Pensando a longo prazo – Luta de classes e “ralé”

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O “exercício silencioso da exploração construída e consentida socialmente”, que A Tolice da Inteligência Brasileira destaca, faz parte daquilo que Marx chama de “mistificação”. Esta se expressa tanto na parola de que o capitalista está fazendo uma benfeitoria ao “dar trabalho” ao operário, quanto na suposição de que tal “mistificação” é o único aspecto da “luta de classes”. Na realidade, a luta de classes é o inverso daquela “mistificação” quando se efetiva como luta aberta. Em seus primeiros passos, ela ocorre a partir da resistência, no chão da fábrica ou de comércios e serviços, às ordens dos chefetes, à ausência de segurança no trabalho, ao ritmo exaustivo da atividade, e a uma série enorme de pequenos atritos e desavenças.

A luta de classes, pelo lado operário, também transborda para lutas econômicas mais duras, como as greves, e para movimentos sociais e políticos de diferentes tipos. Na história da luta de classes entre burgueses e proletários, tais movimentos sociais e políticos incluíram, pelo menos, tanto a econômica e humana luta pela jornada de oito horas quanto a luta política pelo voto universal e secreto. O valor dessas e de outras inúmeras lutas dos trabalhadores, enquanto persistir a dominação capitalista, vai muito além da possível insignificância dos seus resultados econômicos, sociais e políticos.

O valor de todas essas lutas reside, acima de tudo, nas consequências morais e políticas sobre os conceitos e maneiras de pensar dos trabalhadores. Elas contribuem para os trabalhadores adquirirem conhecimento e consciência do ”exercício silencioso da exploração”, das repressões “silenciosas” e, também, das repressões abertas e violentas do Estado burguês sobre a organização e as lutas dos trabalhadores. Repressões que se elevam ao máximo quando tais lutas tendem a impor a esse Estado reformas democráticas, ou a transformar-se em revoltas e revoluções.

Descartando essa realidade, A Tolice... tenta ser inovadora quanto à conceituação das classes sociais da “moderna sociedade capitalista” brasileira. Partindo da base para o cume de uma pirâmide, ela denomina as classes sociais como “ralé”, “batalhadores”, “classes médias” e “classes endinheiradas”. A “ralé” seria a classe dos “desclassificados brasileiros”, que formariam uma “classe social específica” pelas “periferias das grandes cidades do sudeste (e) no sertão do Nordeste”. Seria uma “classe social reduzida à ‘energia muscular’, por não dispor “das precondições para a ‘incorporação do capital cultural’ indispensável no capitalismo moderno para o trabalho no mercado competitivo”. Não possuiria “os pressupostos indispensáveis ao aprendizado do papel social de ‘produtor útil’ no contexto da economia competitiva”.

Constituindo a maior parte da população, (1/3, segundo A Tolice...), a “ralé” estaria “abaixo” da classe trabalhadora, sendo “explorada de modo muito mais cruel”. Estaria “condenada a exercer todos os trabalhos mais duros, humilhantes sujos, pesados e perigosos”. Teria seu tempo “roubado”, principalmente pela classe média, para manter os “privilégios” desta. Não seria “passível de ser confundida com o ‘exército industrial de reserva’” marxista, já que “no capitalismo do tempo de Marx a quantidade de incorporação do conhecimento necessário ao trabalho era mínima”.

Reconhecemos que no Brasil, especialmente no final do “milagre” ditatorial dos anos 1970, formou-se uma imensa massa de seres humanos “excluídos”. Não porque a falta de “conhecimento necessário” fosse um empecilho, mas porque a crise econômica e, depois, a política econômica desindustrializante neoliberal, impediram o mercado de trabalho de se expandir e incorporar os milhões de seres que haviam sido deslocados dos campos pela “modernização” agrária, e os milhões de seus descendentes já urbanos.

Por isso discordamos em diversos aspectos das características atribuídas por A Tolice... a esse setor social. Primeiro, por classificá-la de “ralé”, termo pejorativo que o conjunto da burguesia e parte da pequena burguesia brasileira utilizam para se referir a todos os trabalhadores e pobres. Depois, por considerar que essa massa humana excluída do mercado de trabalho não está apenas espalhada pelas “periferias das grandes cidades do Sudeste (e) no sertão do Nordeste”, mas também pelas periferias das cidades do Sul, do Centro-Oeste e do Norte. Portanto, por todo o Brasil.

Também discordamos da suposição de que esse setor ou classe social não tenha as “precondições” para o trabalho “moderno”. Essa visão negativa sobre a ausência dos “pressupostos indispensáveis” ao aprendizado do papel social de “produtor útil” no contexto da “economia competitiva” é parecida com a tese vigente a respeito da incorporação dos “vagabundos ingleses” às máquinas da revolução industrial do século 19. Mas a história mostrou justamente o oposto, tanto na industrialização inglesa daquela época quanto nos diversos “soluços” de industrialização brasileira.

Os trabalhadores dos campos ingleses, assim como os enxotados dos campos brasileiros, foram capazes de aprender e adaptar-se aos tipos “modernos” de trabalho, sejam os teares mecânicos britânicos, sejam as linhas de montagem das indústrias dos anos 1960 e 1970. Em ambos os casos, a indústria e o Estado capitalistas foram capazes de criar o “trabalhador moderno”, treinando-o no “reflexo automático e naturalizado”, na “disciplina”, no “autocontrole... ao ritmo das máquinas”, e no “conhecimento” de uma “operação bem sucedida”.

A chamada “incorporação de capital cultural”, que caracterizaria “as classes trabalhadoras modernas”, tem se materializado toda vez que o capital em processo de industrialização precisa de mão-de-obra. Assim, não foi por acaso nem por “economicismo” que A Tolice... se obrigou a reconhecer que a “fronteira entre a ralé e os batalhadores sempre flui na realidade concreta”. Ou seja, havendo condições para o crescimento econômico e a geração de emprego, o capital e seu Estado providenciam a formação necessária da força de trabalho.

A própria A Tolice... reconhece que ”a virtude do autocontrole e da disciplina não é natural”, mas “um aprendizado de classe”. Ou seja, “aprendizado” no sentido da necessidade da classe capitalista, como ficou demonstrado mesmo no pífio crescimento brasileiro entre os anos 2003 e 2013, quando, ainda segundo A Tolice..., “cerca de 40 milhões” de “excluídos” se incorporaram ao mercado de trabalho, em trabalhos tanto “antigos“ quanto “modernos”.

A Tolice... se preocupa, ainda, em não incluir sua “ralé” no “lupemproletariado marxista”, que confunde com “exército industrial de reserva do capital”. E coloca nesse setor social trabalhadores incluídos no mercado de trabalho, como motoboys e empregados domésticos. Uns e outros são trabalhadores assalariados, embora nem sempre com a “carteira assinada” que lhes possibilitaria outros direitos sociais, além do salário. São também trabalhadores autônomos, “subsumidos ao capital” através de outras formas de exploração. Mas todos trabalham, de uma forma ou de outra, no mercado, não fazendo parte de uma classe “excluída” de tal mercado.  

Já o lumpenproletariado, segundo Marx, é uma massa distinta do proletariado industrial, conformada por “ratazanas”, delinquentes e vagabundos “de todas as classes”, que vivem dos despojos da sociedade, sem profissão, sem pátria e sem lugar. Supor que esse “lumpenproletariado” inexiste no Brasil, mesmo como fração da classe excluída, é não enxergar o que se passa em nosso país, onde as mortes por assassinatos, assaltos, tráfico de drogas, choques com a polícia etc. etc. são em número maior do que em alguns países que se encontram em guerra civil.

Já o “exército industrial de reserva” é um subproduto da evolução técnica do capitalismo. Este cria e recria, permanentemente, um excedente relativo de trabalhadores desempregados. Estes funcionam, ao mesmo tempo, como concorrentes dos trabalhadores empregados, forçando os salários para baixo. De forma geral, ao contrário de A Tolice..., podemos dizer que, entre os “excluídos” da sociedade brasileira também se encontram, como fração, os componentes do “exército industrial de reserva”.

Isso porque, ao contrário do que Marx pensava, no processo de desenvolvimento capitalista tal “exército de reserva” não assume apenas a forma de “oscilação cíclica”. Ele também pode assumir a forma de “corrente permanente”. No caso brasileiro, em função de sua singularidade subordinada, dependente, e de industrialização por “soluços”, o exército industrial de reserva ganhou o duplo aspecto de “oscilação cíclica” e de “corrente permanente”. Isso faz com que os componentes do “exército de reserva”, por seu volume populacional e por sua longa continuidade na “exclusão”, possam ser caracterizados como uma fração da “classe social excluída”.

Ou seja, essa parcela é “excluída” porque a sociedade e a economia capitalistas brasileiras não conseguiram se conformar como “desenvolvidas”. Mantiveram seu caráter subordinado e dependente, monopolizado e/ou oligopolizado, principalmente por corporações estrangeiras. Seus “soluços” de crescimento não mantiveram a linha industrializante imprescindível ao “desenvolvimento” no sentido capitalista. Foram sempre de recuperação pouco consistente, mesmo entre 2003 e 2013. E logo afundaram em crises cuja superação, principalmente com as tendências erráticas do capital global e da burguesia cabocla, se torna cada vez mais difícil.

Nessas condições, se agregarmos aos problemas da sociedade e da economia brasileira o aumento populacional, podemos deduzir que as frações da classe dos excluídos devem crescer ainda mais nos próximos anos, principalmente se for mantida a linha “neoneoliberal” (sic) dos representantes políticos e econômicos golpistas das burguesias que dominam o país.

Por tudo isso, ao contrário de A Tolice..., não consideramos que a “crítica social” tenha que “começar demonstrando que a classe perdedora da universalização do capitalismo por todo o globo” “não é a classe trabalhadora, como pensava Marx”. E, menos ainda, que a geração dessa classe perdedora, ou excluída, obedeça “a uma lógica semelhante nos países centrais e periféricos”, já que seria “possível mostrar, empírica e teoricamente”, que existem “classes sociais globais”. Estas compartilhariam de “uma gênese social e de um destino social semelhante”, pois a “lógica simbólica de exclusão social” estaria “presente em todos os lugares do mundo”, na “luta por recursos escassos”.

Algo a conferir!

Confira os outros textos do autor sobre o livro de Jessé Souza.


Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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