Estados Unidos e Brasil – a independência política idealizada ao cabo de 2010

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Com a divulgação digital heterodoxa de vasta documentação norte-americana, através do sitio wikileaks, estudiosos puderam compor quadro mais amplo em suas áreas de pesquisa sobre as administrações de Lula da Silva e de Fernando Henrique Cardoso.

No tocante às forças armadas, havia antigo debate sobre o status operacional da Aeronáutica. Nesse sentido, examinava-se a conveniência de que tipo de jato, de qual quantidade e, por fim, de que país o Brasil deveria comprar.

Isto remontava no mínimo ao período da gestão da socialdemocracia pátria (1995-2002), marco do neoliberalismo tropical. O assunto do comércio interessava a grandes potências, em decorrência do valor da venda – acima de bilhão de dólares.

Em questões de segurança, o preço não é o elemento primordial, porquanto a aquisição de equipamento bélico envolve relacionamento cujo desdobramento pode acimar o militar, de caráter imediato, ao estender-se a segmentos como o de cooperação científica, diplomática, educacional, comercial etc.    

Em termos tecnológicos, o setor castrense nacional tinha ciência da defasagem, mesmo se ele fosse cotejado com os de países da América Latina como Venezuela, Colômbia ou Chile. A preferência da eventual merca da equipagem aérea pelo Brasil seria a princípio o F-18, de acordo com o informe do sítio supracitado, produzido pela Boeing dos Estados Unidos.

Indo adiante, o veículo relatava que o comandante da Aeronáutica local teria se avistado com o titular do Comando do Sul (USSOUTHCOM), momento em que ele teria se manifestado de modo favorável àquele avião, por sua superioridade técnica sobre os demais.

Os concorrentes seriam o Rafale da França e o Gripen da Suécia, embora o Sukhoi da Rússia pudesse ter sido considerado também na análise. Ao cabo, o escolhido seria o sueco, a despeito da inclinação inicial do Planalto para o francês. Uma das razões da opção ao escandinavo se relacionaria com a questão de acesso ao conhecimento técnico da produção.

A compra futura dos jatos aparentava coroar a projeção mundial do país, efêmera mesmo para os otimistas e ilusória para os céticos, ou melhor, realistas. Na altura, a avaliação provisória da política externa soava favorável ao trabalhismo, ao enfatizar que:

O suposto crescimento de Brasília teria possibilitado a ela contrapor-se à soberba de Washington, não por mera extravagância, mas por galhardia, haja vista o posicionamento do Planalto perante o controvertido projeto atômico do Irã, à formação do G-20, em função do agroexportação diante da Organização Mundial do Comércio (OMC), ou à aquisição dos mencionados aviões, por exemplo.

A ampliação do quadro de diplomatas teria exposto a necessidade de fixar patamar superior brasileiro em face de sua crescente importância diante da sociedade internacional. Uma das consequências da saliência seria a abertura de dezenas de novas representações na América Latina, África e Ásia.   

Não se mencionaria, no entanto, o polêmico envio das tropas para o Haiti em 2004, apesar da chancela da Organização das Nações Unidas (ONU), e o exercício da diplomacia lúdica, ao acolher a realização de três importantes eventos globais em menos de dez anos – 2007, 2014 e 2016 – a despeito dos benefícios reduzidos à população, da pouca expressão esportiva nacional (vide o número de medalhados) e dos altos custos para viabilizá-los como a edificação de vultosos estádios de futebol, chamados a partir de sua constituição de arenas.   

Em decorrência da recuperação do crescimento do país no último ano da gestão de Lula da Silva, mercê da persistência dos efeitos negativos da crise econômica no planeta, a postura esperançosa - ou melhor, idealizada – da política externa no curto prazo se sobreporia às críticas de longa duração.      

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Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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