Estados Unidos e Brasil – a frustração derradeira com o status nuclear do Irã

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Em decorrência de política atômica de destinação incerta aos olhos da sociedade mundial, a intermediação do Brasil e da Turquia entre Estados Unidos e Irã foi sem sombra de dúvida importante, embora sem êxito no final.

A mobilização de ambos com vistas a estabelecer um padrão aceitável para o programa nuclear do regime persa diante da comunidade internacional foi consistente, apesar do injustificável desagrado norte-americano, optante por novas sanções através da Organização das Nações Unidas.

Encerrada a iniciativa das duas médias potências na questão, permaneceria o registro histórico para posterior análise de uns ou a memória política para a recordação de outros, em especial dos envolvidos.

Como forma de consolação, Washington propôs a Brasília continuar no papel de mediador com Teerã, algo rejeitado de chofre e de maneira apropriada pelo Planalto. Ampliar o grau de punição ao polêmico governo não auxiliaria a distensionar aquele regime controverso, mas a desaguar em situação contrária. Era essa a avaliação do Planalto.

No Conselho de Segurança onusiano, a posição de moderação do Brasil recebeu o apoio da Turquia e do Líbano – na votação, no entanto, este se absteria. Portanto, os demais membros conciliares, mesmo as de início reticentes China e Rússia, acompanhariam o férreo posicionamento dos Estados Unidos.

A atenção do Brasil na regularização do Irã decorreu também do interesse econômico, uma vez que se havia cogitado a participação da Petrobras no setor petrolífero daquele país. Com o incremento das sanções, não valeria a pena correr o risco perante as grandes potências.

O acontecimento, a despeito da importância em determinado momento, não deveria ter desaguado em reconhecimento maior após sua conclusão. Todavia, o trabalhismo tentou utilizá-lo como fator de estímulo a uma premiação do Nobel, no caso a da paz, em 2011, para o presidente Lula da Silva. Aquela recente incursão diplomática em terras médio-orientais somava-se à oposição à fome e à pobreza global.

A menção a possível Nobel parece ter tido pouca repercussão interna e externa, visto que se estima na casa de duas centenas os indicados anualmente a ele, embora o dirigente dividisse no ano seguinte o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize) com seu similar ganense, John Kufuor.

Na altura da concessão da premiação, os dois haviam encerrado seus mandatos: o brasileiro, porém, estava em alta conta não só dentro do território nacional, dado que pesquisa do Barômetro Iberoamericano de Governabilidade de 2010 havia reconhecido nele o maior índice de popularidade entre todos os governantes do continente. Sua sucessora no primeiro ano de gestão (2011) lograria o terceiro lugar (ver aqui e aqui).

Sete anos depois, situação similar em termos de popularidade se reproduz no quadro interno, quando se avalia no desgastado trabalhismo o nome mais apropriado para pleitear a presidência da República em 2018.

Leia outros artigos do colunista.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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