Estados Unidos e Brasil – o balanço provisório de Lula sobre sua política externa

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Ao ser eleita sem muita dificuldade em outubro de 2010, havia a expectativa de que a vitoriosa Dilma Rousseff fosse aos Estados Unidos em dezembro avistar-se de modo oficial com Barack Obama.

O propósito seria o de apresentar-se e, quiçá, ser avaliada ou ainda cotejada com a postura administrativa de Lula da Silva, apesar da desnecessidade disso, dado que ela havia encabeçado a Casa Civil desde junho de 2005 - em março de 2010, ela deixou o cargo para preparar-se para a campanha.

A justificativa para ela não deslocar-se a Washington era a impossibilidade de conciliar agendas dos dois dirigentes. De toda sorte, a Casa Branca informava que o mandatário norte-americano poderia viajar ao Brasil no primeiro semestre de 2011.

Antes disso, Bill Burns, subsecretário de Assuntos Políticos do Departamento de Estado, viria à capital encontrar-se com ela – embora a pauta fosse reservada, especulava-se que, ao menos, dois assuntos viriam à baila: Irã, por conta do controvertido desenvolvimento do programa nuclear, e Venezuela, por causa da atuação regional do bolivarismo.

Nas derradeiras semanas do mandato de Lula da Silva, houve a divulgação digital – www.wikileaks.org – em todo o planeta de vasta documentação estadunidense extraída de maneira heterodoxa dos arquivos governamentais.

A veiculação dos dados através de jornais tradicionais do Primeiro Mundo demonstrou sem reservas o modus operandi da Casa Branca nos assuntos globais em defesa de seus interesses e das suas corporações.     

Nesse sentido, ponto de apreensão de Washington, Paris e Moscou havia sido o vínculo incomum entre Brasília e Teerã em decorrência, sobretudo, da finalidade do desdobramento do projeto atômico. Na visão das grandes potências, o Planalto portava-se de forma ingênua. A restrição à movimentação diplomática pátria estendia-se também à de Ancara.   

Diante disso, Rousseff sinalizava que iria modificar o posicionamento do Brasil concernente ao Irã, ao comentar de modo negativo a abstenção do país em novembro do ano anterior, quando da votação onusiana de resolução sobre a condução persa dos direitos humanos. Acompanharam a posição da delegação brasileira mais 56 comitivas – no fim, seriam 80 votos favoráveis e 44 contrários.

Outra questão seria a vinculada à hipotética alteração – embora necessária, saliente-se – do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CS/ONU). Ao cabo de sua gestão de oito anos, Lula da Silva reconheceu que haviam sido meros salamaleques as indicações de membros permanentes daquela estrutura conciliar de convidar o Brasil para compor com eles a encanecida estrutura.

Por isso, Rousseff não se entusiasmaria muito com esta injustificada fixação da política exterior, malgrado não a abandonasse de maneira definitiva, até em decorrência da tradição da aspiração – desde a década de 20, ao começar o pleito durante a administração de Artur Bernardes quando era ainda a Liga das Nações. De toda forma, a Casa Branca nunca havia acenado para o Planalto com vontade sobre o tema.  

No tocante ao relacionamento próximo com os Estados Unidos, segundo o sítio wikileaks, antes mesmo de sua posse em janeiro de 2003, Lula da Silva almejara aproximar-se da primeira potência com o objetivo de eliminar possível má vontade quanto à futura gestão.

Portanto, a nata do círculo trabalhista – o próprio presidente eleito, Aloizio Mercadante, José Dirceu Silva e Antônio Palocci – reunir-se-ia em Brasília com Otto Reich, titular da Secretaria de Assuntos do Hemisfério Ocidental, e Donna Hrinack, embaixadora junto ao Brasil, com o fito de assegurar a manutenção da relação em patamar similar ao do governo a ser sucedido.

Na reservada conferência, o grupo não teria demonstrado nem sequer entusiasmo político com Hugo Chávez e Fidel Castro, símbolos de forma respectiva do nacionalismo e do comunismo e, em face disso, considerados opositores naturais dos desígnios da Casa Branca - https://wikileaks.org/plusd/cables/02BRASILIA4227_a.html.

Se correto o teor do relato diplomático, vez que não haveria a versão pátria difundida até o momento em larga escala, a incipiente acomodação política do trabalhismo tropical teria sido escolha consciente, não imposição externa.

Leia outros artigos do autor sobre o tema

 

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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