Estados Unidos e Brasil: divergência em torno da Venezuela em transição

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A implicância de Washington com Caracas nas últimas duas décadas é inconteste, por causa da conformação teórica do bolivarianismo, cuja execução no dia a dia havia sido impulsionada pela fugaz petrodiplomacia, com resultados benéficos, mesmo sem ser estruturais, para a população local por bom período de tempo.

Atualmente, a Venezuela não chama a atenção da sociedade internacional por sua contínua carranca com os Estados Unidos, porém, pela gravidade de seus problemas internos, em especial os socioeconômicos, com reflexos perceptíveis na fronteira do Brasil – no caso, em Roraima, incapaz de prover auxílio adequado aos recém-chegados. O número estimado de emigrantes aproxima-se de cinquenta mil.

Em face disso, Brasília tem acompanhado desde então a relação tumultuosa entre eles com prudência, por um lado, porque se identificava politicamente em determinados momentos com o polêmico vizinho e com desafogo, por outro, porque a poderosa mira da Casa Branca havia fixado outro alvo.

No transcorrer da administração trabalhista (2003-2016), dois governantes foram destituídos na região latino-americana: Manuel Zelaya, em Honduras em junho de 2009, e dom Fernando Lugo no Paraguai, em junho de 2012.

Registre-se uma tentativa frustrada apenas de substituição de dirigente, através de golpe de Estado, ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso: a do coronel da reserva Hugo Chávez em abril de 2002. Persevera até agora o debate com vistas a avaliar o grau de eventual participação da Casa Branca em todos os três movimentos de substituição de presidentes.

Em 2013, como já dito antes, não havia estranhamento com a gestão de Dilma Rousseff por parte de Barack Obama, ainda que não existisse também entusiasmo por ela. Cogitava-se na época visita de alto nível da dirigente ao território norte-americano, com o propósito de reiterar a estabilidade do relacionamento – o derradeiro encontro de Estado ocorrera ao tempo do primeiro mandato de Fernando Henrique.

Preocupação de monta pelos Estados Unidos havia com o México em decorrência do poderio ascendente do narcotráfico na linha divisória entre os territórios, malgrado a caríssima e severa vigilância, e da persistente imigração ilegal – estimava-se em mais de dez milhões o número de estrangeiros sem autorização em solo norte-americano, dos quais a metade seria de origem deste país.  

No entanto, a importância econômica e política do Brasil fundamentava atenção constante: embora o deslocamento de Dilma Rousseff aos Estados Unidos em outubro de 2013 não tivesse sido confirmado de modo oficial, a Casa Branca ratificaria ao Planalto a presença do vice-presidente Joe Biden em maio do mesmo ano em viagem em torno da qual este dignitário incluiria Colômbia e Trinidad e Tobago.

Naquele período, o recente ingresso da Venezuela no Mercosul não cativava os Estados Unidos, por ser infenso desde o começo à administração bolivariana; com o falecimento de Chávez em março de 2013, a segunda fase do ideário se iniciaria com a ascensão de Nicolas Maduro, ainda hoje à frente do poder com dificuldades.

Todavia, a adesão de Caracas ao bloco poderia torná-lo potência energética de fato, dado que o novo membro detinha reservas petrolíferas estimadas entre as mais altas do planeta, com cotação do produto ascendente.

Destarte, o Brasil poderia beneficiar-se disso, ao ampliar sua proeminência perante a comunidade global, visto que sua liderança no grupo regional era cativa por causa de seu porte. No entanto, o Planalto não tinha de fato projeto de presença mundial, apesar da retórica de que o país teria finalmente sido reconhecido pelas grandes potências. Como atestado do desinteresse governamental, a viagem de alto nível da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos nem sequer aconteceria.  

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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