Na Arábia Saudita, lugar de feminista é na cadeia

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As mulheres sauditas estão muito felizes porque a partir de 24 de junho poderão guiar seus carros. As ativistas feministas merecem parabéns, pois lutaram muitos anos para conseguir essa concessão.

Para o governo do rei Salman e do seu filho, Mohamed bin Salman, o que elas merecem é cadeia; 10 destas audaciosas senhoras já foram presas. E outras mais terão o mesmo destino, conforme informação de fontes policiais. Todas elas se acham em lugar desconhecido.

Qual o motivo desta inusitada decisão?

Diz o governo de Riad que as feministas mantiveram contatos suspeitos com entidades estrangeiras e ainda oferecem apoio financeiro para inimigos d’além mar.

Quais entidades estrangeiras? Que assuntos trataram? Quais inimigos?

Nada disso foi informado à imprensa. Nem precisava.

Sendo a mídia local controlada pelo Estado, sua preocupação foi, isso sim, agradar o palácio real, atacando as feministas, com manchetes berrantes. Elas seriam um bando de “traidoras”. Só faltou dizerem que recebiam pagamento do infernal Irã.

A Anistia Internacional, é claro, protestou e publicou o nome de quatro das detidas, todas elas, desde 1990, ativistas pelos direitos das mulheres.

Veja só o prontuário dessas moças: Eman al-Naf Jan e Aziza al-Youssef participaram de um protesto contra a proibição de dirigir, em 2013, sendo que Youssef escreveu uma petição pelo fim do sistema de guardiães, coassinado por Nafjan e Loujain al-Hatloud, enquanto Aisha al-Manea também atuou ao lado das outras três.

Para alguns observadores, seu crime foi serem vistas como decisivas na conquista do direito das mulheres dirigirem.

Ora, o príncipe Mohamed bin Salman, MBS para os amigos, quer mostrar que a revogação da injusta proibição se deve a ele, e somente a ele, o “grande reformador”, que estaria modernizando a Arábia Saudita.

Fontes de grupos feministas relataram à agência Reuters que, cerca de 20 participantes da campanha pelo direito em causa receberam telefonemas, ordenando que não comentassem o decreto de concessão. Uma ativista anônima (por razões de segurança) contou que várias parceiras estavam aterradas, pois suas contas em jornais e mídias sociais foram simplesmente cortadas.

Em suma, deveriam esquecer a discriminação que combateram por tanto tempo, como se não tivessem nada a ver com a questão, deixando todas as glórias para MBS.

Há outro motivo para a inesperada prisão: o príncipe MBS não quer que as mulheres, eletrizadas pelo direito conquistado, ganhem força para lutar por outras reivindicações.

Isso está totalmente fora das perspectivas principescas. Ele não admite vir a compartilhar com essas feministas possíveis reduções na vasta coleção de discriminações que pesam sobre as mulheres sauditas. A solução parece ser cortar o mal pela raiz, prendendo as ativistas e assim pondo um ponto final na sua movimentação.

Na verdade, o que as autoridades sauditas mais temem é que as feministas partam para uma campanha contra o sistema de guardiões.

Esse milenar sistema (e põe milenar nisso) exige que, para uma série de decisões da vida diária, como casar, estudar, receber tratamento médico e viajar, a mulher precisa ser autorizada por seus pais, irmãos, marido ou até mesmo pelos filhos (The Guardian, 22 de maio).

As mulheres são assim consideradas seres de segunda classe, adultos com mente de criança.

Era como as primitivas tribos que habitavam a Arábia Saudita, antes mesmo do islamismo, as tratavam. Nesse particular, a moderna civilização do reino do petróleo não mudou.

Como não pretende mudar tão cedo, MSB deseja cortar as asas das feministas. Prender, condenar e assustar visando restringir ao máximo o espaço do movimento contra o sistema de guardiães e outras beneméritas instituições que bin Salman deseja manter, enquanto achar conveniente.

Sucede que o movimento feminista considera o fim dos guardiães essencial na sua luta pelos direitos das mulheres.

Enquanto isso não acontecer, outras mudanças em favor do sexo feminino não passarão de medidas paliativas.

No entanto, mesmo que Sua Alteza resolva dar o braço a torcer e aceite a igualdade das mulheres, seus direitos humanos continuarão comprometidos enquanto a Arábia Saudita continuar uma monarquia absoluta.

Onde a população xiíta é perseguida e não há eleições, nem partidos políticos, nem liberdade religiosa (a prática de religiões diferentes do sunismo oficial só é permitida em recintos fechados), nem liberdade de expressão, nem judiciário independente e as prisões arbitrárias são frequentes.

Justamente por lutarem por esses direitos, em setembro de 2017, perto de 30 ativistas e dissidentes foram presos e sujeitos a penas que vão a até 15 anos de cadeia.

Segundo Donald 1º, a Arábia Saudita e os EUA têm os mesmos valores (Washington Post, 21 de maio de 2017). Os bilhões de Riad valem bem um despautério.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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