Estados Unidos e Brasil: a Copa como solução involuntária da tensão

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Chega-se ao fim de 2018 com a expectativa de que o relacionamento costumeiro entre Washington e Brasília se altere no próximo ano, de sorte que haja o estabelecimento de várias afinidades eletivas entre as quais se contemplem o rumo da América do Sul (com o distanciamento do Planalto de Miraflores), o Oriente Médio (com o polêmico deslocamento da representação diplomática pátria de Telavive para Jerusalém) e o leste da Ásia (com o afastamento da administração federal de Pequim, malgrado a consistente dependência agrícola).

Caso sejam implementadas as novas diretrizes, conquanto haja dificuldades no curto prazo, seriam o marco de uma política exterior de feitio bastante liberal quanto à postura econômica, de agrado aos republicanos norte-americanos e, portanto, alinhada ao seu norte retórico.

Outrossim, seria o enlace a sepultar as desconfianças mútuas do recente período trabalhista no Brasil e democrata nos Estados Unidos, simbolizadas, por exemplo, pelo escândalo da espionagem digital, revelado pelo Wikileaks em 2014.

Durante o longo conflito bipolar na segunda metade do século vinte, a bisbilhotice governamental das grandes potências era extenuante e cara, ao exigir paciência na obtenção de dados e demandar investimentos na formação de quadros preparados e, ao mesmo tempo, fiéis a seus países e a suas ideologias.

Diante da cautela requerida, Estados Unidos e União Soviética surpreendiam-se vez ou outra com a descoberta de agentes duplos, cujas trajetórias em livros ou filmes seriam bem retratadas. Um caso muito célebre foi o dos britânicos – os chamados ‘Cinco de Cambridge’ com movimentação nas décadas de quarenta e de cinquenta. Hoje, algoritmos executam a maior parte da coleta de informações, ao ter como base as redes digitais, sem ocasionar sobressaltos para governos.

Em julho de 2014, o trabalhismo nacional pretendeu valer-se da Copa do Mundo para apresentar uma sociedade diferente ao planeta, aparentemente menos desigual em termos socioeconômicos e mais cosmopolita, isto é, globalizada de fato.

A ufania ou o deslumbre em Brasília era visível, a despeito das persistentes lembranças da crise do ano anterior, manifesta em várias cidades do país pela insatisfação nem sempre ordeira da população, porém minimizada naquela altura, ao se salientar apenas o descontentamento com o reajuste das tarifas de transporte urbano.

Não obstante a contrariedade com o indiscreto comportamento cibernético da Casa Branca, esta poderia auxiliar o Planalto na segurança do evento esportivo ao longo de sua realização, a fim de prevenir eventuais ações extremistas – ao cabo, o único incidente de monta na Copa à comissão organizadora seria a inesperada, mas humilhante, eliminação do Brasil na competição.

No segmento militar, havia queixas, embora reservadas, de que os norte-americanos dificultavam o acesso a determinados componentes de reposição dos equipamentos como as aeronaves. Com isso, tornava-se mais atribulada a manutenção, considerado já parco o número de tanques, aviões e submarinos em utilização, em decorrência da extensão continental do território nacional.

Encerrada a participação pátria na Copa do Mundo, o governo trabalhista situaria de modo momentâneo a política exterior em posição secundária, com o propósito de concentrar-se na eleição presidencial de outubro. Desta maneira, o atrito com os Estados Unidos terminaria por ser superado, por razão diversa da origem do grave problema.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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