Um panorama de nuvens para a esquerda brasileira

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Donald Trump foi o centro das atenções nas timelines brasileiras do Facebook nesta semana, aparecendo como o fim do mundo numa espécie de inversão do 11 de setembro, data da queda das Torres Gêmeas. Antes mesmo da sua posse, aparece como símbolo da onda conservadora que domina o mundo no discurso esquerdista. Discurso que não tem mais lugar no mundo globalizado, por mais que a globalização mostre seus sinais de estagnação e nacionalismos cada vez mais exacerbados.

 

Enquanto isso, o Congresso brasileiro avança em diferentes sentidos que convergem para a consolidação do governo Temer, ainda ameaçado pelo TSE, em especial por conta de uma doação da Andrade Gutierrez. Sua cassação neste momento levaria a uma eleição indireta que pode ter em Fernando Henrique Cardoso um nome a ser reconduzido à presidência da República – ainda que pareça arriscado para o PSDB, pois surge como partido favorito nas eleições de 2018 ao considerarmos a derrocada do PT e um giro no pêndulo da polarização política que já dura 22 anos e ancorada pelo PMDB.

 

Entre as medidas recentes aprovadas no Congresso podemos listar, sem ordenamento de importância: Renan Calheiros, logo ele, pediu investigações de quem ganha acima do teto do funcionalismo, que não cansa de assumir uma postura vitimista frente à crise que se agrava; o Senado aprovou uma reforma política em primeiro turno, cujo principal destaque é impedir coligações (o que, como efeito colateral de um projeto encabeçado por Aécio, pode ser bom para a esquerda); a Câmara Federal acabou com a participação obrigatória da Petrobras no pré-sal; também o Senado tornou as faculdades particulares responsáveis pelas despesas do FIES com os bancos. Tudo isso passa batido pela esquerda que ocupa escolas e universidades contra a PEC 55 (antes 241), que estabelece um teto de gastos que seria feito com ou sem Temer.

 

Como diz Salvador Schavelzon, numa bela entrevista, “a esquerda brasileira fala para si mesma sem uma real conexão com a sociedade”. Em que pese uma nova onda de ocupações de escolas e universidades, o viés esquerdista acaba criando um gueto que não consegue contaminar a sociedade: as pessoas continuam pegando transporte para trabalhar, correndo atrás da vida e não parecem se importar muito com o que está em curso nas escolas e universidades.

 

Por outro lado, aparecem alguns prejuízos derivados das investigações da Lava Jato, essa operação que só é saudada pela esquerda quando não atinge o PT, o fóssil da esquerda que se recusa a assumir a derrota e foi massacrado nas eleições municipais, dando uma prévia do que pode ser 2018, quando algum Trump brasileiro ganhar a presidência. Entre os prejuízos: SBM Offshore tem queda de receita de 11%; governo do estado do Rio de Janeiro decreta calamidade pública; a Queiroz Galvão Exploração e Produção anunciou queda de 50% no seu lucro – que deve continuar exorbitante...

 

Torna-se importante sinalizar a reunião do ex-ministro de Dilma, Joaquim Levy, agora no Bird, com a equipe do atual Ministro da Fazendo, Henrique Meirelles, nesta quarta agitada, mostrando alguma continuidade entre os arranjos de Dilma e Temer. Isso ao lado do fato de Joaquim Barbosa (ex-STF, do julgamento do mensalão petista) começar a despontar como candidato à presidência; tem o atenuante de que é muito melhor que Trump e não tão queimado quanto Lula, ainda que este resista.

 

Por fim, o movimento #QueroPrévias vem ganhando um espaço que ficou vago com a derrocada do PT. Vale a pena acompanhar seu desenvolvimento para saber se ainda existe uma saída no campo que se denomina progressista. A esperança está sempre acesa, mas as nuvens estão deixando o terreno difícil de encontrar uma saída, que não deve ser pela esquerda, mas pela moderação que consiga conciliar interesses pelo menos no cenário configurado pela institucionalidade.

 

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Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do Programa de Pós-Graduação da UFRJ.

 

 

 

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