Estados Unidos e Brasil: a vinda de Joe Biden

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Em maio de 2013, havia a expectativa de que a presidente Dilma Rousseff aportasse nos Estados Unidos em outubro do mesmo ano, momento em que Brasília poderia anunciar a Washington em tom solene a opção de aquisição dos aviões F-18, produzidos pela Boeing. De acordo com a Casa Branca, seria ela a única galardoada com o status de visita de Estado naquela altura.

Contudo, Paris e Estocolmo disputavam a preferência nacional aérea em um processo de compra cuja origem remontava ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. No primeiro caso, figurava o Rafale do grupo Dassault, ao passo que no segundo o Gripen, da Saab, pertencente à família Wallenberg. Em certa medida, todos acenavam com parceria com a Embraer.    

O relacionamento entre os dois principais países da região americana situava-se em bom patamar – a Casa Branca havia até ampliado o atendimento consular, com mais duas unidades em solo pátrio, em decorrência da expansão do fluxo de turistas e de estudantes brasileiros para lá.

Com a proximidade política de ambos, esperavam os norte-americanos o benefício de participar das obras ou dos serviços da portentosa e dispendiosa Copa do Mundo de 2014, vide os estádios, e das Olimpíadas de 2016. Hoje, o conjunto edificado é fonte de desilusões lúdicas e financeiras; ontem, ‘miríades’ de ilusória alegria para parcela da população.

Como preparativo para o deslocamento da dirigente pátria ao norte do continente no final de 2013, o vice-presidente Joe Biden viria ao Brasil, mas também à Colômbia - parceira militar na oposição às guerrilhas rurais (consideradas parcialmente terroristas pelo Departamento de Estado como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARCs - e o Exército de Libertação Nacional – ELN - desde outubro de 1997) e econômico em função de tratado de livre comércio assinado em ano anterior - e a Trinidad e Tobago.  

Em troca de oportunidades na economia local, os Estados Unidos poderiam acenar ao país com a remota reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CS/ONU) e obter quiçá condições para firmar posição comum acerca da postura comercial da China, avaliada como inadequada em termos de competição global.

A pauta no século 21 renovava-se: em vez de contenção ao comunismo, agora era contra o terrorismo. O antiamericanismo no Brasil suavizava-se até em face do encerramento da Guerra Fria e da acelerada transformação política do trabalhismo no poder, mais próximo do posicionamento patronal.

Além do desenvolvimento das obras das competições esportivas, a questão energética atraía a atenção da Casa Branca, de modo que Biden iria conhecer dois centros avançados de pesquisa: o do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – conhecido como COPPE - e o da própria Petrobrás.  

Mesuras à parte do mandatário washingtoniano como a de que o Brasil teria papel importante no mundo, a de que seria uma democracia consolidada, ao superar as adversidades sociais, ou a de que seria parceiro fundamental na relação com os Estados Unidos, preocupavam-se alguns, já no primeiro semestre, com a falta de tino da gestão trabalhista.

O desenvolvimentismo do país era insuficiente, a despeito das inúmeras concessões ao empresariado como isenção de impostos a vários setores como o automobilístico; o carisma da presidente era pequeno, haja vista sua dificuldade de dialogar com o parlamento e com outros segmentos sociais como movimentos populares. Enfim, o prestígio da visita norte-americana não encobria o arrefecimento do modelo político-econômico vigente havia uma década.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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