Estados Unidos e Brasil – ainda a quizília sobre o Irã

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É possível especular sobre a insistência do Brasil, ao lado de maneira excepcional da Turquia, em mediar a regularização da política nuclear do Irã junto à comunidade internacional, em especial aos recalcitrantes Estados Unidos.

Seria a atuação parte do credenciamento – ou amadurecimento – político para hipotético surgimento de vaga como membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

Na longa tradição lusa, à medida que não há possibilidade de participar dos assuntos globais através do poderio militar, o diplomático vem de maneira natural à tona. Diante de Washington, Brasília apostou alto com a periclitante situação de Teerã naquela fase. Embora seus esforços tenham sido corretos, ao almejar a paz na conturbada região do Oriente Médio, o país não teria êxito, a despeito de protocolo aceito pelo governo iraniano.

De modo lamentável, ele ainda sairia desgastado aos olhos estadunidenses ao ser visto como ator ingênuo – manipulável – pela administração persa. Na movimentação de peças do intricado jogo de poder, a chancelaria brasileira de forma involuntária teria possibilitado à iraniana, em tese, tempo para avanço nos testes voltados a fins bélicos.

Ao subscrever tal visão, a Casa Branca desabonou sem reservas o Planalto pela medida, malgrado a iniciativa positiva. Os Estados Unidos posicionavam-se a favor de levar a questão de forma imediata ao Conselho de Segurança com o fito de punir de modo direto o Irã, não de admoestá-lo ou nem sequer de orientá-lo.

Nesse sentido, até revistas em alto mar poderiam ocorrer com a frota iraniana, a fim de verificar se existiriam componentes militares de matiz nuclear nos depósitos. Outrossim, restrições financeiras seriam levadas a cabo no exterior, desde que conectadas com o desenvolvimento desse programa controverso.   

Brasília e Ancara defender-se-iam de maneira conjunta, ao enfatizar o valor do diálogo no episódio em comento, não seu repúdio, como enxergavam na posição estadunidense. Ambos declarariam ter tido como norte principal documento enviado aos dois de modo reservado por Washington.

Pouco tempo depois, o presidente Lula da Silva desabafaria no 10º Michelin Challenge Bibendum, ao mencionar que o Brasil não era um país de segunda classe; portanto, não deveria ser desrespeitado por ter alcançado sucesso em um tópico em que nem a maior superpotência havia conseguido avançar.

No fim, todavia, o Planalto reconheceria que iria respeitar a decisão onusiana de castigar o Irã, malgrado tentativas de tocar os integrantes do Conselho de Segurança, à exceção de Downing Street e naturalmente da Casa Branca. Desta vez, seria o retorno momentâneo do realismo e o reconhecimento dos limites do país como potência, mesmo se observada de forma otimista como ascendente.

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Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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