Estados Unidos e Brasil – a cizânia em torno do Irã no governo Lula

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No primeiro semestre de 2010, o penúltimo do mandato do presidente Lula da Silva, o Brasil ideou de maneira coletiva um objetivo cobiçoso a 189 países na revisão quinquenal do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) em maio, precedida de encontro no mês anterior nos Estados Unidos: o de desnuclearizar de modo gradativo os membros vitalícios do conselho de segurança das Nações Unidas, os chamados cinco permanentes. Na prática, tal aspiração jamais prosperaria por ser irreal.

Acrescente-se que Coreia do Norte, Índia, Israel e Paquistão não subscrevem o acordo até o momento.      

Assim, a utópica medida adveio, em março, da Coligação/Coalizão da Nova Agenda, instituída em 1998 em Dublin, composta por México, Nova Zelândia, Irlanda, Suécia, Egito, África do Sul e Eslovênia – logo depois, esta se retiraria da agremiação.

Destarte, haveria na visão do ‘hepteto’ a vontade de eliminar de forma progressiva os estoques de tal jaez, bem como o desenvolvimento de modalidades novas voltadas para o emprego militar – clique aqui e saiba mais.

O agrupamento esperava contar com a alteração do posicionamento norte-americano no tocante à questão, em decorrência da substituição de um dirigente republicano conservador, George W. Bush (filho), por um democrata, Barack Obama, observado como progressista.

Por um lado, o novo titular da Casa Branca expectava na possibilidade de renovação do TNP pressionar países considerados transgressores - ao vinculá-los de algum modo com entidades terroristas - entre os quais um dos mais figadais adversários contemporâneos dos Estados Unidos: o Irã sob administração de feitio xiita.  

Por outro, o Brasil posicionava-se de maneira acautelada sobre o estabelecimento de um banco global de urânio enriquecido, por enxergar restrições ao desenvolvimento pacífico da tecnologia nuclear como a aplicada ao combustível, por exemplo, autorizada pela Constituição Federal de 1988.

Ademais, não observava com entusiasmo a adesão ao Protocolo do TNP por meio do qual o Brasil autorizaria a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a vistoriar sem reservas suas instalações como o segmento de centrifugação, considerado de vital interesse por ter sido fabricado com tecnologia nacional e por ser o país detentor de reservas estimadas de urânio entre as cinco maiores do planeta – saiu nos grandes meios.

Na perspectiva da diplomacia local, o Planalto, ao compor o grupo de fornecedores nucleares, não precisaria de mais uma alçada de fiscalização. Outrossim, ao abarcar todo o processo de produção do combustível, o país poderia exportá-lo sem amarras das seis fabricadoras existentes – Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha, Grã-Bretanha e Países Baixos.

Opção viável do ponto de vista econômico, a remessa eventual, visto que a ambição de dobrar o número de usinas pátrias – de três para seis – seria suspendida com o advento da estagnação econômica entre o encerramento do primeiro e o começo do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Na reunião ocorrida na capital estadunidense, quase meia centena de países reuniu-se, sob a coordenação do anfitrião, com a finalidade de prevenir a difusão do terrorismo nuclear. Nesse sentido, nenhum dos participantes opôs-se em tese à necessidade de conjugar esforços para impossibilitar o acesso a plutônio e urânio a grupos extremistas ou governos renegados.

O entrave político seria o firmamento de um consenso em torno de quais associações ou gestões seriam avaliadas como foras da lei. Naquela altura, a preocupação de Washington centrava-se em Teerã e Brasília era vista como crédula ao acreditar em outra via para o programa nuclear persa.



Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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