200 anos da Revolução Pernambucana

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Bênção da Bandeira, óleo sobre tela de José Cláudio (2007)

Há um bom tempo, a sociedade brasileira assiste de maneira desanimada à conjugação de decrepitude moral e de incompetência administrativa das principais agremiações políticas do país.

Há exceções naturalmente nos representantes dos partidos de maior composição no Congresso, porém incapazes de se oporem ao desolador vagalhão produzido por seus grupos, cuja consequência destrutiva no cotidiano é inegável – citem-se o desemprego e a insuficiência dos serviços públicos.

O resultado aturde a população, ao proporcionar-lhe recessão e decepção quanto a uma possível modificação do eixo negativo vigente. Nem diante de quadro tão desfavorável, há reação até agora organizada à altura dos problemas.
 
A melancolia atinge de modo indistinto parcela significativa do povo. O momento reúne em si crise política e econômica sem que haja a expectativa de superação de ambas no curto prazo. Outrora, era o descortino da campanha das diretas já nos anos 80 ou o vislumbre do trabalhismo após o malogro da socialdemocracia na década passada.  

Sinal da apatia é a revivescência de dirigentes – seja no segmento trabalhista como Lula da Silva ou no socialdemocrata como Fernando Henrique Cardoso - para eventual sucessão do presidente Michel Miguel Temer, seja de forma direta ou indireta ainda em 2017, em função do desdobramento incontido das adversidades.

Há dois séculos, emergiu primeiro em Pernambuco e logo depois no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte movimento de contestação ao despotismo bragantino - aboletado no Rio de Janeiro após fugir das tropas do imperador Napoleão em solo português - representado pelo ideário republicano e federalista. Entre alguns de seus adeptos, vinha a concepção da abolição da escravatura também.

Influenciados pelos valores norte-americanos e franceses do século 18 e pela viabilidade da independência dos hispano-americanos e anglo-americanos, os insurretos nordestinos agiram por causa da indiferença da burocracia joanina com a situação da região, assinalada pela escassez de boas condições de vida – infraestrutura precária – e pelo aumento de impostos, destinado na prática a sustentar uma aristocracia sem lustro, indolente e faltosa de arrojo e de tirocínio administrativo.

A súbita mudança na Europa Ocidental parece ter reforçado o atraso de Portugal e, por conseguinte, oprimido mais o Brasil, em especial o Nordeste por conta da tributação sobre o açúcar e, em menor escala, o algodão.

O seminário de Olinda seria a base intelectual dos revolucionários e a corte do Rio de Janeiro o ponto de estímulo, ainda que indireto, para a revolta por causa das demandas por ampliação de verbas com o propósito de sustentar, como citado, a burocracia civil na capital e a militar na Guiana Francesa e na Cisplatina.

Embora aspirante a espraiar-se por todo o país, a insurreição não ultrapassou o Nordeste, embora com tentativas de contatos diplomáticos com Europa e Estados Unidos, e mal atingiu três meses de existência – entre março e maio de 1817. A repressão real seria violenta, sem comiseração com os derrotados.

A anistia chegaria somente em 1821 aos remanescentes, entre os quais se destaca Bárbara de Alencar, talvez a única condenada do movimento – com os filhos, ela participou da efêmera República do Crato, localizada na região do Cariri (CE).

Em face disso, ela poderia ser considerada a primeira prisioneira política do Brasil, malgrado ser mais lembrada na cultura contemporânea por ser ascendente de José de Alencar, Raquel de Queirós e, por último, de Paulo Coelho.

Se falta hoje na sociedade entusiasmo para empunhar de maneira coerente o ideário da transformação, há duzentos anos, não. O fracasso de 1817 não significaria a interrupção da consciência da ação perante o absolutismo luso; ele levaria à outra movimentação maior: a Confederação do Equador em 1824. 

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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