é que foram. Já há diversos casos de jornalistas baleados. Alguns morreram.

As autoridades israelenses alegam enganos. Coisas inevitáveis numa guerra. Mas a morte e os ferimentos causados em dois médicos prova que essa desculpa não serve.

Um deles, o canadense Tarek Loubani, foi atingido nas duas pernas. Pior sorte teve um integrante de sua equipe, o doutor Musa Abuhassanin, morto por uma bala israelense. Ambos alvejados quando atendiam manifestantes feridos.

Parece que foram intencionalmente baleados, pois, como o doutor Loubani publicou em uma nota, os dois médicos vestiam as roupas de sua profissão e se aproximaram dos feridos com as mãos erguidas, para mostrar que estavam desarmados (Mondoweis, 17 de maio).

Não havia como errar. E os snipers não erraram...

Diz o médico canadense: “é muito difícil de acreditar que eu não fui especificamente alvejado, considerando que eu fiz uma pausa no tratamento e estava claramente identificado (The Guardian, 17 de maio)”.

No dia 14 de maio de 2018, o Kuwait apresentou ao Conselho de Segurança da ONU uma proposta de criação de uma comissão independente para investigar os graves fatos ocorridos na fronteira Gaza-Israel.

Apoio quase unânime, só os EUA foram contra. Mas, como tem poder de veto, a investigação não será feita.

A única esperança está no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Como lá os EUA não mandam, o massacre da fronteira deverá provavelmente ser investigado.

Infelizmente, esse Conselho não tem poderes para punir países, entidades, pessoas, quem quer que seja.

Poderá apenas revelar ao mundo mais uma ação criminosa de Israel, da qual os EUA são cúmplices.

Criminosa, sim. Um Estado que mata pessoas indiscriminadamente está cometendo um crime.

Para o qual, dadas a limitações da ONU, não haverá castigo a não ser a condenação moral da comunidade internacional. Isso os EUA não podem vetar.

Leia também:

Israel e Palestina em 2018: paz, não. Descolonização




Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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