A importância da força das ruas no domingo

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Protestos convocados inicialmente pelo “Vem pra Rua” causam polêmica no campo das esquerdas brasileiras. Neste momento em que o arranjo Temer se encontra nas cordas, as esquerdas optam por “denunciar” o “golpe dentro do golpe” nos sites de rede social Facebook e Twitter, com raras exceções, como Pablo Ortellado e Salvador Schavelson. Os grupos tidos pelos mais puristas esquerdistas como “direita” prometem lotar as ruas das capitais brasileiras exercendo uma pressão que pode ser fatal para o governo que se estabeleceu a partir do impeachment da ex-presidente Dilma. E pelo visto vão colher os louros disso como mobilizadores da sociedade brasileira.

 

Quero destacar que existem algumas diferenças entre o Movimento Brasil Livre (MBL) e o “Vem pra Rua”. Esses dois grupos parecem estar num dissenso. O MBL se cacifa como o elo entre o governo Temer e o esboço de sociedade civil que temos construído e o “Vem pra Rua” como uma plataforma de mobilização sociotécnica que parece pressionar o arranjo que nos governa. No extremo oposto desses dois grupos fica a Mídia Ninja como mediadora do campo das esquerdas. Tudo isso numa visão bem esquemática que pretendo desenvolver como parte da minha pesquisa atual “Revoltas conectadas: movimentos em rede e midiativismo”.

 

A posição da maioria das esquerdas é de não se misturar, apostando em uma radicalização guetificada que, se confirmada, abrirá espaço para uma venezuelização de fato no contexto brasileiro. A disputa por protagonismo em torno de um ato pode até dar um sopro de esperança para o governo Temer, que sofreu vários abalos na semana que se encerra: ataque dos procuradores da Lava Jato mediante o descarte do pacote anticorrupção montado por eles, delação da Odebrecht, Renan Calheiros se tornou réu por peculato (logo ele, o fiel da balança dos arranjos Dilma e Temer), pressões do PSDB por mais espaço no governo e até mesmo pela queda de Temer. O arranjo Temer balança e pode cair. Claro que vai depender da capacidade de mobilização que se fala neste domingo.

 

A questão é pragmática: a porteira está aberta e se as esquerdas se fecharem em si a possibilidade de eleições diretas vai se transformar em indiretas e Fernando Henrique Cardoso será o pacificador nacional de 2017 em diante, pavimentando a volta do PSDB ao governo federal em 2018. Uma grande mobilização multicolorida que se faça permanente para além de domingo com atos diários espalhados pelo país pode fazer com que Temer renuncie, tendo em vista que o TSE não me parece muito apto a julgar a cassação da chapa Dilma-Temer antes do fim do ano.

 

Precisa se misturar com “defensores de intervenção militar” ou “bolsominions”? Nem chego a tanto. Basta marcar atos paralelos e estar nas ruas no domingo de forma a produzir um ‘enxameamento’ multitudinário que atualize junho de 2013, este sim um acontecimento que embaralhou as cartas rígidas da distinção esquerda/direita. Neste momento o que importa é rasgar o arranjo Temer, até porque pode ser a única chance de ter Lula concorrendo como grande mártir e chances reais de ser eleito numa eleição direta que pode ter Marina e um nome do PSDB como principais postulantes.

 

As cartas embaralhadas da esquerda e da direita estão na mesa. Domingo eu vou pra rua, talvez não de vermelho, pois o simbólico conta muito, mas neste momento não dá para achar que o gueto identitário esquerdista prevalece sobre o desejo e a indignação que contamina a sociedade, sob pena de perder o trem da história. É a escolha que se faz para valer os que gritaram bravamente #ForaTemer desde que Dilma foi afastada em maio: vão morrer na praia em nome do orgulho e de uma identidade que gira em torno do PT, partido em franca decadência?

 

A sorte está lançada.

 

 

Marcelo Castañeda é cientista social e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ.

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