Apertem os cintos

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Donald Trump apresentou-se eleitoralmente como “oposição a Wall Street” e por “America First”. Em síntese: oposição à plutocracia financeira dominante; protecionismo da economia estadunidense, com o retorno das fábricas “exportadas” pela política “globalista”; fechamento das fronteiras às migrações de islâmicos e latinos; recriação dos empregos perdidos com aquelas exportações e migrações; e abandono da política de intervenções militares no exterior para reduzir os déficits orçamentários do país.

Ao tomar posse, tentou fechar religiosamente as fronteiras aos emigrantes islâmicos. Por outro lado, superando todos os que ocuparam a Casa Branca no passado, levou para cargos executivos do governo dos Estados Unidos o maior plantel já visto de altos membros das plutocracias financeira (Wall Street), industrial e comercial do capitalismo norte-americano. Rompendo todos os acordos de controle das emissões de gases poluentes, revogou as restrições às indústrias de carvão e petróleo, embora tais indústrias não sejam intensivas em trabalho. Finalmente, para completar a tradução inicial do que realmente pretendia ao ser eleito, Trump destinou uma verba considerável à produção de novas armas e decidiu bombardear e aumentar a intervenção na Síria, e preparar ações militares contra a Coréia do Norte e pressionar a Rússia.

Esse conjunto de medidas, acompanhadas de fraseologia que lembra as justificativas das agressões de Mussolini e Hitler na África do Norte e na Europa nos anos 1930, deveria acender o sinal de alerta de “apertem os cintos”. Na melhor das hipóteses, o avião está com problemas eletromecânicos sérios e o piloto entrou em crise, mas os outros tripulantes conseguem aterrissar. Na pior das hipóteses, os problemas do avião aumentam, os demais tripulantes também entram em crise e o desastre torna-se inevitável.

Apesar disso, alguns círculos de esquerda, a exemplo de Walter Formento, Wim Diercksens e Mario Sosa, num texto em espanhol intitulado Globalización, Desglobalización, Capital y Crisis Global, afirmam que estamos apenas diante de uma desglobalização, ou reversão da globalização, decorrente da depressão, recessão, redução do ritmo de crescimento econômico, fechamento de fábricas, estouro de bolhas especulativas, redução do comércio mundial, disputas cambiais, entesouramentos, elevação dos desempregos estrutural e conjuntural, pauperização crescente de grandes setores populacionais e migrações massivas.

O mundo estaria envolvido numa batalha entre as frações mais poderosas do capital financeiro internacional (uma desglobalista e outra globalista), tendo como epicentro os Estados Unidos, que teria perdido a capacidade para uma disputa militar contra outras potências concorrentes e correria o risco de se ver envolvido em conflitos armados internos. Na política, tal desglobalização se refletiria no surgimento de movimentos políticos de direita com forte viés nacionalista e protecionista (a exemplo do Brexit e de Trump), e também na emergência de movimentos políticos que apontam alternativas ao sistema capitalista. Tais fatos apontariam para uma fase de transição a outras formas de poder, de valor e de Estado, incluindo um “pós-capitalismo”.



Na disputa entre as frações do capital financeiro, a fração globalista procuraria estigmatizar a alternativa industrialista, nacionalista e protecionista de Trump, taxando-a de fascista e, ao mesmo tempo, apresentando-se como antifascista, de modo a conquistar aval para um Estado Global capaz de debelar a crise que ela mesma criou. Nos anos 1930, crise idêntica teria sido promovida pela luta entre frações imperialistas, levando ao crack da bolsa de New York, à quebra de empresas, e ao afundamento do liberalismo por não mais servir à burguesia “expansionista”.

Do mesmo modo que agora, o liberalismo teria sido substituído por um protecionismo de corte nacionalista nos países centrais que haviam se atrasado em dar um salto na escala da composição orgânica de seu capital. Os países capitalistas em ofensiva chamavam-se “aliados” e “democráticos”, e os em atraso eram o “eixo” e os “fascistas”. Crises, divisões e lutas de poder fragmentaram todos os países, não havendo um só país central no qual não houvesse a fratura do capital financeiro imperialista nos dois “bandos”. O capital financeiro hegemônico era quem definia a que “bando” pertencia cada país.

Falando francamente, essa descrição sobre a divisão entre “aliados” e “fascistas” não passa de uma caricatura da história. Não foi a luta entre frações imperialistas que levou ao crack da bolsa de New York e à quebra de empresas, e afundou o liberalismo por não mais servir à burguesia “expansionista”. O crack daquela Bolsa foi mais um na sucessão de crises dos países capitalistas avançados, crises em que o conjunto das contradições do capital promove a destruição das forças produtivas, inclusive através de guerras.

As crises financeiras, econômicas e sociais sempre foram inerentes ao desenvolvimento histórico do capitalismo. Todas elas, pelo menos desde a de 1857, tiveram um efeito tanto destrutivo, quanto de ressurgimento para uma nova etapa de desenvolvimento. Na crise do final do século 19 e início do 20 já haviam emergido os trustes, a estreita fusão entre o capital financeiro e o capital industrial, e um acirramento da disputa imperialista pela redivisão do sistema colonial que permitia ao capital imperialista lucros excedentes.

Essa crise colocou em guerra mundial, na segundo década do século 20, a Alemanha (retardatária no processo de desenvolvimento capitalista), de um lado, e a Inglaterra, a França (as duas maiores potências coloniais de então) e os Estados Unidos, apesar da promessa “isolacionista” de Woodrow Wilson, de outro.

A crise dos anos 1930 ocorreu numa situação em que o mundo continuava dividido entre as potências capitalistas avançadas (Inglaterra, França, Estados Unidos e Japão), países independentes em processo de desenvolvimento capitalista (Alemanha, Itália), países colonizados (Índia, Indochina e a maior parte da África), e países formalmente independentes, mas semicolonizados (China, Brasil etc.). Colônias e semicolônias tinham um desenvolvimento capitalista insignificante, tanto em termos de forças produtivas quanto em termos da disseminação do trabalho assalariado.

Além dessa divisão política estritamente capitalista (independentes, colônias e semicolônias), existia um estranho no ninho, surgido como resultado da primeira guerra mundial imperialista: a União Soviética. Lá estava sendo formalmente construído um sistema econômico e social socialista, pretensamente de superação do capitalismo.

Por outro lado, da mesma forma que as anteriores, a crise de 1929 teve origem na superprodução industrial, em imensas bolhas financeiras e em outras contradições do modo de produção do capital. As crises do final do século 19 e início do 20, e a de 1929, demoraram mais de uma década para se mostrarem como disputas globais pela redivisão colonial. E ambas tiveram o imperialismo alemão como principal reivindicante e principal perdedor.

A Alemanha foi espoliada pelas indenizações de guerra e proibida de se armar. A reação interna, além da fracassada tentativa revolucionária espartaquista, consistiu no agravamento da “questão nacional” e no surgimento de um movimento nacionalista e direitista extremado, o “nacional socialismo”, ou nazismo. Na crise dos anos 1930, os nazistas reivindicaram o rearmamento para criar “emprego para todos”, “proteger” as populações germânicas que haviam migrado para a Silésia e outras regiões do leste, e se expandir sobre o território soviético, liquidando a experiência “bolchevique”.

As políticas nazistas tiveram o apoio da maior parte da burguesia alemã (industrial e financeira) e conquistaram parcelas populares, inclusive das que antes pendiam para os socialdemocratas. Por outro lado, a Inglaterra e a França estimularam a pretensão nazista de liquidar a experiência soviética através da invasão e ocupação da URSS. Na Conferência de Munique, em 1938, concordaram com a ocupação da Tchecoslováquia como passo para tal invasão.

Somente quando cresceram os movimentos populares e políticos contra o fascismo e o nazismo aquelas potências começaram a se preocupar com a Alemanha. E só romperam e declararam guerra a ela quando, em seu curso para atacar a URSS, invadiu e ocupou a Polônia, em 1939. Foi essa ação que levou ao desencadeamento da segunda guerra mundial, obrigando a Alemanha a ocupar a Europa ocidental antes de se voltar novamente para leste.

Portanto, isso nada teve a ver com a substituição do liberalismo por um “protecionismo de corte nacionalista”, destinado a dar um “salto na composição orgânica” do capital. Teve tudo a ver com que o “salto na composição orgânica do capital” forçava a queda da taxa de lucros, que só podia ser revertida com uma nova divisão colonial do mundo, exigindo nova corrida armamentista.

“Democráticos” e “não democráticos” mantiveram-se “aliados” pela divisão da União Soviética. E desfizeram tal “aliança” quando ficou evidente que a Alemanha nazista pretendia muito mais, abrindo as condições para uma até então impensável aliança que incluiu países ocupados da Europa, Inglaterra, União Soviética e, depois, Estados Unidos.

Foi nesse processo intrincado que os países governados por correntes políticas fascistas e nazistas aliaram-se sob a denominação de “eixo”. Embora fossem capitalistas como os “democráticos”, o fato de haverem erigido Estados ditatoriais policiais, terroristas, promotores de assassinatos em massa de militantes de esquerda e de minorias nacionais e religiosas, não os iguala aos países formalmente “democráticos”, nem deve ser tratado como de menor importância.

A guerra contra o nazismo e o fascismo não foi travada apenas pelos Estados supostamente “democráticos”. A União Soviética perdeu mais de 30 milhões de seus habitantes. Guerrilhas comandados por correntes de esquerda e nacionalistas espalharam-se pelo mundo.

Supor que tal guerra se deveu à fratura do capital financeiro em dois “bandos”, e que era a fração hegemônica financeira quem definia a que “bando” pertencia cada país, é uma aberração histórica. Não ajuda a entender o momento mundial atual, nem a compreender o perigo embutido no renascimento do fascismo e do nazismo, tanto nos Estados Unidos quanto em diversos outros países. Nem a necessidade urgente de, pelo menos, apertar os cintos, no momento em que Trump decide por em marcha sua máquina de guerra.

 

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Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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