Brasil – viagens presidenciais

0
0
0
s2sdefault

Em regimes republicanos democráticos, a exaltação a figuras de Estado deveria ser mais contida do que a de similares monárquicos por dois motivos: primeiro, a superioridade do papel da organização coletiva, o partido político, sobre o do filiado em decorrência da extensão geográfica e, ao mesmo tempo, temporal – vide a idade de determinadas agremiações no arco norte-atlântico.

Segundo, adicione-se a menor primazia do presidente ou do primeiro-ministro em face do rei se considerada a duração do governo ou do mandato – eleição de um versus vitaliciedade de outro.

Basta evocar do passado expressões como ‘O Século de Luís XIV’ ou ‘A Inglaterra Vitoriana’. Ditadores localizam-se próximos dos dinastas nesse campo, haja vista sua aspiração de permanência – ‘A Era Vargas’.   

Na tradição diplomática, o dirigente-mor avistava-se com outro a não ser que fosse para ratificar entendimento firmado anteriormente entre ministros ou embaixadores. Nesse sentido, resguardavam-se os mandatários nas demoradas e intricadas negociações porquanto eram eles a última instância do país. O risco de eventual fracasso entre os decisores de maior importância não valeria a pena para a sociedade.

Desta maneira, eles não podiam estranhar-se ou desentender-se com suas contrapartes de modo que se interrompesse determinado processo de interesse, às vezes vital, da população ou da administração como os tratados de paz.

Por isso, não podiam encabeçar a linha de frente. Se seu representante falhasse, ele poderia tomar as rédeas e reparar os erros, porém, se ele não cumprisse a tarefa não haveria solução possível à vista no curto prazo.  

No entanto, burocracias específicas, como as das chancelarias, por exemplo, mantêm o costume de sublimar a atuação cotidiana de governantes com o propósito de duplo benefício político: o de si mesmas e o do chefe de Estado, por vezes influenciado por vaidade momentânea extrema.

Projetada positivamente perante a opinião pública, sua dimensão de estadista ampliar-se-ia e, por conseguinte, seu prestígio e sua glória, embora passageira. Na prática, tal situação traria consigo para ele e sua agremiação votos em larga escala de sorte que conseguiria o grupo continuar à frente do poder.

Com o acelerado avanço tecnológico nas formas de transportes, dirigentes deslocam-se com mais desenvoltura apesar de, por outro, a modernização nos modos de comunicação suplantar isso.

Contudo, o impacto dos meios de informação diante de populações transcende a mera necessidade de encaminhamento administrativo dos atos. Até líderes religiosos consideram isso na elaboração de seu planejamento, como é o caso do sumo pontífice e da rainha da Grã-Bretanha.

Acompanhar-se de dirigentes renomados fortaleceria a situação interna da gestão dos mandatários. No período da Guerra Fria, as referências vitais eram Estados Unidos e União Soviética.

No Ocidente, ao eleger-se para o posto máximo, aguardava-se o vencedor a visitar em primeiro lugar Washington, onde era recebido com deferência protocolar. O Brasil subscrevia isso, ainda que a viagem a Buenos Aires fosse até mais significativa no dia a dia.

Transitar também auxiliaria a atenuar o desgaste interno das gestões e poderia de maneira eventual acarretar recuperação de popularidade, desde que os países escolhidos tivessem afinidade ideológica ou econômica ou simbolizassem eles ou seus governantes aspectos positivos da política internacional.

Em seu recente deslocamento à Noruega e Rússia, o mandatário Michel Miguel Temer não desfrutou disso. Como mencionado acima, teria sido adequado enviar seus assessores antes com a finalidade de avaliar o impacto de sua presença diante da primeira-ministra norueguesa e do presidente russo.  

Assim, poupar-se-ia o dirigente de desnecessária corrosão diplomática, visto que do esfacelamento interno sua situação já não é atrativa há bom tempo.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados